sexta-feira, 29 de agosto de 2014

Campeando por "terroir extremo"

Nasce de uma pequena vinícola em Rosário do Sul, na fronteira oeste do vinho gaúcho, um rótulo forte que ajuda a ampliar as dimensões que temos do conceito de terroir, essa palavra que os franceses souberam amar e difundir e que, em síntese, sinaliza a importância do “pertencer a um lugar” no resultado final de um bom vinho. Salamanca do Jarau, da vinícola Routhier & Darricarrère, 100% Cabernet Sauvignon, oferece uma outra lição de terroir a partir da Campanha Gaúcha: as leveduras indígenas das uvas cumprem com a ancestral tarefa de fermentação, sem ajuda de forças alienígenas (as leveduras multiplicadas e padronizadas em laboratório, compradas e inoculadas para, por exemplo, amaciar o vinho). A prática integra o conceito de “terroir extremo”, que inclui na equação, cada vez mais, a microbiologia, essencial para a personalidade dos vinhos, como explica o enólogo Anthony Darricarrère. O “senso de lugar” clássico tem como base clima e terreno (é claro que há de se considerar o homem e suas tradições), mas sabe-se que cerca de 400 dos quase mil compostos voláteis dos sabores do vinho são produzidos pelas leveduras, escreve o biólogo Jamie Goode em The Science of Wine - from Vine to Glass. A fermentação espontânea resulta em uma bebida mais rústica, com margens para surpresas. E esse é um ponto do debate que se trava entre aqueles que defendem a homogeneização (e com isso a pretensa melhor “qualidade” do vinho) e os adeptos do que diz o lugar, sem censuras, dando voz inclusive aos “bichinhos” nativos. O Salamanca do Jarau é uma edição limitada do vinho Província de São Pedro 2012, mas elaborado com uvas de um só vinhedo e que passa por barricas velhas. É um vinho de rubi intenso, translúcido, 12,5° de álcool, que exala aroma peculiar desse tipo de fermentação, ameixa vermelha, cereja, couro e cedro. Na boca, depois de uma boa evolução na própria taça, encontramos cacau, pimenta preta e noz moscada. A Routhier & Darricarrère, fundada em 2002, tira de seus 5 hectares, uvas para seus outros rótulos: Província de São Pedro Chardonnay, os espumantes Ancestral e ReD, o rosé Marie Gabi e o ReD Cabernet (com um corte de não mais de 15% de Merlot), O ReD ganhou o Brasil como “o vinho da kombi”, movido também pelo rótulo de Gabriela Puhl Darricarrère, que homenageia de maneira pop os pais da aventura vitivinícola (imperdível ainda o animado álbum de fotografias