quarta-feira, 17 de agosto de 2016

Desculpe, bebi demais

A carta-padrão a seguir foi redigida no ano de 856 pelos funcionários do Departamento de Etiqueta de Dunhuang, uma região da China. Uma carta que os bêbados arrependidos assinavam já no dia seguinte, antes mesmo da ressaca acabar, ou o quanto antes possível, com um pedido envergonhado de desculpas ao proprietário da casa ou ao anfitrião por terem “passado dos limites”. A pequena carta chinesa é uma das 125 correspondências (com contextualizações e documentais fac-símiles) na coletânea Cartas Extraordinárias, organizada por Shaun Usher e editada pela Companhia das Letras, em 2014. “Ontem, tendo bebido demais, fiquei tão embriagado que passei dos limites; porém nenhuma das palavras rudes e obscenas que pronunciei foi dita por mim em são consciência. Na manhã seguinte, ao ouvir comentários sobre o assunto, dei-me conta do que havia acontecido e quase morri de vergonha, só queria achar um buraco para me esconder. Tudo ocorreu porque minha pequena tolerância não me permite encher o copo até a borda. Humildemente espero que em vossa sábia benevolência não me condeneis por minha transgressão. Logo vou desculpar-me pessoalmente, mas, entrementes, envio-vos esta mensagem para sua bondosa avaliação. Deixando muito por dizer, subscrevo-me, respeitosamente." Cartas Extraordinárias espelham a riqueza das correspondências nas mais diversas esferas, revelando outra camada significante dos relacionamentos e costumes. Cartas entre escritores, políticos, artistas, cientistas e entre pessoas comuns e celebridades, dos mais variados pontos do planeta, das mais diversas épocas. O livro abre com uma aparentemente prosaica carta com o timbre do Palácio de Buckingham de 24 de janeiro de 1960, endereçada ao então presidente dos Estados Unidos Dwight Eisenhower. “Ao ver no jornal de hoje uma foto do senhor diante de uma churrasqueira onde se assavam codornas, lembrei que não mandei a receita dos scones que havia prometido no Castelo de Balmoral, escreve de próprio punho a rainha Elizabeth II.

sexta-feira, 8 de julho de 2016

O Fendant elétrico de Joyce

Num post divertido e inteligente no facebook, o poeta Sérgio Medeiros faz várias conexões a partir de uma notícia que ele diz ter lido na Folha de S. Paulo. “Brasil é o primeiro na América Latina a receber vinho branco suíço”. Autor dos livros Figurantes, Alongamento, Totens, O Sexo Vegetal, A Formiga-leão e Outros Animais na Guerra do Paraguai, entre outros, professor na Universidade Federal de Santa Catarina, Sérgio Medeiros é ensaísta e estudioso da obra de James Joyce. Pois Sérgio lembra das referências que o autor irlandês faz ao vinho suíço Fendant de Sion, a “pale golden liquid”, “urine of an archduchess”, que Joyce bebia a rodo. “White wine is like a electricity”, “urina” que vibra em Finnegans Wake. O Fendant é o vinho branco suíço com boa acidez e não muito frutado indicado para o tradicional fondue. Como lembra Hugh Johnson, em Wine, os principais vinhedos do país seguem o curso do Rhône, da sua nascente em Bernese Oberland, passando pelo Valais e seus penhascos até a costa norte do Lago de Geneva. “Os vinhos do Valais são geralmente conhecidos pelo nome da uva ou também por um nome fantasia. Somente ocasionalmente o nome do lugar é usado. Os vinhos da uva Fendant em Sion são explícitos, apesar de existirem Fendant de Sion não produzidos em Sion. Os de Sion, os mais exportados ao lado dos Johannisberg, são certamente especiais, fermentados com uvas nascidas logo além da fortaleza rochosa de Sion, a partir de onde a planície aluvial se alarga, com mais encostas e mais sol para as cobiçadas frutas.

domingo, 12 de junho de 2016

Não me venham com chá

A recomendação que alegrou o mundo do vinho partiu de uma voz firme, aquela que semanalmente se propaga com surpresas de conteúdo a partir de uma pequena janela do Vaticano e que alcança fiéis em toda Piazza São Pedro. Ao saudar casais que estão juntos há 50 anos, na quarta-feira (8 de junho), o papa Francisco usou o vinho como metáfora, mas também no mais secular dos sentidos. “Não se pode encerrar uma festa de casamento bebendo chá”, pregou com bom humor o líder da Igreja Católica para cerca de 20 mil pessoas. “Seria uma vergonha não ter vinho!”. E elogiando os casais, tratou de dizer que eles eram o “vinho bom da família”. O papa Francisco fez referência a trechos da Bíblia que tratam das bodas de Canaã, ocasião em que se deu o milagre da transformação da água em vinho. E vinho dos bons, servido com audácia anfitriônica no final da festa. Segundo o papa, esse milagre tão reverenciado pelos cristãos “indica a transformação da antiga Lei de Moisés no Evangelho portador da alegria”.

