quinta-feira, 11 de setembro de 2014

Vida longa a Monsieur Nectar

Nectar, personagem da casa de vinhos francesa Nicolas, faz parte de uma verdadeira saga publicitária que toma fôlego com novo desenho e caminha para os 100 anos. O entregador capaz de carregar um número absurdamente grande garrafas nas mãos nasceu da pena de Dransy em 1922 e, desde então, mesmo durante a Segunda Guerra Mundial, comunicou-se de maneira eficaz com o consumidor francês, pintado em muros, impresso em catálogos e, principalmente, reinando em cartazes que tanto encantam a França. No primeiro desenho de Dransy, Nectar levava 16 garrafas em cada mão, indicando a disponibilidade da entrega e a variedade do catálogo de vinhos da Nicolas. O Nectar redesenhado em 2012 para marcar os 190 anos da cadeia de lojas mantém o avental, o boné e até o moustache do eficiente entregador, mas aliviou a sua carga para 8 garrafas. Grandes cartazistas do Entreguerras participaram da primeira etapa da história de Nectar: Iribe, Loupot, Cassandre, Brunhoff. Ficaram famosos também os catálogos de luxo, feitos para celebrações, entregues aos clientes no fim de cada ano, entre 1932 e 1973 (e também em 1992), com participação de renomados artistas: Van Dongen, Derain, Lorjou, Buffet, Chapelain Midy, Boisrond. Toda essa história foi contada e reunida por Alain Weill, especialista em arte publicitária, no livro Nectar comme Nicolas (Herscher/1986). Só ficou de fora mesmo o novo Monsieur Nectar, estilizado em 2012. Por tudo isso, Étienne Nicolas, que comandava a empresa familiar em 1922, quando Nectar foi lançado, é apresentado por Weill como um "gênio da comunicação", imprimindo seu ânimo de promoção dos vinhos durante 40 anos. Fundada em 1822, em Paris, apenas "um ano após a morte de Napoleão", como a empresa faz questão de frisar, foi a primeira loja especializada a vender e entregar vinhos de qualidade superior em garrafas, em tempo em que a bebida ainda era vendida por volume. Foi também a casa que lançou a ideia do Beaujolais Nouveau e pôs em circulação inúmeros vins de pays. Hoje, a casa, com mais 500 lojas somente em Paris e outras dezenas em outros pontos do globo, pertence ao grupo Grupo Castel, iniciado com negociantes e engarrafadores de Bordeaux, no final dos anos 40, e atualmente um dos maiores produtores de vinho do mundo. Não à toa, o velho Nectar foi parar no rótulo de um comemorativo Cabernet Sauvignon 2012. Em três anos de sucesso de "Nectar das 32 garrafas", Éttienne compreendeu que precisava dar-lhe uma nova dimensão. Associou-se a Draeger, um homem de peso na publicidade francesa da época, que começou a produzir encartes para jornais, com um Nectar modernizado, incorporado em elegantes traços cubistas. Com Draeger, Nectar também foi parar no cinema, em filmetes divertidos que antecediam a atração principal. Dransy assinou um contrato com Nicolas, em que autorizava o uso de seu personagem, desenhado posteriormente nos estúdios de Draeger, com o indicativo "d'après" Dransy. Nesse espírito, Nectar chegou a aparecer com seu ajudante Glou-Glou. Sua "literária" companheira Felicité não chegou a ser um sucesso. Na década de 30, Paul Iribe, precursor da arte déco e grande ilustrador, foi chamado por Étienne para produzir vários álbuns com sequências ao modo de quadrinhos, onde um indisfarçável Nectar aparece como sommelier. Nectar não se furtou a emprestar sua figura a todos os estilos e todo tipo de aventura. E até os anos 1960, quando ainda circulavam, tínhamos quase certeza de que era ele a dirigir o famoso triciclo da casa pelas ruas de Paris entregando os vinhos da Nicolas. DC de 12/09/2014