de época no site da Routhier & Darricarrère). Salamanca do Jarau, em tempo de “terroir extremo”, destaca-se também por qualidades que ultrapassam os limites da vinicultura. O vinho é peça agregadora de arte e cultura locais, a começar pelos quatro rótulos diferentes, desenhos de excepcional vigor criados pelo artista gaúcho Gelson Radaelli (veja ao lado). Foram inspirados numa lenda de formação do povo gaúcho, Salamanca do Jarau, texto do pelotense João Simões Lopes Neto (1864-1916), publicado pela primeira vez em 1913. Simões Lopes conhecia a fundo as vastidões dos pampas, a alma do gaúcho e suas charqueadas. Consta que o texto inspirou Érico Veríssimo em O Tempo e o Vento. A lenda, que bebe em tradições de uma Espanha mística, conta a história da princesa moura que aportou por aqui em uma urna vinda de Salamanca. Vale a pena conhecer a inventividade literária no original de Simões Lopes. Aqui, o resumo do resumo: a princesa moura, na pele de uma lagartixa, foi encontrada por um sacristão apaixonado que, depois de caçá-la com sua guampa (não poderia ser mesmo nada diferente disso), a liberta para a beleza com doses de vinho de missa. Fugiram para uma gruta no Cerro do Jarau; lá se amaram e tiveram os filhos que deram origem aos primeiros gaúchos. A ARTE DOS RÓTULOS - Agora às voltas com pintura em grandes telas, como as de Solidez do Céu, expostas em 2013, o artista gaúcho Gelson Radaelli sempre encontra entusiasmo para comandar o restaurante Atelier de Massas, no centro histórico de Porto Alegre. E combina as funções há 23 anos. A aproximação com os vinhos é anterior à vida de restauranter. Ele conta que, ainda menino, já circulava pelas cantinas, onde foi conquistado pelos mistérios da bebida. Por isso, a ligação da sua arte com os vinhos veio naturalmente, já que estão dentro do mesmo arco de paixões. Antes dos desenhos para o Salamanca do Jarau, tinha emprestado seus traços impressionistas para os Carrau. E para o argentino Tempo Alba Radaelli 2007 (acima), da Finca Alborada, de Luján de Cuyo, Mendoza. Nesse caso, Gelson não somente assina o rótulo, como tem seu sobrenome homenageado no batismo do vinho. Não à toa, o Atelier de Massas, com uma adega de 300 rótulos, é ponto agregador de arte e cultura em Porto Alegre, movido tanto pelas boas pastas como por vinhos que estimulam o diálogo e a convivência. Atelier de Massas Rua Riachuelo, 1482, Porto Alegre (RS) www.atelierdemassas.com.br/ dc DE 29/8/2014