terça-feira, 22 de março de 2016

O salto das rãs modernistas

Os modernistas das letras e das artes fizeram do solar da pintora Tarsila do Amaral, na Alameda Barão de Piracicaba, em São Paulo, um dos redutos para os debates que prosseguiram nos anos seguintes à Semana de Arte Moderna, realizada no Teatro Municipal em 1922. O casal Tarsila e Oswald de Andrade gostava de receber os amigos em casa, mas não dispensava as comemorações e os encontros nas mesas dos restaurantes, verdadeiras extensões do solar. E vários foram os endereços. No seu “diário” sobre os modernistas brasileiros (Movimentos Modernistas no Brasil – 1922-1928/ José Olympio/2012), o poeta Raul Bopp, autor do clássico Cobra Norato, lembra: “quando [Oswald] ganhava alguma causa, das questões complexas de herança, gastava tudo em lautas celebrações na Rotisser ie: faisões e bons vinhos”. Bopp dedica alguns parágrafos ao “restaurante das rãs”: “Uma noite, Tarsila e Oswald resolveram levar o grupo que frequentava o solar a um restaurante situado nas bandas de Santa Ana. Especialidade: rãs. O garçom veio tomar nota dos pedidos. Uns queriam rãs. Outros não queriam. Preferiam escalopini... Quando, entre aplausos, chegou um vasto prato com a esperada iguaria, Oswald levantou-se e começou a fazer o elogio da rã, explicando, com uma alta percentagem de burla, a teoria da evolução das espécies. Citou autores imaginários, os ovistas holandeses, a teoria dos ‘homúnculos’, os espermatistas etc. para ‘provar’ que a linha de evolução biológica do homem, na sua longa fase pré-antropoide, passava pela rã – essa mesma que estávamos saboreando entre goles de Chablis gelado.” Como sabiam das coisas da França esses modernistas! Prato tradicional cozinha francesa (não à toa os ingleses chamavam os soldados de Napoleão de frogs), as rãs, ou melhor, “les cuisses de grenouilles” devem ser consumidas sempre com vinhos brancos secos. Para ficar na adega francesa: Chablis, Côte de Beaune, Beaune, Monthelie, Saint-Aubin, Meursault, Santenay, Puligny-Montrachet, Rully, Givry, Mercurey, Mâcon Villages, Pouilly-Fuissé, Pouilly-Vinzelles, Saint-Veran Beaujolais, Quincy, Reuilly, Menetou-Salon, Sancerre, Coteaux du Giennois, Savennières, Anjou Blanc, Riesling da Alsácia, Alsácia Sylvaner, Pinot Blanc Alsace, Graves, Jurancon sec. A lista foi preparada pelo chef Simon, que assina no Le Monde, para o site ecce vino. Simon diz que, como o molho de alho é acompanhante frequente das perninhas de rã, os tintos devem ser evitados. Outro gole de Chablis. E Tarsila volta às rãs. “– Em resumo, isso significa que, teoricamente, deglutindo rãs, somos uns... quase antropófago. A tese, com um forte tempero de blague, tomou amplitude. Deu lugar a um jogo divertido de ideias. Citou-se logo o velho Hans Staden e outros clássicos da Antropofagia: – Lá vem nossa comida pulando. A Antropofagia era diferente dos outros menus. Oswald, no seu malabarismo de ideias e palavras, proclamou: – Tupy or not tupy, that’s the question. Alguns dias mais tarde, o mesmo grupo de poetas e pintores do restaurante das rãs reuniu-se no palacete da alameda Barão de Piracicaba, agora para batizar um quadro de Tarsila: ‘O Antropófago’, e para pensar num movimento “genuinamente brasileiro”, apesar das rãs no prato, diante da parca safra literária, posterior à Semana de 22. O salto das rãs para o Manifesto Antropofágico.