quinta-feira, 4 de setembro de 2014

A nova cara dos vinhos australianos

Muitas barricas vêm rolando na terra dos cangurus desde que o capitão Arthur Philip desembarcou, em 1788, no que é hoje o Porto de Sydney. Das primeiras tentativas de produção de vinho aos mais de 700 milhões de litros exportados anualmente para todo mundo passaram-se apenas 200 anos, rapidez e eficiência reveladoras de uma nação perseverante que se vale de muita experimentação e ciência para o manejo de seus vinhedos. A Wine Spectator de agosto, na pena do especialista Harvey Steiman, acaba de indicar um avanço dos Cabernet Sauvignon australianos no mercado americano, depois que os vinicultores conseguiram um equilíbrio na sua personalidade herbácea. Importante notícia, já que o Shiraz sempre fez sombra aos "Cab aussies". A mais nova expressão do dinamismo da vinicultura australiana, entretanto, é encontrada em jovens e estudiosos produtores de Victoria, reunidos no grupo South Pack. Fora do circuito global das grandes empresas, estão atrás de vinhos artesanais que melhor expressem o terroir daquele pedaço de Novo Mundo que tem solos de 500 milhões de anos. Vinhos que também mostrem como o australiano está tratando as novas variedades plantadas hoje no país, vinhedos que se misturam às mais antigas parreiras remanescentes do mundo, dos anos 1850. Em entrevista a Tim Wildman, publicada no blog Les Caves de Pyrène (mantido pela homônima importadora britânica), o viticultor Barney Flanders, da Allies, define o South Pack com uma antítese. O que o grupo está procurando NÃO FAZER é justamente vinhos excessivamente frutados, com a presença intensa do carvalho "adocicado", muito álcool e baixa acidez . Ele acredita que o mundo já se cansou dessa receita típica australiana, que fez muito sucesso num passado que é ainda muito presente. A produção do South Pack é, portanto, uma reação aos "pesados" vinhos dos anos 90, comparável à revolução ocorrida nos Estados Unidos com o movimento "New California", escreveu Julia van der Vink, em Punch. O South Pack foi criado em 2006 para somar as forças de promoção das garrafas de pelo menos oito vinicultores independentes, que trabalham com vinhedos principalmente no Yarra Valley, Mornington e Gippsland, ao sul da região de Victoria. São eles: Mac Forbes (Mac Forbes Wines), Timo Mayer (Mayer) Gary Mills (Jamsheed), James e Clare Lance (Punch), Barney Flandres e David Chapman (Alliens e Garagiste), Adam Forster (Syrahmi), Luke Lambert (Luke Lambert Wines), Bill Downie (William Downie). Muitos deles estão concentrados no Yarra Valley, que tem a uva Pinot como "cepa de inovação". Os Pinot de Mac Forbes foram parâmetros