terça-feira, 22 de julho de 2014

'Chiarlando' de Barbera

Michele Chiarlo é um dos mais vibrantes produtores do Piemonte, tradicional região vinícola no norte da Itália. Com a ajuda dos filhos Alberto e Stefano, Michele não somente tem produzido premiados vinhos Barbera e Barolo, mas destaca-se pelo empenho em desenvolver e promover sua região de origem. Stefano é o enólogo. Alberto cuida do mercado externo: montou uma eficiente estrutura comercial que faz com que seus vinhos cheguem também ao Brasil. Há pouco mais de 10 anos, com a criação do La Court, um parque com arte entre vinhedos de Barbera, os Chiarlo contribuíram muito com o desenvolvimento do enoturismo. A ação foi ampliada com o resgate e a restauração de uma vila no coração de Barolo. O Palas Cerequio já se tornou indispensável para uma hospedagem de charme na região. Dois dos vinhos mais pontuados de Michele Chiarlo são justamente seu Barolo de Cerequio e o Barbera d'Asti Superiore Nizza La Court. Mas eles também fazem experiências. A partir de 1 hectare da uva Albarrosa (um cruzamento da Barbera com a Chatus, segundo recentes pesquisas de DNA) conseguiram lançar o primeiro varietal da cepa, em 2000. Os vinhos da uva Barbera, em vários estilos, são vinhos rústicos, versáteis, friendly food , e tradicionalmente acompanham refeições dos piemonteses. Há quem os comparem ao Beaujolais. São frutados, com boa acidez e taninos de leves a moderados, com alguma adstringência. "Quando estou diante de uma lista de vinhos só italianos, com amedrontadores de tão caros Barolo e Brunello e nomes desconhecidos do interior da Itália, Dolcetto e Barbera são confiáveis amigos que não criam constrangimento quando a conta chega", diz Mark Oldman. O Barbera até poucos anos atrás era o patinho feio do Piemonte, diante dos esplendorosos e aristocráticos outros dois "bês", Barolo e Barbaresco, estes da uva Nebbiolo. Chiarlo foi um dos responsáveis pela ascensão do Barbera, seguindo regras básicas na busca de qualidade: uvas melhores, vinhedos menores e, para garantir mais estrutura, algum tempo em barrica francesa. Foi esse o vinho que ele apresentou aos japoneses numa época em que o mercado só tinha olhos para Barolo e Barbaresco. Angelo Gaia, o rei da Nebbiolo, já em 1969 usou barrica para seu Barbera, receita chancelada depois pelo enólogo e consultor francês Émile Peynaud. Graças a esses esforços, grandes garrafas saem das vinícolas de Michele Chiarlo, Ceretto, Pio Cesare, Coppo, Bruno Giacosa, Prunotto e Vietti. Quem se aventurar pessoalmente pela região vai encontrar também bons vinhos de pequenos produtores, como os de Nino Bronda, em Nizza Monferrato, na vizinhança do amigo e contemporâneo Chiarlo. A uva Barbera é a mais plantada no Piemonte e está em terceiro lugar entre as mais cultivadas da Itália, depois da Sangiovesi e da Montepulciano. GREGA NOS EUA - O site Elloinos, sobre a viticultura grega, de Markus Stolz, informa que a vinícola americana Tryphon, com vinhedos a 975 metros de altura, na Floresta Nacional de Tahoe, Califórnia, plantou 64 mudas da uva Assyrtiko, a cepa dos brancos da grega Santorini, correndo todos os riscos e desafios em terreno completamente diferente do encontrado na ilha grega. As mudas são do berçário da Universidade da Califórnia, Davis. Markus Stolz entrevistou o casal Larry e Dayle Rodenborn, da Tryphon para o Elloinos. www.elloinos.com/ NO PÃO DE AÇÚCAR - O Grupo Pão de Açúcar acaba de lançar o projeto Vinhos Brasileiros Premiados, em parceria com Instituto Brasileiro do Vinho (Ibravin), que possibilitará a pequenas vinícolas comercializar seus rótulos em suas gôndolas. Participam da primeira etapa do projeto as seguintes vinícolas gaúchas: Pizzato, Don Guerino, Perini e Lídio Carraro, totalizando aproximadamente 25 rótulos, entre vinhos tintos, brancos, rosés e espumantes. www.ibravin.org.br/noticias/162-vinhos-premiados-ao-alcance-do-consumidor Diário do Comércio de 18/7/2014