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2016

O vinho pop de Downton Abbey

O CEO da Wines That Rock vai direto ao ponto: “podemos não entender de vinho, mas entendemos de marketing”. Wines That Rock é uma empresa americana que produz vinhos temáticos embalados pela cultura pop. Faz o vinho licenciado dos Rolling Stones, por exemplo. Sabe que a grande língua vermelha do rótulo atrai consumidores de vinho fãs da banda. A Wines That Rock fez os vinhos para todos prazeres de 50 Tons de Cinza. E foi nessa mesma trilha pop que seus executivos planejaram os vinhos Downton Abbey, viajando na série televisiva inglesa homônima, que atraiu e atrai milhões de espectadores em todo mundo. A primeira coleção nasceu em vinhedos franceses. Agora, os vinhos saem da Califórnia. Há um Cab Downton Abbey circulando por aí... Downton Abbey, a série, traça um retrato da aristocracia inglesa do início do século XX a partir da família Crawley. A história começa com o naufrágio do Titanic, que não deixa de ser uma grande metáfora: os Crawleys enfrentam as mudanças políticas e comportamentais de sua época com uma elegância persistente que desafia a decadência que se avizinha, após os dramas da Primeira Guerra. Com seus trajes impecáveis, muitas vezes estão à mesa, acompanhados de brilhantes talheres e taças de bons vinhos, ou nos grandes salões e jardins da propriedade, com seus copos de uísque. Representam certo espírito de bem viver que teve como patrono o próprio rei Eduardo VII. (“Não se pode apenas beber o vinho, cheirá-lo, observá-lo, degustá-lo, sorvê-lo, h&aacut e; de se falar sobre ele” é uma frase atribuída ao rei.) Em 2015, o Cabernet Sauvignon Downton Abbey da Wines That Rocks foi um dos 50 vinhos mais vendidos pela Amazon ( são comercializados somente nos Estados Unidos e no Canadá). A primeira coleção Dowton Abbey foi lançada em 2013. A companhia criou dois blends, um branco e um tinto, ambos produzidos na França. Uma parceria com a Dulong Grands Vins de Bordeaux, um negócio de vinhos de 130 anos e 5 gerações, com vinhedos na região de Entre-Deux-Mers. Para essa coleção foram usadas as mesmas castas, em solos e terrenos semelhantes aos que produziam vinhos em 1900. A historiadora Jennifer Regan-Lefebvre, do Trinity College, de Connnecticut, entrevistada pelo site VinePair, diz que registros do século XIX mostram “que não era inusual para as famílias aristocráticas terem alguns milhares de garrafas estocadas em suas adegas”, mesmo se o consumo per capita na Inglaterra de então não ultrapassasse duas garrafas/ano. Em Dowton Abbey, entretanto, não temos a visão da adega. Sabemos da movimentação dos vinhos por meio das cenas em que o grande mordomo Carson (Jim Carter) faz as escriturações e os decanta ritualmente. Os vislumbramos, sim, mas já nas taças cheias do Conde de Grantham (Hugh Bonneville), mais pose do que real prosperidade. Richard L. Elia, da Q.R.W.com, uma revista de vinhos online, avalia que há pouco vinho em Downton Abbey e que a história merecia mais, ou pelo menos uma presen&c cedil;a mais explícita. E faz blague: o valete Thomas Barrow (Rob James-Collie) parece ter o paladar mais refinado entre todos os moradores ou visitantes do casarão, já que sabemos que ele roubou duas garrafas de Château Lafite. Diferentemente do que ocorria em muitos círculos da alta sociedade inglesa, em Downton Abbey a noite passava longe do cocktail. Nos domínios de Robert Crawley, o aquecimento era feito com Porto e Sherry, vinhos fortificados. Os Crawley tinham uma concepção muito particular de harmonização, analisa Jennifer Regan-Lefebvre para o VinePair. Hors d’Oeuvres (Sherry), Sopa (Borgonha Branco), Peixe (Claret), Carnes leves (Champagne), Cordeiro e aves (Bordeaux vintage), Sorvetes (Porto) e Champagne, sempre muito vinho Champagne. Há críticos que tratam os vinhos Downton Abbey feitos na França como “inofensivos”. Agora têm à frente para análise os Downton Abbey feitos na Califórnia, a partir da quinta temporada da série. A coleção homenageia Lady Cora Grantham (Elizabeth McGovern), a mulher do famoso conde, nascida nos Estados Unidos. Os criadores do vinho garantem que o mordomo Carson escolheria vinhos californianos para agradar paladares de sensibilidades mais modernas, de convidados da condessa. Eu não acredito. Os vinhos Condessa de Grantham (Cabernet Sauvignon e Chardonnay) são produzidos na tradicional vinícola familiar Lange Twins, n a região de Lodi, no Vale Central californiano. William Zysblat, da Wines that Rocks, lembra (faz marketing) que as uvas foram plantadas na Califórnia por volta dos anos 1860, justamente a época em que Lady Cora teria nascido.