domingo, 24 de agosto de 2014

"Serei o seu sommelier esta noite"

Roupa bem branca é sempre um prato cheio para molhos de tomate, shoyu e vinhos. Quem não sabe? No último caso, muitas vezes a defesa dos tecidos imaculados fica por conta de preparados sommeliers (e suas horas de voo a bordo com saca-rolhas) destinados a servi-los. Será? Pois ali naquele salão de banquetes de Glasgow estava o inglês Andy Goram, célebre goleiro do Rangers nos anos 1990, com sua impecável "camisa de gala, com seu colarinho alto de pontas viradas". Camisa que, em segundos, foi transformada em "mata-borrão de Châteauneuf-du-Pape", aquele vinho que sai da histórica região no sul do Rhône. Quem conta a história é o roqueiro britânico Alex Kapranos, líder da banda Franz Ferdinand, no divertido livro Mordidas Sonoras (Conrad/2007), uma verdadeira "turnê gastronômica". Kapranos, que antes do sucesso musical trabalhou em todo tipo de restaurante e cozinha na Grã-Bretanha, sem contar que foi entregador de fast food indiano e também "garçom de vinhos". Ele tinha sido escolhido para servir a mesa de Andy Goram naquele fatídico jantar por conta de sua neutralidade futebolística e origem – um descendente de gregos ortodoxos e que torcia para o Suderland. Os organizadores do serviço evitaram a todo custo colocar na mesa de Andy um torcedor do rival Celtic. Kapranos conta que alcançou a taça de Andy sem perceber o silencioso torcedor do Celtic atrás dele. "Isso até que ele agarra meu cotovelo com firmeza e o empurra". O estrago estava feito. O roqueiro, que já teve coluna no Guardian para suas peripécias antropológicas (afinal, ele experimentou várias cozinhas nas turnês do Franz Ferdinand), confessa que seu cargo era maior do que suas capacidades. E, se havia dez garrafas de vinho no menu, o que ele sabia dizer aos clientes era quais eram os tintos e os brancos. Hoje, praticamente todos os restaurantes que têm o vinho entre suas preocupações não dispensam um bom sommelier (ou sommelière), que é escolhido a dedo entre centenas de profissionais em formação em todo mundo. Os melhores são estudiosos da enologia, visitam vinhedos e vinícolas, controlam as adegas, fazem as compras, servem as mesas sem muito salamaleque. A escritora canadense Natalie MacLean faz um pungente depoimento sobre a ascensão da profissão em "Undercover Sommelier" , um dos capítulos do seu livro Red, White, and Drunk all Over (Bloomsbury/2006). Ela foi sommelier por um dia no Le Baccara, premiado restaurante de cozinha francesa em Québec, e percebeu entre os colegas pares de cena o grande desenvolvimento da profissão. "Ao contrário do distanciamento, os sommeliers devem aplacar a sede dos amantes do vinho com o Conhecimento", escreve. Para Natalie, idealmente um sommelier seria também uma fonte de informação sobre vinhos de todo o mundo, capaz de discorrer sobre as áreas vitícolas, os châteaux, produtores e safras. É claro que eles devem estar preparados para indicar a melhor garrafa para determinado prato, e devem ser éticos o suficiente para indicar que a melhor garrafa não é necessariamente a mais cara. MacLean destaca também o trabalho dos sommeliers ao lado dos chefs na criação de "experiências completas" de harmonização. A palavra sommelier nasceu na Idade Média francesa para nomear aqueles que testavam os vinhos para as ordens religiosas e casas reais. Mas a profissão tem um "patrono" bem mais ancestral, colecionado na rica mitologia grega. Contam que Zeus se apaixonou pelo príncipe troiano Ganimedes e o raptou para o Olimpo nas suas próprias asas, já que para a missão tinha se transformado numa águia. Ganimedes acabou desbancando Hebe na função de servir o néctar da imortalidade aos deuses, não sem antes derrubar um pouco sobre a Terra, para os mortais. DC de 22/8/2014