segunda-feira, 14 de julho de 2014

Desafio Bobal

O blogueiro Rob Tebeau, do Fringe Wine, que garimpa vinhos de uvas pouco conhecidas (ou de cepas conhecidas plantadas em regiões não usuais, ou ainda vinificados fora do padrão), lançou certa vez um desafio a seus leitores. A questão era aparentemente simples: quais as três uvas mais plantadas na Espanha? Considerando-se o perfil do blog, entretanto, sabíamos de antemão que haveria surpresas. Mesmo para quem não acompanha de perto a evolução desse mundo de hectares e vinhedos, o voto na Tempranillo teria fácil justificativa. É talvez uma das castas mais visíveis e presentes entre os vinhos globalizados espanhóis à venda no Brasil. Mas a Espanha não é feita só de Tempranillo, costumam alertar, com razão, os vinicultores espanhóis diante das 600 variedades cultivadas no país. A Tempranillo está na segunda posição em área plantada na Espanha, com cerca de 214 mil hectares. Os vinhedos da uva branca Airén, entretanto, são os mais extensos, alcançando 300 mil hectares – e não são somente os maiores da Espanha, mas do mundo inteiro. Em terceiro no ranking estaria a variedade Garnacha ou a Monastrell, também mais propagadas pelo mercado? Não, o terceiro maior vinhedo espanhol – e aí a surpresa reservada por Tebeau – é formado pela esquecida uva Bobal, com 40 mil hectares plantados somente na região de Utiel-Requeña, província de Valência. Presente há mais de 2 mil anos na tradição vinícola local,somente nos últimos cinco anos a Bobalpassou a constar na lista e nas taças dos “winegeeks”, tão aficionados pelas novidades dos vinhos como os conhecidos geeks são vidrados nos gadgets. No Brasil, por exemplo, dois rótulos da variedade andam circulando pelas prateleiras virtuais: Dominio de La Vega Bobal 2010 (importado pela Viníssimo, com promoções no site Sonoma) e Pasión de Bobal 2009, das Bodegas Sierra Norte (à venda no site da Via Vini). A província autônoma de Valência, no Sudeste da Espanha, produz grande variedade de vinhos em três de suas D.O. (Denominación de Origen): D.O. Valência, D.O. Alicante e D.O. Utiel-Requeña. É em Utiel-Requeña que “produtores mais diligentes celebram suas raízes através de vinhos feitos com sua uva nativa Bobal”, escreve John Perry no site Catavino. Sete vinícolas da região, por exemplo, estão agrupadas na Associação Primum Boval, para promover a ideia de um vinho varietal de qualidade. O primeiro rótulo do Primum foi lançado em 2012. A região Utiel-Requeña tem 115 vinícolas já engarrafando vinhos 100% Bobal. Graças à boa acidez, a Bobal é usada também em vinhos rosados e espumantes. Cerca de 7.100 famílias tocam suas vinícolas na região, o que mostra o papel do vinho na economia valenciana. Antes da aposta na qualidade, o vinho da Bobal era tão somente vendido para compor com outros tintos. Silvia Franco, do site In VinoVeritas, destaca a suavidade da casta. Encontrou no Domínio de La Vega Bobal 2010 um vinho excepcionalmente rubi, frutado (cerejas e frutas negras), com notas de especiaria e carvalho: “uma carícia na boca de tão sedoso”. A uva Bobal é hoje responsável por cerca de 80% da produçãode vinhos em Utiel-Requeña, região que engloba os municípios de Caudete, Camporrobles, Fuenterrobles, Requeña, Siete Aguas, SinarcasUtiel, Venta del Moro e Villagordo Cabariel. Os vinhedos estão num grande plateau circular, de 45 quilômetros de diâmetro, com altitudes de 600 a 900 metros acima do nível do mar, a cerca de 70 quilômetros do Mediterrâneo. Aí os vinhedos de Bobal crescem com gosto, em condições extremas: invernos rigorosos e prolongados, verões quentes e secos, mais os ventos quentes e secos soprados do mar. DEZ TINTOS - Aqui uma relação de 10 vinhos tintos top da D.O. Utiel-Requeña: Bassus Premium (Hispano-Suizas); Primum (7 bodegas); Generación 1 (Vicente Gandía); Artemayor (Dominio de la Vega); Carlota Suria (Pago de Tharsys); Bobos (Hispano-Suizas); Cerro Bercial Reserva (Sierra Norte); Vegalfaro Crianza (Vegalfaro); Lagar de Lar (Finca Ardal) e Helix (Aranléon). www.abc.es/viajar/restaurantes/20140322/abci-mejores-vinos-requena-utiel-201403211217.html CARTA DE AROMAS - Eis uma carta com uma lista de palavras relacionadas aos aromas dos vinhos, para levar na carteira. "As palavras não têm um significado em si próprias. São simples instrumentos para descrever experiências, contar histórias e construir memórias", justifica o editor Alder Yarrow, do premiado site Vinography. Há versões em inglês, francês, alemão, espanhol, italiano, japonês e também português. www.vinography.com/archives/2009/03/vinography_aroma_card_now_avai_2.html Diário do Comércio de 11/7/2014