quarta-feira, 27 de janeiro de 2016

Reguengos de Tabucchi, com sarrabulho

Antonio Tabucchi (1943-2012) foi o mais português dos escritores italianos, um dos grandes contemporâneos, com uma prosa dinâmica, de textos curtos, muitas vezes tragicômicos, que em seus momentos de cumplicidade com Portugal, evoca a toponímia da sua Lisboa, por onde transitam Fernando Pessoa e todos os seus heterônimos, mapa referencial onde também há lugar e tempo para uma mesa, um vinho, um prato regional. E não é à toa que esse cotidiano aflora na obra de Tabucchi: o escritor viveu em Portugal, casou-se com uma portuguesa e estudou com afinco as literaturas moderna e surrealista do país (foi tradutor de Fernando Pessoa e Carlos Drummond de Andrade para o italiano). Pois em Requiem, uma alucinação (Cosac Naify/2015), eis que aparece, “em nostalgias irremediáveis” (Pedro Mexia), com distinção, com todas as suas letras, o vinho Reguengos de Monsaraz. Ao se encontrar com o falecido Tadeus Waclaw, uma figura de seu passado, com o qual quer tirar algumas satisfações, quebra o gelo primeiramente com taças de champanhe Laurent-Perrier, garrafa comprada na Brasileira do Chiado, o mais antigo café de Lisboa, indicação do “criado do balcão” diante de duas opções. O outro vinho era um Veuve Clicquot, “um bocadinho ácido”. Mais tarde, no restaurante do Casimiro, a conversa franca é acompanhada com Reguengos. “O senhor Casimiro chegou com pão, manteiga e azeitonas. Com o sarrabulho o tinto seria de rigor, disse ele, mas não sei se seu amigo vai gostar, tenho um Reguengos de garrafeira que aconselho vivamente. Para mim vai o Reguengos, decidiu Tadeus. Eu fiz um sinal afirmativo com a cabeça e suspirei: de acordo, vai ser o fim. O sarrabulho vinha numa travessa de barro, daquelas castanhas com flores amarelas em relevo, de tipo popular. À primeira vista tinha um aspecto repelente. No meio da travessa estavam as batatas, alouradas na gordura, e em redor os rojões [os pedaços de carne de porco sem osso,mas com alguma gordura] e as tripas. (...) Eu espetei o garfo num rojão quase de olhos fechados e levei-o à boca. Era uma delícia, uma comida de sabor requintadíssimo”. E Tadeus serviu-lhe mais um copo de Reguengos, pedindo à cozinheira que ensinasse ao narrador, “a este rapaz como é que se prepara um sarrabulho à moda do Douro, de maneira que ele possa voltar à sua terra e fazê-lo na sua própria casa, que lá onde ele mora só se comem esparguetes”. A cozinheira, mulher de Casimiro, ganha um copinho do Reguengos de Monsaraz e passa a receita: “se vossemecê que fazer um bom s sarrabulho tem de preparar a carne na véspera, corta o lombo em bocados regulares e tempera-o com alhos picados, vinho, sal, pimenta e cominhos, no dia seguinte vai encontrar uma carninha vem cheirosa, vossemecê pega um tacho de barro e corta lá dentro a gordura dos folhos, que é como se chama a gordura que liga as tripas, e deixa-a derreter em lume brando, põe a alourar os rojões na banha em lume forte e depois deixa cozer devagarinho. Quando a carne estiver quase cozida, rega-se com a marinada da véspera e deixa-se evaporar. Entretanto, vossemecê corta a tripa e o fígado e frita-os na banha até ficar tudo bem alourado. À parte refoga a cebola picada com azeite e junta-lhe a tigela de sangue cozido. Depois junta tudo no tacho e o sarrabulho está prontinho”. Depois da aventura do sarrabulho, doces amarelos em forma de barquinhos, papos de anjo de Mirandela. E Casimiro trouxe-lhes café e uma garrafa de bagaço. Reguengos de Monsaraz é uma cidade portuguesa, no Distrito de Évora, na região do Alentejo. Sua produção vinícola é conhecida internacionalmente, com rótulos das vinícolas Vinhos ‘José de Sousa’ (adquirida em 1986 pela vinícola José Maria da Fonseca), da cooperativa Carmim (hoje uma das maiores adegas do Alentejo), Herdade do Esporão (uma das mais antigas propriedades demarcadas do sul de Portugal, em 1267), Monte dos Perdigões (propriedade instituída desde antes do século XV), Ervideira, Adega do Calisto, Monte das Serras, São Lourenço do Barrocal e Luís Duarte Vinhos. Vinhos encorpados que aguentam o sarrabulho de Tabucchi e de Tadeus.