domingo, 17 de agosto de 2014

O vinho na arte

Faz dez anos que a historiadora Montserrat Miret i Nin, da Universidade de Barcelona, lançou seu livro O Vinho na Arte, no qual faz uma compilação das representações artísticas do vinho e da vinicultura ao longo da história, principalmente aquelas dadas na civilização mediterrânea, espaço de interação de diferentes culturas, mas com uma tríade comum: o trigo, a oliveira e a vinha. O Vinho na Arte (traduzido em 2005 para o português pela editora Chaves Ferreira) tornou-se um objeto de desejo para estudiosos e entusiastas da bebida, livro que tem inspirado outras publicações. Especialista em arte medieval, filha da região vinícola de Penedès, a catalã Montserrat “tanto conhece o carvalho com que se construíram as cadeiras do coro da igreja de Santa Maria de Vilafranca, como as madeiras onde envelhecem os tintos veneráveis de sua terra”, escreveu o historiador Maurício Wiesenthal, ele mesmo especialista em gastronomia e enologia. Temos então em Montserrat a estudiosa com a mão na terra e o coração no céu. No primeiro capítulo, “Imagens e temas do vinho na arte”, a autora discute a presença cotidiana do vinho na história das civilizações, da mesa comum aos atos festivos e de celebração. E também do vinho que ganha simbologias e marca rituais mais ou menos religiosos. Chega assim a uma das representações mais antigas que se conhece: as pinturas rupestres da coleta de uvas, nas grutas Las Mallaetes e Calavares (Valência). Montserrat destaca também os achados arqueológicos da Mesopotâmia, tantos os caracteres cuneiformes representando a parreira, em tabletes de argila encontrados em escavações na cidade-estado de Kish, como os baixos-relevos em alabastro de um banquete de Assurbanipal ao inaugurar sua Nínive (668-626 a.C.). Um capítulo inteiro é dedicado ao Egito, onde são famosos os murais com as representações da colheita das uvas, feitura do vinho e até de seu armazenamento. Os vidreiros egípcios agradavam os nobres com pequenos frascos na forma de cachos de uva. No capítulo sobre “A Mitologia Clássica”, um dos mais alentados, a autora se apoia principalmente nas abundantes representações de Dionísio, o deus dos vinhos dos gregos, e seu correspondente romano, Baco. Montserrat selecionou inúmeras cenas presentes em vasos e taças, além de fazer referência a obras monumentais, como o deus do vinho representado num dos frisos do Parthenon. A autora também destaca as obras de inspiração bíblica e do vinho presente na iconografia cristã, cenas celebradas em painéis, esculturas, tapeçarias e nos vitrais das imponentes catedrais. O Vinho na Arte encerra-se com obras dos séculos XIX e XX, também ilustrando momentos da vida cotidiana, seja a garrafa em “Os Jogadores de Carta”, de Paul Cézanne, ou a taça de champagne na mão do conquistador, em “Par no Père Lathuille”, de Edouard Manet. A vibrante “Vinha Encarnada", de Van Gogh, não poderia ser esquecida, assim como a plácida cena do clássico “O almoço na relva”, de Claude Monet. VINHA DE VAN GOGH - A única tela de Van Gogh vendida em vida chama-se "A Vinha Encarnada" ou "A Vinha Vermelha", pintada em Arles, em novembro de 1888. Foi comprada pela pintora belga Anne Boch, patronesse de artistas. Como escreve o crítico de vinhos e editor Marcelo Copello em seu blog Mar de Vinho, a tela sela a relação de Van Gogh com o vinho. O pintor descreve sua obra como “um vinhedo vermelho, todo vermelho como vinho tinto. Ao fundo, no céu com sol, o vermelho se transforma em amarelo e depois em verde . Na terra, depois da chuva, os tons são de violeta com reflexos dourados do sol”. Segundo Copello, "A vinha vermelha" indica uma colheita retardada (e chuvosa) e sugere que as uvas eram Grenache e/ou Carignan, castas tardias típicas da região. No mesmo ano, dois meses antes, ele tinha pintado "A Vinha Verde". DC de 15/8/2014