sexta-feira, 4 de julho de 2014

Amigos da Bairrada

O mundo inteiro conhece a uva Baga, mesmo sem que ela tenha sido devidamente apresentada, como agora tratam de fazer os integrantes do grupo Baga Friends. Esses produtores da Bairrada, uma das regiões vinícolas na faixa litorânea de Portugal, há um par de anos arregaçaram as mangas para promover o que a casta pode conseguir de melhor: taninos macios para vinhos tintos de guarda de qualidade. Na lista dos “amigos da Baga” estão o respeitado vinicultor português Luís Pato (Vinícola Luís Pato), sua filha Filipa (Vinícola Filipa Pato), Mário Sérgio Nuno (Quinta das Bágeiras), Paulo Sousa (Vinícola Sidónio de Sousa), António Rocha (Vinícola Bugaço), João Póvoa (Vinícola Kompassus), François Chasans (Quinta da Vacariça) e Dirk Niepoort (Quinta do Baixo e famoso produtor de vinhos do Porto e do Douro). “A Baga é uma diva” que pode ser comparada à uva Nebbiolo, dos italianos Barolos, e à Pinot Noir dos Borgonhas, avalia Sarah Ahmed, especialista em vinhos portugueses da revista britânica The World of Fine Wine. No início do ano, três vinhos do Baga Friends foram escolhidos por Joshua Greene, editor e publisher da Wine and Spirits, para a lista dos 50 grandes vinhos para o mercado americano. E o “Oscar do vinho português de 2013”, entregue pela Revista de Vinhos em fevereiro, também alcançou três rótulos desses fãs incondicionais da Baga. Quando se diz que todos conhecem a Baga, mesmo sem saber, é porque essa variedade portuguesa está por trás do popularíssimo Mateus Rosé. Desde que foi lançado, em 1942, perto de um bilhão de garrafas desse vinho foram vendidas em mais de 120 países, sendo responsável pela iniciação etílica de muita gente. A idéia de um vinho global como o Mateus Rosé foi do empreendedor Fernando Van Zeller Guedes, fundador do grupo Sogrape, hoje com um eclético portfólio, formado depois de uma série de aquisições. No Brasil, o fresco e versátil Mateus Rosé (com a tradicional garrafa em estilo “flask”, semelhante à dos vinhos alemães da Francônia) foi febre nos anos 1960/1970, em tempo de poucas opções e exigências. A maioria dos cerca de 2.000 produtores de Baga na Bairrada, uma das regiões vinícolas de Portugal onde é mais cultivada, ao lado da Beira, ainda trata de colhê-la mais cedo para os rosés, evitando o risco da colheita em setembro, época de chuvas. A Bairrada tem marcante influência atlântica, com clima muito úmido. Com isso, um dilema se instala, já que uvas para tintos da Baga teriam de amadurecer por mais tempo nas videiras. Luís Pato, por exemplo, dribla o clima com uma “colheita verde”, descartando cachos quando estes começam a mudar de cor, e fazendo com que os remanescentes ganhem em concentração. Ele também ganhou em qualidade ao fermentar as bagas sem os caules e ao “arredondar” os taninos em barricas de carvalho francesas. Já a filha Filipa garantiu tipicidade a seus vinhos a partir de plantas mais antigas. Como escreve Sarah Ahmed, a culpa dessa conjuntura desfavorável aos tintos varietais não pode ser atribuída somente ao mar de rosés. Houve uma queda de qualidade geral na indústria vinícola portuguesa após a Revolução dos Cravos, em 1974. Os vinhos eram então vendidos a granel para colônias na África, por negociantes e cooperativas que dominavam a produção da Bairrada. (Exceção deve ser feita aos vinhos garrafeira, principalmente os da Caves São João Frei João, que mantiveram regras de vinificação). A área vinícola cresceu e perdeu em qualidade. Era preciso reverter o quadro. Em 1979, a Bairrada conseguiu seu devido status de região demarcada. Anos depois, com a volta da democracia e a integração de Portugal à Comunidade Europeia (1986), os vinhedos e os negóciospassam a ser restaurados. Começa então a “Revolução da Baga” liderada pelo incansável Luís Pato, tão presente no Brasil. O vinicultor também faz com a Baga um espumante ideal para celebrar todas vitórias do Baga Friends. NA ÂNFORA - Filipa Pato lançou em São Paulo, no início do ano, vinhos da uva Baga que envelhecem em duas ânforas de cerâmica de 300 litros, enterradas no solo. O Post Quercus Baga 2013 é feito na Bairrada a partir de vinh edos velhos. As mesmas plantas dão origem a outro vinho de Filipa, o Nossa Calcário, feito em parceria com William Wouters, o marido belga que é sommelier, no escopo do projeto Vinhos Doidos. BUSSACO - Os últimos reis de Portugal dormiram nesse castelo (acima), na Bairrada, transformado no Palace Hotel do Bussaco e que acaba de ser reconhecido como um dos "10 hotéis top para os amantes do vinho" ,pela revista inglesa The Drink Business. Vinhos do Buçaco, da tinta Baga, estão guardados na adega da propriedade desde que começaram a ser feitos, em 1920. www.bussacopalace.com/ Diário do Comércio de 4/7/2014

