sexta-feira, 20 de agosto de 2010

Esnobes de plumagem eriçada

Quem está entrando agora na fascinante roda do vinho não pode deixar de conhecer um guia diferente de todos os outros – The Official Guide to Wine Snobbery (Barricade/2003), de Leonard S. Bernstein. O livro pode ser lido de duas maneiras: como manual para compor coro com as aves raras das salas de degustação (capazes de “eriçar a plumagem verbal” diante de uma boa garrafa de Cabernet Sauvignon, diz a crítica Natalie MacLean) ou feito crítica às afetações e salamaleques que podem ser evitados sem prejuízo dos ritos do vinho e de todos os seus prazeres. “Limpar o palato” com um pequeno pedaço de pão é a senha de entrada na fraternidade, escreve Bernstein, que valoriza essa prática para o bom desfrute da bebida. Recomenda com humor: nunca anuncie “estou limpando meu palato”, pois vai soar como um gargarejo à base de Listerine. O ponto alto para o esnobe, escreve Bernstein, o palco onde pode brilhar sem inibição, é no ritual da decantação. Decantar o vinho, cerimônia que os ingleses sempre levaram à risca com seus vinhos do Porto e Clarets, tanto serve para remover borras de tintos de longa guarda, como simplesmente para deixar a bebida respirar. A sofisticação estética fica por conta do anfitrião, na escolha de um belo decanter – as casas de cristais criaram peças magníficas – combinado com uma rústica vela. Há algo mais teatral do que identificar a chegada dos resíduos iluminando a garrafa por trás? O autor considera também outra regra a ser enfrentada na vida e nos salões, a de que somente os vinhos envelhecidos são vinhos apreciáveis. Para isso, maneja uma metáfora cheia de arte: um colecionador pode ter um valorizado Jackson Pollock para mostrar ao vizinho, mas vai ter também um Rembrandt na sala. “Não estamos falando de dinheiro, mas de tradição, idade.” (Pergunto: não há tradição na degustação de vinhos recém saídos do tonel, o viticultor piemontês abrindo seu honesto Barbera ainda com um quê de fermentação, colocando na mesa rústica a massa trufada e a carne de caça como faziam seus antepassados?) Bernstein lembra que os esnobes estão atentos aos dilemas das harmonizações (podem até cair em esparrelas: afinal, que molho escolher para o pato no Lutèce? Laranja ou Framboesa?) O fato é que são facilmente reconhecíveis, incapazes de disparar “Chambertains aqui , Musignys acolá”, sem citar também Troisgros pra lá e prá cá e um Bocuse a cada meia hora de conversa.

Diário do Comércio de 20/08/2010

Um comentário:

namor2 disse...

Caríssimo.
Aprecio vinhos desde criança ajudando a minha avó a fazer alquimias caseiras em épocas de festa, costume trazidos da Velha Europaas. Hoje, bem mais velho, temos um grupo de degustação todo de egressos da COPPE, mas nada disso importa, escrevo para falar da qualidade superior de seu texto, tão bom quanto alguns toscanos que parece-me vc gosta muito. Lí seu livro e o recomendei a meio mundo, por um lado pelos vinhos mas sobretudo pela qualidade da escrita. Comentei isso com amigos jornalistas.
Agora permita-me uma sugestão: instale um motor de busca nesta base de artigos de forma que fique mais fácil achar um artigo, por exemplo, que cite Dante ou outro sobre as vinhas de Mendoza.
Boa sorte.
Luiz Blank