dessa revolução. Luke Lambert, por sua vez, além dos Shiraz, faz vinhos da italianíssima uva Nebbiolo, em Heathcote, assim como Gary Mills produz boas garrafas de Gewürztraminer e Viognier. Essas novas apostas convivem com as mais tradicionais cepas da vinicultura local, que são Shiraz, Cabernet Sauvignon (que gosta da terra roxa de Cononawarra) e Chardonnay. Depois daquela árdua viagem oceânica de oito semanas, uma das primeiras atitudes do capitão Philip (logo guindado a almirante e que seria o governador da colônia britânica New South Wales), foi plantar, com a força dos seus "condenados" o que restava das mudas que trazia na embarcação. Entre as plantas, vinhas do Cabo da Boa Esperança e do Brasil. Pois se a Grã-Bretanha não tem exatamente uma história das mais vibrantes da indústria do vinho, sempre foi um grande reino de consumidores e, no século XVIII, já era um porto de muitos negociantes da bebida. Havia uma ideia, sobrejacente à da conquista territorial, de que a Austrália poderia ser o "vinhedo da Inglaterra", explica Max Allen em Crush (Mitchell Beazley/2000). Como aquele ponto da Austrália era muito quente e úmido, as tentativas de produzir vinho ali fracassaram. O primeiro vinhedo produtivo e a primeira vinícola comercial vieram décadas depois, já no início do século XIX. Até os anos 1960, aproximadamente 80% dos vinhos australianos eram fortificados, na linha do Sherry e do Porto. Eram conhecidos na Inglaterra como "vinho colonial". Foi depois da Segunda Guerra que o perfil dos vinhos locais foi sendo alterado, graças aos imigrantes italianos, gregos e alemães, que gostavam dos vinhos à mesa, para acompanhar as refeições. O primeiro grande vinho australiano saiu das mãos de Max Schubert, da vinícola Penfold, em 1951: o safrado "Grange". Depois dele, a vinicultura australiana nunca mais foi a mesma. TERREMOTO - O espírito de um movimento social que os americanos conhecem bem (neighbors helping neighbors) tomou conta de produtores de vinho reunidos no Napa Valley Vintners, que anunciou a doação de US$ 10 milhões para a criação de um fundo destinado às vítimas do terremoto que atingiu a Califórnia, incluindo vinhedos de Napa, em 24 de agosto. O dinheiro vai para reconstrução de moradias e negócios.BRASILEIROS - O Novo Guia Adega de Vinhos do Brasil (2014-2015) acaba de ser lançado pela Editora Inner em parceria com a revista Adega. Foram avaliados cerca de 580 vinhos, de mais de 60 vinícolas de todo País. A publicação oferece ainda um resumo das principais regiões vitivinícolas e um ranking de rótulos de maior destaque. http://lojainner.com.br/guiaadegavinhosdobrasil2013-2015.html DC de 5 de setembro de 2014