sexta-feira, 27 de junho de 2014

Vinho no púcaro búlgaro

O Sonoma, um dinâmico site brasileiro de venda de vinhos, comandado pelo californiano Alykhan Karim, sempre garimpa pelo mundo vinhos que combinam qualidade, bom preço e certa dose de ineditismo em relação ao nosso mercado. Esta semana, na prateleira virtual do Sonoma, foram incluídas, entre outras, garrafas de um vinho branco elaborado com a uva Pinot Noir. O inusitado do branco de uva tinta foi mais celebrado, entretanto, do que a própria origem do vinho: a Bulgária. Mas existe vinho búlgaro? Lembrei-me imediatamente de O Púcaro Búlgaro, o festejado romance surrealista do escritor Campos de Carvalho (1916-1998), escrito em 1964, que partia de uma dúvida ainda maior: "a Bulgária existe?". Carvalho não tinha a pista de hoje: o pai da presidente Dilma era búlgaro. A história de Carvalho (devidamente vertida para para o búlgaro, não sem antes um puxãozinho de orelha do tradutor) começa quando um carioca da Gávea visita um museu na Filadélfia e encontra numa das vitrines de antiguidades um “púcaro búlgaro”, pequeno vaso de barro originário de um reino distante. Ele tem dúvidas (ainda não havia o Google) e suas questões aparentemente não são respondidas pelos dicionários: “(...)eles lá estão, um e outro [púcaro e búlgaro], com os seus verbetes – ma s isso é fácil, Deus também lá está; queria é vê-los o autor aqui fora, resplandecentes de luz solar e não de luz elétrica ou gás néon, e sem os canhões de Tio Sam para lhes garantir a pucaricidade ou a bulgaricidade.” Para decifrar o enigma, ou provar que a Bulgária realmente não existe, ou o contrário, o narrador passa a montar uma expedição com personagens dos mais insólitos, dentre eles o cearense Radamés Stepanovicinsky, professor de Bulgarologia, um tal Pernachio e nada menos do que um marinheiro fenício. A ver o que dá essa nau de insensatos que gira em mar de divertido nonsense. O livro já foi para o palco algumas vezes e ganhou uma divertida adaptação dirigida por Fernando Collaço e Stefanie Alves (na foto um dos atores com o “púcaro” nas mãos). A histórica Bulgária (que tem as terras da Trácia como ponto de resistência cultural) não só existe, como mantém uma tradição vinícola das mais ancestrais. Novo impulso se deu com a queda do monopólio de produção estatal, nos fins dos anos 1990, quando os vinhos búlgaros passaram a ser produzidos por iniciativa privada e vendidos muito além da “Cortina de Ferro”. “A Bulgária acordou”, sentencia a crítica inglesa Jancis Robinson. São hoje mais de 80 vinícolas industriais, com produção de 60.000 t, em 97 mil hectares de vinhedos. As variedades mais plantadas são a Cabernet Sauvignon (14%), Rkatzeteli (14%), Merlot (12%), Pimid (11%), Red Misket( 8%), Dimyat (6,5%) e Muskat Ottenel (6%). A genial história de Campos Carvalho, como se vê, é pura literatura e seu narrador certamente não mudaria de ideia nem depois de se embriagar com taças do denso Melnik, feito na região da homônima cidade. O próprio Dionísio, o deus do vinho do panteão grego, teria sido cultuado, antes, na Trácia, como Zagreus. Homero relata na sua Ilíada que os navios dos aqueus traziam diariamente vinho tinto “doce como o mel” da cidade trácia de Ismarus para seus soldados acampados aos pés de Tróia. Com os romanos, se deu a expansão dessa viticultura nas terras dos balcãs, atestada pelo poeta Ovídio, exilado em Tomi (atual Romênia) no ano 8 da nossa era. O vinho búlgaro anunciado pelo site Sonoma também tem origem na Trácia, uma das 5 regiões vitivinícolas do país. Só não há mesmo vinhedos na Bulgária na região de Sófia, a sua capital (Sófia existe?). Edoardo Miroglio, piemontês de Alba, fundou sua vinícola na vila de Elenovo, 30 quilômetros da cidade de Nova Zagora. Miroglio seguiu justamente a rota do histórico terroir trácio-búlgaro, como têm feito outros novos empreendedores. Historicamente, explica Miroglio, a Trácia estendia-se à leste da Macedônia em direção ao Mar Negro e ao Mar de Mármara; ao sul do Danúbio para o Mar Egeu; sendo que a fronteira entre Macedônia e Trácia praticamente correspondia ao curso do rio Struma. O Vale do Struma é hoje uma das prósperas regiões vinícolas búlgaras. E vinhos de expressão são feitos com a Melnik no Vale do Struma, principamente nas vinícolas Damianitza e Logodaj. Miroglio, empresário do ramo têxtil, também produz vinhos na sua Tenuta Carreta, sua vinícola italiana na região da Langhe e Roero, com vinhedos em 70 hectares. Na Bulgária, cultiva cerca de 200 hectares, incluindo a Pinot Noir, vinhos já comparados aos da Borgonha pela revista Decanter. ROUSSEFF BÚLGARA - A presidente Dilma Vana Rousseff foi recebida em festa na Bulgária, em outubro de 2011, onde recebeu a condecoração Stara Planina, a maior distinção da República da Bulgária, entregue pelo então presidente Georgi Parvanov. Dilma disse na ocasião que estava muito emocionada em visitar a terra natal de seu pai, o advogado Pedro Rousseff,que emigrou para o Brasil em 1929. MELNIK - A cidade de Melnik , a apenas 8 quilômetros da fronteira com a Grécia, é o mais antigo centro de produção vinícola da Bulgária. E é só por ali que a uva Shiroka Melnishka Loza (ou só Melnik) cresce. Quem gostava dos vinhos da região era Winston Churchill, isso antes da instalação da Cortina de Ferro. http://melnikwinecompany.com/where-we-work/the-town-of-melnik/