sexta-feira, 8 de agosto de 2014

Doce laureado

Quem vai à Grécia de navio partindo do porto italiano de Brindisi, no mar Adriático, vai passar pela “veneziana” Corfu até chegar ao histórico porto de Patras, no norte do Peloponeso. Em Patras vai encontrar uma cidade operária movimentada por turistas, que nas últimas décadas ganhou extensa programação cultural. Boa comida sempre existiu, incluindo o surpreendente vinho de sobremesa da uva Mavrodaphne. Mavrodaphne pode ser traduzida como “louro negro”, batismo associado às bagas escuras da árvore da conhecida folha aromática, o louro que vai para a panela, mas que é ancestralmente usado pelos gregos para coroar seus sucessos. Uma taça desse néctar dionisíaco, que pode chegar a 18% de álcool, é sempre indicada para fechar a refeição, mesmo depois da farra da doçaria de Patras, com folhados de amêndoas e muito mel. Há, entretanto, harmonizações mais atraentes, como as sobremesas com chocolate amargo. O doce e fortificado Mavrodaphne é um dos vinhos mais exportados da Grécia. Vem passando por uma revolução de qualidade e tem potencial para ombrear os melhores vinhos doces do mundo. “Está entre um italiano recioto e uma espécie de Porto concentrado”, avalia o inglês Hugh Johnson. E os bons Mavrodaphne também se espelham na longevidade dos vinhos do Porto. A apelação mais conhecida é a Mavrodaphne de Patras, com vinhos que podem ter no blend até 49% da uva Korinthiaki. Outra designação de origem, Mavrodaphne de Kefaloniá, apresenta vinhos varietais, 100% Mavrodaphne. Geralmente as duas uvas, Mavrodaphne e Korinthiaki, são vinificadas separadamente, até que metade dos açúcares tenham se convertido em álcool. A fermentação é sustada com a fortificação, ou seja, o acréscimo do destilado de vinho. Depois vem o envelhecimemto, seguindo as receitas de cada enólogo. O mais comum é que ganhem sua expressão (sabor com fundo de passas, café e baunilha) após cinco anos em barrica. Durante anos, o mercado internacional foi inundado por vinhos Mavrodaphne de discutível qualidade. Não só a porcentagem da Korintiaki (mais usada para a produção de sucos) era desobedecida e ultrapassada, como os vinhedos se espalhavam por áreas muitas vezes sem distinção. Como escreve Mark Stolz, especialista em vinhos gregos, os viticultores reclamam que o Mavrodaphne é vendido a granel para grandes companhias que engarrafam e o vendem como produto da região. E para economizar nos custos, o envelhecem em tanques de aço ou cimento no lugar de barricas de carvalho, como manda a tradição. Algumas vinícolas como a Karelas, fundada em 1936, já fazem seu Mavrodaphne de Patras desprezando a Korinthiaki. Outra representante do Mavrodaphne de qualidade é a vinícola Cambas (hoje gerida pela renomada Boutari) e a Antonopoulos, que tem um de seus rótulos no Brasil, importado pela Mistral. Já a Achaia Clauss continua no panteão local devido à sua história. Seu fundador, o fileleno alemão Gustav Clauss, é tido como o pioneiro na vinificação desses fortificados, iniciada em meados do século XIX. Os primeiros rótulos da Achaia tinham textos em alemão, como se Gustav estivesse na sua Baviera.COLOSSO DE MARÚSSIA - A temporada de Grécia, pouco antes da eclosão da Segunda Guerra Mundial, do escritor norte-americano Henry Miller (1891-1980) rendeu o livro o Colosso de Marússia e uma verdadeira ode ao Mavrodaphne de Patras: "o vinho que "desliza pela garganta como vidro fundido, incendiando as veias como um líquido pesado e vermelho que expande o coração e a mente". Ao prová-lo, a sensação é de peso e leveza ao mesmo tempo, registrou Miller. NO BRASIL - A Mistral é importa para o Brasil o Mavrodaphne of Patras da vinícola Antonopoulos, fundada por Konstantinos Antonopoulos e agora tocada com a mesma tradição por Yiannis Halikias. Os vinhedos da Antnopoulos estão ao sul de Patras, na base das montanhas da Acaia. Já a importadora Vinci traz o Macrodaphne da casa Cambas, equanto a LPH Brasil importa um rótulo mais popular, o Mavrodaphne od Patras Cellar reserve, da Tsantali. DC de 8/8/2014