sexta-feira, 29 de agosto de 2014

Campeando por "terroir extremo"

Nasce de uma pequena vinícola em Rosário do Sul, na fronteira oeste do vinho gaúcho, um rótulo forte que ajuda a ampliar as dimensões que temos do conceito de terroir, essa palavra que os franceses souberam amar e difundir e que, em síntese, sinaliza a importância do “pertencer a um lugar” no resultado final de um bom vinho. Salamanca do Jarau, da vinícola Routhier & Darricarrère, 100% Cabernet Sauvignon, oferece uma outra lição de terroir a partir da Campanha Gaúcha: as leveduras indígenas das uvas cumprem com a ancestral tarefa de fermentação, sem ajuda de forças alienígenas (as leveduras multiplicadas e padronizadas em laboratório, compradas e inoculadas para, por exemplo, amaciar o vinho). A prática integra o conceito de “terroir extremo”, que inclui na equação, cada vez mais, a microbiologia, essencial para a personalidade dos vinhos, como explica o enólogo Anthony Darricarrère. O “senso de lugar” clássico tem como base clima e terreno (é claro que há de se considerar o homem e suas tradições), mas sabe-se que cerca de 400 dos quase mil compostos voláteis dos sabores do vinho são produzidos pelas leveduras, escreve o biólogo Jamie Goode em The Science of Wine - from Vine to Glass. A fermentação espontânea resulta em uma bebida mais rústica, com margens para surpresas. E esse é um ponto do debate que se trava entre aqueles que defendem a homogeneização (e com isso a pretensa melhor “qualidade” do vinho) e os adeptos do que diz o lugar, sem censuras, dando voz inclusive aos “bichinhos” nativos. O Salamanca do Jarau é uma edição limitada do vinho Província de São Pedro 2012, mas elaborado com uvas de um só vinhedo e que passa por barricas velhas. É um vinho de rubi intenso, translúcido, 12,5° de álcool, que exala aroma peculiar desse tipo de fermentação, ameixa vermelha, cereja, couro e cedro. Na boca, depois de uma boa evolução na própria taça, encontramos cacau, pimenta preta e noz moscada. A Routhier & Darricarrère, fundada em 2002, tira de seus 5 hectares, uvas para seus outros rótulos: Província de São Pedro Chardonnay, os espumantes Ancestral e ReD, o rosé Marie Gabi e o ReD Cabernet (com um corte de não mais de 15% de Merlot), O ReD ganhou o Brasil como “o vinho da kombi”, movido também pelo rótulo de Gabriela Puhl Darricarrère, que homenageia de maneira pop os pais da aventura vitivinícola (imperdível ainda o animado álbum de fotografias de época no site da Routhier & Darricarrère). Salamanca do Jarau, em tempo de “terroir extremo”, destaca-se também por qualidades que ultrapassam os limites da vinicultura. O vinho é peça agregadora de arte e cultura locais, a começar pelos quatro rótulos diferentes, desenhos de excepcional vigor criados pelo artista gaúcho Gelson Radaelli (veja ao lado). Foram inspirados numa lenda de formação do povo gaúcho, Salamanca do Jarau, texto do pelotense João Simões Lopes Neto (1864-1916), publicado pela primeira vez em 1913. Simões Lopes conhecia a fundo as vastidões dos pampas, a alma do gaúcho e suas charqueadas. Consta que o texto inspirou Érico Veríssimo em O Tempo e o Vento. A lenda, que bebe em tradições de uma Espanha mística, conta a história da princesa moura que aportou por aqui em uma urna vinda de Salamanca. Vale a pena conhecer a inventividade literária no original de Simões Lopes. Aqui, o resumo do resumo: a princesa moura, na pele de uma lagartixa, foi encontrada por um sacristão apaixonado que, depois de caçá-la com sua guampa (não poderia ser mesmo nada diferente disso), a liberta para a beleza com doses de vinho de missa. Fugiram para uma gruta no Cerro do Jarau; lá se amaram e tiveram os filhos que deram origem aos primeiros gaúchos. A ARTE DOS RÓTULOS - Agora às voltas com pintura em grandes telas, como as de Solidez do Céu, expostas em 2013, o artista gaúcho Gelson Radaelli sempre encontra entusiasmo para comandar o restaurante Atelier de Massas, no centro histórico de Porto Alegre. E combina as funções há 23 anos. A aproximação com os vinhos é anterior à vida de restauranter. Ele conta que, ainda menino, já circulava pelas cantinas, onde foi conquistado pelos mistérios da bebida. Por isso, a ligação da sua arte com os vinhos veio naturalmente, já que estão dentro do mesmo arco de paixões. Antes dos desenhos para o Salamanca do Jarau, tinha emprestado seus traços impressionistas para os Carrau. E para o argentino Tempo Alba Radaelli 2007 (acima), da Finca Alborada, de Luján de Cuyo, Mendoza. Nesse caso, Gelson não somente assina o rótulo, como tem seu sobrenome homenageado no batismo do vinho. Não à toa, o Atelier de Massas, com uma adega de 300 rótulos, é ponto agregador de arte e cultura em Porto Alegre, movido tanto pelas boas pastas como por vinhos que estimulam o diálogo e a convivência. Atelier de Massas Rua Riachuelo, 1482, Porto Alegre (RS) www.atelierdemassas.com.br/ dc DE 29/8/2014

domingo, 24 de agosto de 2014

"Serei o seu sommelier esta noite"