sexta-feira, 20 de junho de 2014

A Pinot que fez a América

A uva Pinot Noir, com seus cachos pequenos, frutas de casca fina, sensível, e que exigem muitos cuidados na colheita, é mais conhecida pelos vinhos finos e celebrados nos quais se transformam na Borgonha. Mas a Pinot plantada nos Estados Unidos, há pelo menos duas décadas não faz feio diante desses tintos ancestrais. Amanhã, dia 21 de junho, algumas dezenas de vinicultores da variedade participam do já tradicional Pinot Days, em San Francisco, Califórnia, sob o mote "serious wine, serious fun". Dia 25 de abril, o evento passou por Chicago e, em outubro, será realizado no Sul da Califórnia. A festa em 2014 - a maior degustação de vinhos Pinot Noir do mundo, segundo seus organizadores - tem sabor especial porque comemora os 10 anos do lançamento do filme Sideways (Paul Giamatt i/ 2004), que catapultou a Pinot Noir nos Estados Unidos, não sem antes desancar a queridinha Merlot. Na cena mais ferina de Sideways, o protagonista quarentão Miles avisa Jack, seu amigo de viagem, antes de um duplo encontro romântico, que deixaria a mesa na mesma hora se alguma das garotas pedisse Merlot. (I’m not drinking any fucking Merlot). A origem da Pinot ainda não foi cravada e provoca debates acalorados entre historiadores do vinho. Os romanos já a descreveram em 100 d.C. Há consenso apenas no fato de que o fortalecimento da variedade na Borgonha e em toda Europa se deve aos duques de Valois e sua "triunfante propaganda", como diz Roger Dion. A Pinot Noir era uma armas dos Valois, com ducado se estendendo dos Alpes a Flandres, na guerra de poder e influência com os reis franceses. Uma disputa que chegou ao século XVII, como explica o jornalista John Haeger. Não demorou para que a Pinot com "pedigree bourguinhão" avançasse em direção ao norte da França, alcançando Champagne, depois o Vale do Loire, mais à oeste, a Alsácia e a Alemanha, à leste. Passou a ser cultivada também na vizinha Itália. Hoje, a área plantada com Pinot Noir na famosa Côte D'Or, de onde saem alguns dos melhores vinhos do mundo, entre Dijon e Chalon-sur-Saône, soma cerca de 4.450 hectares. É menor, por exemplo, do que a área plantada em Champagne. Na Alemanha, onde a Pinot Noir tem o nome local de Spätburgunder, a cepa é a quarta mais plantada, só perdendo para as emblemáticas Riesling, Müller-Thurgau e Sylvaner. A Pinot Noir saiu da Europa para os Estados Unidos e outros países do Novo Mundo, como África do Sul, Austrália, Nova Zelândia e Chile, na "bagagem" dos imigrantes, a partir do século XIX. Hoje, a maior área de Pinot Noir fora da Borgonha está na Califórnia (de onde sai o grosso da produção americana), com 16.029 hectares. Somente os vinhedos de Sonoma totalizam 4.881 ha, segundo dados do Wine Institute, da Califórnia. Dois dias após o lançamento do filme Sideways, as vendas de vinhos de Pinot Noir dispararam nos supermercados americanos. De 24 de outubro de 2014 a 2 de julho de 2005, o aumento das vendas foi de 18%. Segundo o Wine Institute, a procura pelos vinhos de Pinot já vinha crescendo antes mesmo do filme. De 1990 até 2012, a tonelagem de uvas Pinot destinadas à vinificação cresceu sete vezes. E a safra de 2012 foi uma das melhores dos últimos tempos, principalmente nos vinhedos costeiros de Sonoma. A revista Wine Enthusiast indicou três dos melhores vinhos da região: W.H. Smith Hellenthal Vineyard 2010 (W.H.Smith); Mas Cavalls Doña Margarita Vineyard 2009 (Miramar State) e Gap’s Crown Vineyard 2011 (Guarachi Family). YES, PINOT - Indispensável na biblioteca do entusiasta do vinho é o livro North American Pinot Noir (University of California Press/ 2004), de autoria de John Winthrop Haeger. É considerado a bíblia da cepa, com detalhadas informações da trajetória da Pinot em solo americano. Destaque para a comparação entre os vinhos da Pinot produzidos nos EUA e na Borgonha. Haeger também fez perfis das principais vinícolas que cultivam a variedade. MERLOVE -O documentário Merlove, de Rudy McClain, foi concebido para ser um contraponto, mais que uma resposta, ao filme Sideways. que havia desancado a uva Merlot. O diretor contou detalhes de Merlove em bate-papo com Gary Vaynerchuk, o apresentador da Wine Library TV. Como se sabe, a Merlot ainda é uma das uvas preferidas dos americanos. http://tv.winelibrary.com/2009/11/25/merlove-episode-775/ DC de 20/6/2014

quinta-feira, 12 de junho de 2014

Zivjele ! (Saúde!)