terça-feira, 5 de agosto de 2014

O estado da Bonny Doon

Com a solenidade dos presidentes dos Estados Unidos ao discursarem anualmente sobre “o estado da Nação”, o vitivinicultor californiano Randall Grahm acaba de escrever “o estado da Doon”. A Bonny Doon é sua festejada propriedade na Califórnia, de onde saem vinhos orgânicos cultuados no mundo inteiro. Pois Randall Grahm confessa (leia em www.beendoonsolong.com/): quase perdeu a vinícola para credores insensíveis a seus projetos de longo prazo. Diz ainda que a Bonny Doon ainda procura seu rumo, abalado depois que Grahm vendeu, e isso já há cerca de 8 anos, dois dos rótulos que o levaram ao sucesso: Big House e Cardinal Zin. E os vendeu por ideologia, já que estes vinhos passaram a ser produzidos em escala, como outro vinho qualquer, e isso contrariava sua filosofia de produção limitada e mais cuidadosa. Randall Grahm é um performista (chegou a promover o funeral de um corpo feito de “contaminantes” rolhas naturais, em nome do avanço das rolhas sintéticas). É também um reconhecido pensador do vinho natural, reverenciado por seus textos, parte deles reunida na sua divertida "vinthology" Been Doon So Long. Gostam dele tanto o aristocrático crítico inglês Hugh Johnson como o escritor americano (mais para beatnik) Jay McInerney. O crítico-biólogo Jamie Goode, autor de Science of Wine, diz que Grahm é um gênio. Vem daí a surpresa pelo “estado” revelado da Bonny Doon. Randall Grahm faz vinhos biodinâmicos, gosta de experimentação, e não abre mão das teorias do educador Rudolf Steiner, pensando sua propriedade de maneira holística. Como um dos mais antigos rhôneranger (assim são conhecidos os agricultores que plantam as castas francesas do Vale do Rhône na América), já apareceu com chapéu de cowboy na capa da Wine Spectator. Um de seus vinhos cult é o Cigare Volant, elaborado com as uvas Mourvèdre e Carignane dos vinhedos de Contra Costa. E a ideia é sempre produzir blends ou vinhos varietais que melhor expressem os terrenos. Para cada um desses vinhos, sempre um rótulo criativo e fora dos padrões. A menina dos olhos de Grahm é o projeto Popelouchum, que prevê a criação de novas variedades de uvas em terras perto de San Juan Bautista, cidade originada de uma antiga missão jesuítica. Popelouchum será um jardim do Éden, onde serão desenvolvidas, em cruzamentos, hibridizações e experiências genéticas, cerca de 10 mil novas variedades –“um dos mais importantes projetos da história recente do vinho”, como o valoriza Grahm. Popelouchum é a palavra indígena da tribo dos Mutsun que alude a paraíso. Como já escrevi aqui, Grahm tem seguido os conselhos desses índios, como o jejum de contemplação e interação com o território dos vinhedos. E não despreza os devas, guias da natureza capazes de indicar as melhores ações de equilíbrio, harmonia e ordem para a construção de um jardim perfeito. Popelouchum, entretanto, está em banho maria, já que não é “monetizável” e é “ligeiramente arriscado”. Aguarda a solidificação de novos resultados da empresa a partir do que Graham chama de “rebranding”. No “estado da Doon”, Grahm informa que a vinícola já saiu do vermelho. Um dos movimentos importantes foi remapear os mercados consumidores, tumultuados após a venda dos rótulos mais célebres. Uma distribuição inacreditavelmente difícil nos EUA, com estados ainda em regime de Lei Seca, e com uma cadeia de negócios que prevê a obrigatoriedade dos "intermediários". Randall Grahm, como muitos vinicultores do seu país, luta para vender livremente seus vinhos diretamente aos consumidores de cada estado americano. E gostaria de estar com a mão na terra, cuidando das parreiras, mas tem, por ora, de passar tempo em aviões e quartos de hotel enquanto não é atendido por ferozes atacadistas. VINTHOLOGY - O crítico inglês Hugh Johnson escreveu na apresentação de Been Doon So Long (University of California Press/2009), de Randall Grahm, que o vinho também precisa de palavras em seu caminho entre ser notado e – aqui a melhor parte – bebido. Grahm tem palavras originais para o mundo de jargões dos críticos e se arrisca também na ficção vinícola, com textos como "Da Vino Commedia: The Vinferno". FREE THE GRAPES - Um mapa no site do movimento 'Free the Grapes' mostra como andam as leis da venda de vinhos nos Estados Unidos. Cada estado tem uma legislação específica em relação à venda direta das vinícolas aos consumidores. Alguns estados, graças a poderosos lobbies, mantêm os revendedores como peças fundamentais do mercado. 'Free the Grapes' em www.freethegrapes.org/ Diário do Comércio de 25/7/2014

sexta-feira, 1 de agosto de 2014

Prozac-co, Prosecco.