Roupa bem branca é sempre um prato cheio para molhos de tomate, shoyu e vinhos. Quem não sabe? No último caso, muitas vezes a defesa dos tecidos imaculados fica por conta de preparados sommeliers (e suas horas de voo a bordo com saca-rolhas) destinados a servi-los. Será? Pois ali naquele salão de banquetes de Glasgow estava o inglês Andy Goram, célebre goleiro do Rangers nos anos 1990, com sua impecável "camisa de gala, com seu colarinho alto de pontas viradas". Camisa que, em segundos, foi transformada em "mata-borrão de Châteauneuf-du-Pape", aquele vinho que sai da histórica região no sul do Rhône. Quem conta a história é o roqueiro britânico Alex Kapranos, líder da banda Franz Ferdinand, no divertido livro Mordidas Sonoras (Conrad/2007), uma verdadeira "turnê gastronômica". Kapranos, que antes do sucesso musical trabalhou em todo tipo de restaurante e cozinha na Grã-Bretanha, sem contar que foi entregador de fast food indiano e também "garçom de vinhos". Ele tinha sido escolhido para servir a mesa de Andy Goram naquele fatídico jantar por conta de sua neutralidade futebolística e origem – um descendente de gregos ortodoxos e que torcia para o Suderland. Os organizadores do serviço evitaram a todo custo colocar na mesa de Andy um torcedor do rival Celtic. Kapranos conta que alcançou a taça de Andy sem perceber o silencioso torcedor do Celtic atrás dele. "Isso até que ele agarra meu cotovelo com firmeza e o empurra". O estrago estava feito. O roqueiro, que já teve coluna no Guardian para suas peripécias antropológicas (afinal, ele experimentou várias cozinhas nas turnês do Franz Ferdinand), confessa que seu cargo era maior do que suas capacidades. E, se havia dez garrafas de vinho no menu, o que ele sabia dizer aos clientes era quais eram os tintos e os brancos. Hoje, praticamente todos os restaurantes que têm o vinho entre suas preocupações não dispensam um bom sommelier (ou sommelière), que é escolhido a dedo entre centenas de profissionais em formação em todo mundo. Os melhores são estudiosos da enologia, visitam vinhedos e vinícolas, controlam as adegas, fazem as compras, servem as mesas sem muito salamaleque. A escritora canadense Natalie MacLean faz um pungente depoimento sobre a ascensão da profissão em "Undercover Sommelier" , um dos capítulos do seu livro Red, White, and Drunk all Over (Bloomsbury/2006). Ela foi sommelier por um dia no Le Baccara, premiado restaurante de cozinha francesa em Québec, e percebeu entre os colegas pares de cena o grande desenvolvimento da profissão. "Ao contrário do distanciamento, os sommeliers devem aplacar a sede dos amantes do vinho com o Conhecimento", escreve. Para Natalie, idealmente um sommelier seria também uma fonte de informação sobre vinhos de todo o mundo, capaz de discorrer sobre as áreas vitícolas, os châteaux, produtores e safras. É claro que eles devem estar preparados para indicar a melhor garrafa para determinado prato, e devem ser éticos o suficiente para indicar que a melhor garrafa não é necessariamente a mais cara. MacLean destaca também o trabalho dos sommeliers ao lado dos chefs na criação de "experiências completas" de harmonização. A palavra sommelier nasceu na Idade Média francesa para nomear aqueles que testavam os vinhos para as ordens religiosas e casas reais. Mas a profissão tem um "patrono" bem mais ancestral, colecionado na rica mitologia grega. Contam que Zeus se apaixonou pelo príncipe troiano Ganimedes e o raptou para o Olimpo nas suas próprias asas, já que para a missão tinha se transformado numa águia. Ganimedes acabou desbancando Hebe na função de servir o néctar da imortalidade aos deuses, não sem antes derrubar um pouco sobre a Terra, para os mortais. DC de 22/8/2014