Os vinhos croatas começam a despertar para o mundo da mesma maneira que a bela costa do "país de mil ilhas" já atrai visitantes de todo planeta, interessados em rotas turísticas alternativas. Depois do desmantelamento da Iugoslávia e da tumultuada e sangrenta guerra que se seguiu à independência, em 1991, muitos croatas ligados à terra passaram a reconstruir suas vidas e suas vinhas, retomando um elo que existe desde o tempo das tribos ilírias, há 2.200 a.C. Hoje já são 17 mil pequenos viticultores de volta à atividade, em vinhedos que se estendem por quase 24 mil hectares e que abastecem a produção de 800 vinícolas. Por iniciativa dos próprios vinicultores locais, o território croata foi dividido em quatro grandes áreas vinícolas: Dalmácia, Ístria & Kvarner, Terras Altas e Eslavônia & Danúbio (veja mapa acima). Muito da divulgação desses "novos" vinhos, principalmente no mercado americano, se deve entretanto a Cliff Rames, um sommelier de Nova York, de raízes croatas, fundador do site Wines of Croatia. O avô de Rames tinha vinhedos em Murter, na Dalmácia, e vários parentes seus ainda vivem lá. A primeira vez que visitou a terra natal de seu pai foi em 1980, quando tinha 16 anos. "Isso mudou minha vida para sempre", disse Rames ao premiado site americano Wine Library TV, de Gary Vaynerchuk, Em 1989, passou pelos bancos da Universidade de Zagreb e, de 1992 a 1996, em plena guerra, trabalhou em organizações humanitárias e em campos de refugiados na Croácia. Hoje Rames é sommelier no elegante Caudalie Vinotherapie Spa, no Plaza Hotel, além de trabalhar no seu projeto de promoção dos vinhos croatas, que ganham mais apelo quando elaborados a partir de uma das 64 cepas autóctones. A menina dos olhos hoje, em país das frutadas uvas brancas Posip, Debit e Marastina, é a tinta Plavac Mali. As garrafas de Plavac Mali da vinícola Korta Katarina, que podem ser encontradas no Brasil, são produzidas na Dalmácia, bem ao sul do país, que tem à oeste o Mar Adriático, à leste a Bósnia e Herzegovina e, ao sul, Montenegro. A região compreende a turística cidade fortificada de Dubrovnik, Split, Sibenik e Zadar. A Korta Katarina foi fundada pelos americanos Lee e Penny Anderson depois terem passado pelo país no pós- guerra, em missão de reconstruir escolas e infraestrutura. Quem também produz na Dalmácia é o "croata californiano" Mike Grgich, criador do famoso Château Montelena Chardonnay, o vinho americano que desbancou os franceses no histórico Julgamento de Paris. Na Saints Hills Winery, fundada em 2006, o produtor Ernst Tolj produz vinhos tanto com cepas internacionais quanto com variedades autóctones. No caso da Saints Hills, o destaque fica para a participação do famoso consultor Michel Rolland na concepção de seus vinhos. Outras boas garrafas saem da vinícola Zatlan, na ilha de Hvar, com seus brancos límpidos e os Plavac Mali encorpados. Os icewines e outros vinhos da premiada vinícola Bodren contribuem para a boa imagem dos vinhos croatas. Os especialistas destacam ainda os Malvasia, da região de Ístria, os Babic, de Primosten, e o Posip, vinificadao na ilha Korcula. DC de 13/06/2014