Os produtores italianos de Prosecco reclamam da má vontade da crítica especializada em relação a seus vinhos, sinônimo de espumante barato. Mas alguns deles são os primeiros a municiá-la. Em plena campanha para elevar o patamar de sub-regiões produtoras, lançaram um Prosecco em lata e uma campanha publicitária com a atriz Paris Hilton recomendando o seu consumo com canudinho. Os produtores mais sérios reclamaram, mas o governo regional achou a latinha e até a criação de um "Prosecco genérico", abrangendo toda região do Friuli Venezia Giulia, boas ideias para resolver o problema da superprodução, como escreveu Walter Speller, do site de Jancis Robinson. Analistas dizem que um dos sérios problemas do Prosecco, vinificado com a uva de mesmo nome no norte da Itália, principalmente na província de Treviso, é a sua produção em massa. Recente relatório do ISTAT, instituto de pesquisas da Itália, mostra que de janeiro ao final de outubro de 2013, cerca de 1,6 milhões de hectolitros de espumantes italianos foram vendidos no mundo, um aumento de 15% em volume em relação ao mesmo período do ano anterior, ou 18% a mais em valor de negócios, somando 572 milhões de euros. No caso da comercialização do Prosecco (DOC e DOCG), o aumento foi campeão, chegando a 30%. O Prosecco é vendido hoje como água para os chineses e tem um mercado constante nos Estados Unidos. Diante das 315 milhões de garrafas vendidas em 2013, o presidente da região do Vêneto, Luca Zaia, anunciou a um jornal local que teve início a "Revolução do Prosecco" e, em gesto megalomaníaco, tratou de mirar como meta a posição de Champagne. Para os integrantes do Consorzio per La Tutela del Vino Prosecco di Conegliano-Valdobboadene, entretanto, a revolução apregoada por Zaia só se fará com aumento da qualidade dos vinhos, que podem ser reconhecidos por sua doce frescura e um característico e ligeiro amargor final (em vinhos de carregação, adição de açúcar esconde defeitos). O Prosecco de Conegliano-Valdabbiadene conseguiu em 2009 a certificação DOCG, o "g" de "garantita" (garantida), o que abrange a zona de produção entre as belas colinas dessas duas cidades. Conigliano-Valdobbiadenne são palavras-chave para quem precisa escolher um bom Prosecco italiano, sendo a subzona de Cartizze, uma indicação de superioridade. Outra região DOCG é a Colli Asolani. O mercado foi surpreendido recentemente com a ligeira "promoção" de áreas IGT (Indicação Geográfica Típica) para DOC (Denominação de Origem Controlada), envolvendo nada menos do que nove províncias: Belluno, Gorizia, Padova, Pordenone, Treviso, Trieste, Udine, Venezia e Vicenza. Mario Batali, o célebre chef ítalo-americano nascido em Seattle, dono de vários restaurantes estrelados de Nova York, incluindo o Babbo, reconhece muitas qualidades no Prosecco: "Não é nem de longe tão elegante como o champagne, mas é muito mais fácil de beber, já que combina com quase tudo". Batali diz ainda que não há nada melhor que um Prosecco para acompanhar aperitivos. Sem contar que é ingrediente indispensável para o Bellini, o drinque que encantou Hemingway no Harry’s Bar, em Veneza. O escritor americano Jay McInerney lembra de uma teoria sobre o Prosecco, a de que esse vinho é sempre melhor sabor quando apreciado in situ, e que perde seu charme quanto mais se distancia da região Nordeste da Itália. Realmente o Prosecco servido numa mesinha na Piazza di San Marco, em Veneza, é sempre sublime. E está mais para o "Prozac-co", como o bem-humorado crítico Mark Oldman se refere ao espumante e seu poder de levar os ânimos às alturas. ESTRELADOS - Especialistas ingleses do grupo de pesquisa da crítica inglesa Jancis Robinson elaboraram uma lista de vinícolas italianas que produzem Prossecco de qualidade. São elas: Adami, Bisol, Bortolin, Bortoolomiol, Case Bianchi, Col Vetoraz, Conte Collalto, Nino Franco, Andreola Orsola e Sorelle Bronea. Outras vinícolas a serem testadas: Varaschin, Mionetto e Zardetto. BRASILEIROS - O Brasil é o quinto maior mercado de exportação do Prosecco italiano, mas essa posição pode cair tendo em vista o crescimento das parreiras da uva Prosecco plantadas no sul do País: já são cerca de 810 hectares. As vinícolas Salton e Aurora já produzem os seus Prosecco com a mesma qualidade de seus bons espumantes. Diário do Comércio 1/07/2014