domingo, 17 de agosto de 2014

O vinho na arte

Faz dez anos que a historiadora Montserrat Miret i Nin, da Universidade de Barcelona, lançou seu livro O Vinho na Arte, no qual faz uma compilação das representações artísticas do vinho e da vinicultura ao longo da história, principalmente aquelas dadas na civilização mediterrânea, espaço de interação de diferentes culturas, mas com uma tríade comum: o trigo, a oliveira e a vinha. O Vinho na Arte (traduzido em 2005 para o português pela editora Chaves Ferreira) tornou-se um objeto de desejo para estudiosos e entusiastas da bebida, livro que tem inspirado outras publicações. Especialista em arte medieval, filha da região vinícola de Penedès, a catalã Montserrat “tanto conhece o carvalho com que se construíram as cadeiras do coro da igreja de Santa Maria de Vilafranca, como as madeiras onde envelhecem os tintos veneráveis de sua terra”, escreveu o historiador Maurício Wiesenthal, ele mesmo especialista em gastronomia e enologia. Temos então em Montserrat a estudiosa com a mão na terra e o coração no céu. No primeiro capítulo, “Imagens e temas do vinho na arte”, a autora discute a presença cotidiana do vinho na história das civilizações, da mesa comum aos atos festivos e de celebração. E também do vinho que ganha simbologias e marca rituais mais ou menos religiosos. Chega assim a uma das representações mais antigas que se conhece: as pinturas rupestres da coleta de uvas, nas grutas Las Mallaetes e Calavares (Valência). Montserrat destaca também os achados arqueológicos da Mesopotâmia, tantos os caracteres cuneiformes representando a parreira, em tabletes de argila encontrados em escavações na cidade-estado de Kish, como os baixos-relevos em alabastro de um banquete de Assurbanipal ao inaugurar sua Nínive (668-626 a.C.). Um capítulo inteiro é dedicado ao Egito, onde são famosos os murais com as representações da colheita das uvas, feitura do vinho e até de seu armazenamento. Os vidreiros egípcios agradavam os nobres com pequenos frascos na forma de cachos de uva. No capítulo sobre “A Mitologia Clássica”, um dos mais alentados, a autora se apoia principalmente nas abundantes representações de Dionísio, o deus dos vinhos dos gregos, e seu correspondente romano, Baco. Montserrat selecionou inúmeras cenas presentes em vasos e taças, além de fazer referência a obras monumentais, como o deus do vinho representado num dos frisos do Parthenon. A autora também destaca as obras de inspiração bíblica e do vinho presente na iconografia cristã, cenas celebradas em painéis, esculturas, tapeçarias e nos vitrais das imponentes catedrais. O Vinho na Arte encerra-se com obras dos séculos XIX e XX, também ilustrando momentos da vida cotidiana, seja a garrafa em “Os Jogadores de Carta”, de Paul Cézanne, ou a taça de champagne na mão do conquistador, em “Par no Père Lathuille”, de Edouard Manet. A vibrante “Vinha Encarnada", de Van Gogh, não poderia ser esquecida, assim como a plácida cena do clássico “O almoço na relva”, de Claude Monet. VINHA DE VAN GOGH - A única tela de Van Gogh vendida em vida chama-se "A Vinha Encarnada" ou "A Vinha Vermelha", pintada em Arles, em novembro de 1888. Foi comprada pela pintora belga Anne Boch, patronesse de artistas. Como escreve o crítico de vinhos e editor Marcelo Copello em seu blog Mar de Vinho, a tela sela a relação de Van Gogh com o vinho. O pintor descreve sua obra como “um vinhedo vermelho, todo vermelho como vinho tinto. Ao fundo, no céu com sol, o vermelho se transforma em amarelo e depois em verde . Na terra, depois da chuva, os tons são de violeta com reflexos dourados do sol”. Segundo Copello, "A vinha vermelha" indica uma colheita retardada (e chuvosa) e sugere que as uvas eram Grenache e/ou Carignan, castas tardias típicas da região. No mesmo ano, dois meses antes, ele tinha pintado "A Vinha Verde". DC de 15/8/2014