quinta-feira, 5 de junho de 2014

Vinhos da terra do sultão

É da região turca de Mármara um "alegre" vinho tinto da uva Papaskarasi que a vinícola Chamlija acaba de apresentar com sucesso na London Wine Fair. O cartaz de propaganda da Chamlija, reproduzido acima, parece emular a capa do psicodélico ‘Submarino Amarelo’, dos Beatles. Os rótulos também são todos desenhados pela artista Irem Çamlica, filha do viticultor Mustafa Çamlica, representante da terceira geração de uma família que desde 1936 trabalha a terra, de início na búlgara e vizinha Lüleburgaz. Hoje as instalações da vinícola estão em Buyukkaristiran, 120 quilômetros a oeste de Istambul. Papaskarasi significa "uva negra do padre", batismo relacionado aos religiosos dos inúmeros monastérios bizantinos que existiram na região. "É fabuloso e promissor", escreveu sobre a Papaskarasi, o respeitado jornalista inglês Jamie Goode. Mike Rosenberg, auto-intitulado "sommelier do homem comum", diz no blog The Naked Vine: Wine Advice for The Rest of Us, que as maiores surpresas dos concursos e degustações internacionais têm sido os vinhos de países produtores "esquecidos" como Turquia, Grécia, Eslovênia e Líbano. Antes biólogo e editor científico, Jamie Goode vibra como a colega Jancis Robinson ao experimentar vinhos de cepas diferentes, menos disponíveis, como se estivesse fazendo "xizinhos" em uma lista sem fim. Goode conhece bem a aventura da vitis vinífera: foi a partir da região transcaucasiana que a videira se espalhou pelo mundo, "caindo", logo no início da viagem, em direção às vizinhas colônias gregas, no se´culo VI a.C.. Hoje são cerca de 8 mil variedades, escreveu Goode no seu recém-relançado livro Wine Science: The Application of Science in Winemaking (Mitchell Beazley/2014). Pelo menos 1.368 variedades já foram cientificamente identificadas e catalogadas, formando surpreendentes "árvores genealógicas". Uma degustação de vinhos produzidos na Turquia, berço da viticultura, tem portanto sabor especial. Os estudiosos têm evidências de que a origem e a domesticação da videira se deu no sudoeste da atual Turquia, que forma um arco fértil com a Geórgia, Armênia e as áreas montanhosas do Irã. O arqueólogo biomolecular Patrick E. McGovern, da Universidade da Pensilvânia, e o Dr.José Vouillamoz, especialista em identificação genética das variedades de uva, da Universidade de Neuchâtel, na Suíça, dois dos maiores estudiosos do assunto, dizem que a domesticação ocorreu na península anatólica por volta do ano 8.000 a.C.. Análise de achados arqueológicos, como sementes e cerâmicas, indicam atividade vitivinícola na região há 7 mil anos. As instalações em pedra da primeira grande vinícola (4.000 a.C.) foi recentemente descoberta em uma caverna em Areni, Armênia. A Chamlija, vinícola butique, bem distante no tempo de hititas e frígios, é tocada por Mustafa Çamlica, que identificou a cepa