terça-feira, 22 de julho de 2014

'Chiarlando' de Barbera

Michele Chiarlo é um dos mais vibrantes produtores do Piemonte, tradicional região vinícola no norte da Itália. Com a ajuda dos filhos Alberto e Stefano, Michele não somente tem produzido premiados vinhos Barbera e Barolo, mas destaca-se pelo empenho em desenvolver e promover sua região de origem. Stefano é o enólogo. Alberto cuida do mercado externo: montou uma eficiente estrutura comercial que faz com que seus vinhos cheguem também ao Brasil. Há pouco mais de 10 anos, com a criação do La Court, um parque com arte entre vinhedos de Barbera, os Chiarlo contribuíram muito com o desenvolvimento do enoturismo. A ação foi ampliada com o resgate e a restauração de uma vila no coração de Barolo. O Palas Cerequio já se tornou indispensável para uma hospedagem de charme na região. Dois dos vinhos mais pontuados de Michele Chiarlo são justamente seu Barolo de Cerequio e o Barbera d'Asti Superiore Nizza La Court. Mas eles também fazem experiências. A partir de 1 hectare da uva Albarrosa (um cruzamento da Barbera com a Chatus, segundo recentes pesquisas de DNA) conseguiram lançar o primeiro varietal da cepa, em 2000. Os vinhos da uva Barbera, em vários estilos, são vinhos rústicos, versáteis, friendly food , e tradicionalmente acompanham refeições dos piemonteses. Há quem os comparem ao Beaujolais. São frutados, com boa acidez e taninos de leves a moderados, com alguma adstringência. "Quando estou diante de uma lista de vinhos só italianos, com amedrontadores de tão caros Barolo e Brunello e nomes desconhecidos do interior da Itália, Dolcetto e Barbera são confiáveis amigos que não criam constrangimento quando a conta chega", diz Mark Oldman. O Barbera até poucos anos atrás era o patinho feio do Piemonte, diante dos esplendorosos e aristocráticos outros dois "bês", Barolo e Barbaresco, estes da uva Nebbiolo. Chiarlo foi um dos responsáveis pela ascensão do Barbera, seguindo regras básicas na busca de qualidade: uvas melhores, vinhedos menores e, para garantir mais estrutura, algum tempo em barrica francesa. Foi esse o vinho que ele apresentou aos japoneses numa época em que o mercado só tinha olhos para Barolo e Barbaresco. Angelo Gaia, o rei da Nebbiolo, já em 1969 usou barrica para seu Barbera, receita chancelada depois pelo enólogo e consultor francês Émile Peynaud. Graças a esses esforços, grandes garrafas saem das vinícolas de Michele Chiarlo, Ceretto, Pio Cesare, Coppo, Bruno Giacosa, Prunotto e Vietti. Quem se aventurar pessoalmente pela região vai encontrar também bons vinhos de pequenos produtores, como os de Nino Bronda, em Nizza Monferrato, na vizinhança do amigo e contemporâneo Chiarlo. A uva Barbera é a mais plantada no Piemonte e está em terceiro lugar entre as mais cultivadas da Itália, depois da Sangiovesi e da Montepulciano. GREGA NOS EUA - O site Elloinos, sobre a viticultura grega, de Markus Stolz, informa que a vinícola americana Tryphon, com vinhedos a 975 metros de altura, na Floresta Nacional de Tahoe, Califórnia, plantou 64 mudas da uva Assyrtiko, a cepa dos brancos da grega Santorini, correndo todos os riscos e desafios em terreno completamente diferente do encontrado na ilha grega. As mudas são do berçário da Universidade da Califórnia, Davis. Markus Stolz entrevistou o casal Larry e Dayle Rodenborn, da Tryphon para o Elloinos. www.elloinos.com/ NO PÃO DE AÇÚCAR - O Grupo Pão de Açúcar acaba de lançar o projeto Vinhos Brasileiros Premiados, em parceria com Instituto Brasileiro do Vinho (Ibravin), que possibilitará a pequenas vinícolas comercializar seus rótulos em suas gôndolas. Participam da primeira etapa do projeto as seguintes vinícolas gaúchas: Pizzato, Don Guerino, Perini e Lídio Carraro, totalizando aproximadamente 25 rótulos, entre vinhos tintos, brancos, rosés e espumantes. www.ibravin.org.br/noticias/162-vinhos-premiados-ao-alcance-do-consumidor Diário do Comércio de 18/7/2014