sexta-feira, 8 de agosto de 2014

Doce laureado

Quem vai à Grécia de navio partindo do porto italiano de Brindisi, no mar Adriático, vai passar pela “veneziana” Corfu até chegar ao histórico porto de Patras, no norte do Peloponeso. Em Patras vai encontrar uma cidade operária movimentada por turistas, que nas últimas décadas ganhou extensa programação cultural. Boa comida sempre existiu, incluindo o surpreendente vinho de sobremesa da uva Mavrodaphne. Mavrodaphne pode ser traduzida como “louro negro”, batismo associado às bagas escuras da árvore da conhecida folha aromática, o louro que vai para a panela, mas que é ancestralmente usado pelos gregos para coroar seus sucessos. Uma taça desse néctar dionisíaco, que pode chegar a 18% de álcool, é sempre indicada para fechar a refeição, mesmo depois da farra da doçaria de Patras, com folhados de amêndoas e muito mel. Há, entretanto, harmonizações mais atraentes, como as sobremesas com chocolate amargo. O doce e fortificado Mavrodaphne é um dos vinhos mais exportados da Grécia. Vem passando por uma revolução de qualidade e tem potencial para ombrear os melhores vinhos doces do mundo. “Está entre um italiano recioto e uma espécie de Porto concentrado”, avalia o inglês Hugh Johnson. E os bons Mavrodaphne também se espelham na longevidade dos vinhos do Porto. A apelação mais conhecida é a Mavrodaphne de Patras, com vinhos que podem ter no blend até 49% da uva Korinthiaki. Outra designação de origem, Mavrodaphne de Kefaloniá, apresenta vinhos varietais, 100% Mavrodaphne. Geralmente as duas uvas, Mavrodaphne e Korinthiaki, são vinificadas separadamente, até que metade dos açúcares tenham se convertido em álcool. A fermentação é sustada com a fortificação, ou seja, o acréscimo do destilado de vinho. Depois vem o envelhecimemto, seguindo as receitas de cada enólogo. O mais comum é que ganhem sua expressão (sabor com fundo de passas, café e baunilha) após cinco anos em barrica. Durante anos, o mercado internacional foi inundado por vinhos Mavrodaphne de discutível qualidade. Não só a porcentagem da Korintiaki (mais usada para a produção de sucos) era desobedecida e ultrapassada, como os vinhedos se espalhavam por áreas muitas vezes sem distinção. Como escreve Mark Stolz, especialista em vinhos gregos, os viticultores reclamam que o Mavrodaphne é vendido a granel para grandes companhias que engarrafam e o vendem como produto da região. E para economizar nos custos, o envelhecem em tanques de aço ou cimento no lugar de barricas de carvalho, como manda a tradição. Algumas vinícolas como a Karelas, fundada em 1936, já fazem seu Mavrodaphne de Patras desprezando a Korinthiaki. Outra representante do Mavrodaphne de qualidade é a vinícola Cambas (hoje gerida pela renomada Boutari) e a Antonopoulos, que tem um de seus rótulos no Brasil, importado pela Mistral. Já a Achaia Clauss continua no panteão local devido à sua história. Seu fundador, o fileleno alemão Gustav Clauss, é tido como o pioneiro na vinificação desses fortificados, iniciada em meados do século XIX. Os primeiros rótulos da Achaia tinham textos em alemão, como se Gustav estivesse na sua Baviera.COLOSSO DE MARÚSSIA - A temporada de Grécia, pouco antes da eclosão da Segunda Guerra Mundial, do escritor norte-americano Henry Miller (1891-1980) rendeu o livro o Colosso de Marússia e uma verdadeira ode ao Mavrodaphne de Patras: "o vinho que "desliza pela garganta como vidro fundido, incendiando as veias como um líquido pesado e vermelho que expande o coração e a mente". Ao prová-lo, a sensação é de peso e leveza ao mesmo tempo, registrou Miller. NO BRASIL - A Mistral é importa para o Brasil o Mavrodaphne of Patras da vinícola Antonopoulos, fundada por Konstantinos Antonopoulos e agora tocada com a mesma tradição por Yiannis Halikias. Os vinhedos da Antnopoulos estão ao sul de Patras, na base das montanhas da Acaia. Já a importadora Vinci traz o Macrodaphne da casa Cambas, equanto a LPH Brasil importa um rótulo mais popular, o Mavrodaphne od Patras Cellar reserve, da Tsantali. DC de 8/8/2014