quinta-feira, 21 de janeiro de 2016

A caligrafia do vinho de arroz

Encharcado com três copos de vinho de arroz, esse fermentado criado na China há milhares de anos, o calígrafo e pintor chinês Zhang Xu (710-750) partia gritando performaticamente em direção ao papel, pincel em punho, e “escrevia” suas letras com descomunal intensidade. Sua “selvagem” escritura cursiva (kuangcao) impressionava a todos. O “louco Zhang”, em plena dinastia Tang, algumas vezes mais embriagado ainda, realizava sua caligrafia depois de entintar seus próprios longos cabelos. (Body art?) Não à toa Zhang foi tema de um poema do filosófico Du Fu (712-770), um dos maiores entre tantos grandes que celebravam a embriaguez: Tao Yanming (365 ou 372-427), Li Bo (701-726) e Su Dongpo (1036-1101). Du Fu escreveu que as “nuvens no papel” produzidas por Zhang só se formavam a partir do vinho. O nome de Zhang “é comumente citado junto com o de um artista jovem, Huai Su (737-798), um monge budista cujo dinâmico estilo de escrita era inspirado por um pesado consumo de cerveja e vinho, que entrou para a literatura como ‘bêbado Su’”, escreve o sinólogo alemão Thomas O. Höllmann em The Land of Five Flavors (Columbia University Press/2014), um estudo cultural atualizado da cuisine chinesa. Outras referências a caligrafias e poemas inspirados pelos vinhos estão em Celebración de La Embriaguez, um pequeno livro de Jacques Pimpaneau, traduzido para o espanhol por Alícia Sánchez (da Coleção El Cuerno de La Abundancia, editado em 2004 por José J. de Olañera). “O desejo que o espírito possa vagar, ascender a outro lugar, libertar-se do jugo da lógica racional e das preocupações cotidianas e penetrar no imaginário está presente em todas as civilizações”, escreve Pimpaneau logo no início do livro. Um letrado chinês citado por ele diz que o ser humano aspira desenvolver uma habilidade que permita a seu espírito ver as montanhas, o mar e viajar por diferentes lugares, sem se mover. Durante algum tempo, as drogas (o venenoso cinabre, por exemplo) foram esse meio, mas na China o vinho logo prevaleceu como “o melhor liberador para conduzir o espírito ao âmbito do imaginário”. Segundo Pimpaneau, “os chineses também viram outra vantagem: o vinho gerava uma atmosfera distendida, as relações humanas se tornavam mais relaxadas em uma sociedade na qual se impunha a rigidez dos ritos”. Wang Xizhi (321-379), “o sábio da caligrafia”, inspirador do “louco Zhang”, conta no prefácio de Poemas Compostos no Pavilhão de Orquídeas, sobre uma histórica reunião de escritores, na qual “taças de vinho e canções nos permitiam expressar nossos mais fundos sentimentos...” Era início do último mês da Primavera do ano 353. E os poetas e artistas presentes ao Festival de Purificação da Primavera colocavam copos de vinho para flutuar em pequenos meandros construídos a partir de um rio de águas claras, corredor de luz no pé das encostas do Monte Kuaiji, perto da cidade de Shaoxing (justamente a região d o mais conhecido vinho de arroz hoje produzido na China). Vinho que navegava poeticamente até ser resgatado e degustado pelos poetas. As caligrafias semi-cursivas do "enófilo" Wang Xizhi agradavam tanto o imperador Taizong, que este, ao morrer, foi para o mausoléu acompanhado dos originais dos Poemas Compostos no Pavilhão de Orquídeas. Como Zhang, Wang também apreciava a inspiração que vinha do vinho de arroz, mas tinha uma escola muito especial. Conta-se que a chave da sua escrita estava na observação do movimento do pescoço de seus lindos e cultuados cisnes.