Papaskarasi nas imediações de seu vinhedo principal e tratou de cuidar da raridade. Hoje há 211 hectares da variedade plantados na Turquia, especialmente na Trácia, mas com fins especiais, como a preparação da Hardaliye, uma bebida que tem o mosto misturado a sementes de mostarda, cerejas azedas e ácido benzoico. A vinícola Arcadia, na vizinhança da Chamlija, ambas em Kirklareli, também plantou algumas mudas da Papaskarasi para vinho, mas ainda não lançou seus rótulos. Mármara é uma das sete regiões vinícolas da atual Turquia. Fica bem a noroeste do país, banhada por nada menos de três mares cheios de história: Mar Negro, o Egeu e o mar de Mármara. As regiões de Mármara e do Egeu, de clima mediterrâneo, respondem hoje por mais de 66% da produção vinícola da Turquia. A Papazkarasi entra muito pouco nessa conta. As variedades autóctones mais plantadas são: Emir, Narince, Sultaniye, Bornova Misketi, Çalkarasi, Kalecik Karasil, Öküzgözü e Bogazkere. Nos anos1950 o governo iniciou o plantio de variedades francesas, na região do Egeu e da Trácia: Semillon, Clairette, Sylvaner, Gamay, Cinsaut, Pinot Noir e Cabernet Sauvignon. Apesar de estar em quarto lugar na lista das maiores áreas plantadas com vinhedos, (505.000 ha), perdendo apenas para Espanha, França e Itália, somente 2% das uvas são destinadas à vinificação. O que significa que há enorme potencial para o crescimento da vinicultura local. O desenvolvimento da indústria do vinho na região foi inibida com a instalação do Império Otomano (1299-1923), por razões religiosas. Nesse período, as minorias não-muçulmanas tocaram os negócios, que sempre estiveram sujeitos a maiores ou menores restrições. Os sultões do Palácio de Topkapi , entretanto, exerciam o poder com certa tolerância porque sabiam da importância econômica da commoditie. Vinho turco abasteceu França e Itália nos piores momentos da devastação de seus vinhedos pela terrível praga Phylloxera. Mas agora pode conquistar mercados devido a méritos próprios. WINES OF TURKEY - Wines of Turkey, entidade que reúne os principais produtores de vinhos da Turquia, elaborou uma cartilha com informações destinadas aos visitantes da Prowein 2014, realizada em Dussedorf, na Alemanha, em maio. A cartilha, que pode ser consultada na internet, traz todos os detalhes da vitivinicultura na Turquia de ontem e de hoje. www.winesofturkey.org/ NATURALMENTE - Isabelle Legeron, "aquela francesa louca" que carrega um MW (Master of Wine) no currículo, lança seu livro Natural Wine(Ryland Peters and Small/2014) em julho, mas já abriu o debate sobre o tema com uma provocativa tirada. "Somente o vinho natural pode ser verdadeiramente bom. A ironia, como você deve ter adivinhado, é que não temos uma definição para vinho natural", disse Isabelle ao site WineSearcher.com. Muitos a consideram uma xiita na defesa dos vinhos naturais e biodinâmicos. DC de 5/6/2014