terça-feira, 5 de agosto de 2014

O estado da Bonny Doon

Com a solenidade dos presidentes dos Estados Unidos ao discursarem anualmente sobre “o estado da Nação”, o vitivinicultor californiano Randall Grahm acaba de escrever “o estado da Doon”. A Bonny Doon é sua festejada propriedade na Califórnia, de onde saem vinhos orgânicos cultuados no mundo inteiro. Pois Randall Grahm confessa (leia em www.beendoonsolong.com/): quase perdeu a vinícola para credores insensíveis a seus projetos de longo prazo. Diz ainda que a Bonny Doon ainda procura seu rumo, abalado depois que Grahm vendeu, e isso já há cerca de 8 anos, dois dos rótulos que o levaram ao sucesso: Big House e Cardinal Zin. E os vendeu por ideologia, já que estes vinhos passaram a ser produzidos em escala, como outro vinho qualquer, e isso contrariava sua filosofia de produção limitada e mais cuidadosa. Randall Grahm é um performista (chegou a promover o funeral de um corpo feito de “contaminantes” rolhas naturais, em nome do avanço das rolhas sintéticas). É também um reconhecido pensador do vinho natural, reverenciado por seus textos, parte deles reunida na sua divertida "vinthology" Been Doon So Long. Gostam dele tanto o aristocrático crítico inglês Hugh Johnson como o escritor americano (mais para beatnik) Jay McInerney. O crítico-biólogo Jamie Goode, autor de Science of Wine, diz que Grahm é um gênio. Vem daí a surpresa pelo “estado” revelado da Bonny Doon. Randall Grahm faz vinhos biodinâmicos, gosta de experimentação, e não abre mão das teorias do educador Rudolf Steiner, pensando sua propriedade de maneira holística. Como um dos mais antigos rhôneranger (assim são conhecidos os agricultores que plantam as castas francesas do Vale do Rhône na América), já apareceu com chapéu de cowboy na capa da Wine Spectator. Um de seus vinhos cult é o Cigare Volant, elaborado com as uvas Mourvèdre e Carignane dos vinhedos de Contra Costa. E a ideia é sempre produzir blends ou vinhos varietais que melhor expressem os terrenos. Para cada um desses vinhos, sempre um rótulo criativo e fora dos padrões. A menina dos olhos de Grahm é o projeto Popelouchum, que prevê a criação de novas variedades de uvas em terras perto de San Juan Bautista, cidade originada de uma antiga missão jesuítica. Popelouchum será um jardim do Éden, onde serão desenvolvidas, em cruzamentos, hibridizações e experiências genéticas, cerca de 10 mil novas variedades –“um dos mais importantes projetos da história recente do vinho”, como o valoriza Grahm. Popelouchum é a palavra indígena da tribo dos Mutsun que alude a paraíso. Como já escrevi aqui, Grahm tem seguido os conselhos desses índios, como o jejum de contemplação e interação com o território dos vinhedos. E não despreza os devas, guias da natureza capazes de indicar as melhores ações de equilíbrio, harmonia e ordem para a construção de um jardim perfeito. Popelouchum, entretanto, está em banho maria, já que não é “monetizável” e é “ligeiramente arriscado”. Aguarda a solidificação de novos resultados da empresa a partir do que Graham chama de “rebranding”. No “estado da Doon”, Grahm informa que a vinícola já saiu do vermelho. Um dos movimentos importantes foi remapear os mercados consumidores, tumultuados após a venda dos rótulos mais célebres. Uma distribuição inacreditavelmente difícil nos EUA, com estados ainda em regime de Lei Seca, e com uma cadeia de negócios que prevê a obrigatoriedade dos "intermediários". Randall Grahm, como muitos vinicultores do seu país, luta para vender livremente seus vinhos diretamente aos consumidores de cada estado americano. E gostaria de estar com a mão na terra, cuidando das parreiras, mas tem, por ora, de passar tempo em aviões e quartos de hotel enquanto não é atendido por ferozes atacadistas. VINTHOLOGY - O crítico inglês Hugh Johnson escreveu na apresentação de Been Doon So Long (University of California Press/2009), de Randall Grahm, que o vinho também precisa de palavras em seu caminho entre ser notado e – aqui a melhor parte – bebido. Grahm tem palavras originais para o mundo de jargões dos críticos e se arrisca também na ficção vinícola, com textos como "Da Vino Commedia: The Vinferno". FREE THE GRAPES - Um mapa no site do movimento 'Free the Grapes' mostra como andam as leis da venda de vinhos nos Estados Unidos. Cada estado tem uma legislação específica em relação à venda direta das vinícolas aos consumidores. Alguns estados, graças a poderosos lobbies, mantêm os revendedores como peças fundamentais do mercado. 'Free the Grapes' em www.freethegrapes.org/ Diário do Comércio de 25/7/2014