sexta-feira, 9 de dezembro de 2016

O verão e os vinhos de Hesíodo


Alguns versos de  Os Trabalhos e os Dias , do grego Hesíodo (séc. VIII a.C.), trata da vida agrícola e dos campos em Ascra, na Beócia, onde cultivou seus campos e fez poesia, sempre com vinho e pão à mão. Os versos a seguir (de 582 a 596) foram traduzidos diretamente do grego e do latim pelo poeta e ensaísta Péricles Eugênio da Silva Ramos (1919-1992), e constam do livro Poesia Grega e Latina (Editora Cultrix, 1964).

Verão

Quando floresce o cardo e, na árvore, a cigarra
verte de sob as asas doce canto estrídulo,
no tempo em que o verão é fatigante,
mais gordas vêem-se as cabras e melhor o vinho,
mais sensuais as mulheres, débeis os varões:
- Sírius lhes queima a fronte e os joelhos, e o calor
lhes seca a pele. Oh, possa eu ter, nessa ocasião,
a sombra de uma rocha, vinho bíblino,
pão e leite de cabras que já desmamaram,
e carne de novilha que parou no bosque
e ainda não deu cria, ou, caso falte,
de cordeirinhos do primeiro parto.
E possa eu, para beber o vinho negro,
à sombra me estender, de coração feliz
com o meu banquete, e, dando o rosto ao vento oeste,
junto a fonte perpétua, viva e imperturbada,
mesclar três partes de água e uma de vinho.

O vinho bíblino do poema de Hesíodo é o vinho fermentado na cidade de Biblos, terra dos fenícios, povo de origem semita que habitava não somente Biblos, mas também Sidon e Tiro, no que é o Líbano de hoje. A referência à mistura de água ao vinho, na última estrofe aqui reproduzida, revela um costume dos gregos, oficializado nos simpósios.

Leia também: No início eram os divinos

sexta-feira, 25 de novembro de 2016

Prix au Sommelier

A Academia Brasileira de Gastronomia (ABG) diplomou nesta quinta-feira (24/11/2016) Tiago Locatelli, head sommelier e diretor do setor de bebidas do restaurante Varanda Grill, de São Paulo, profissional de destaque de 2016, na categoria Prix au Sommelier. A cerimônia foi realizada no Restaurante Cantaloup, com jantar a cargo do chef Waldir Nascimento e seleção de vinhos de Ennio Federico, enólogo, gourmet e membro da ABG (veja menu abaixo). O jantar também celebrou os 15 anos de fundação da Academia Brasileira de Gastronomia. O chef Rafael Costa e Silva, do Restaurante Lasai, Rio de Janeiro, recebeu o Prix au Chef de l'Avenir. Já o Prix Littérature Gastronomique foi para Nilda Luz, escritora de várias obras de gastronomia, premiada por "Brasil, Campeão de Copa e Cozinha". O Prix Multimedia foi conferido a Gabriel Pupo Nogueira, do portal Taste (www.taste.com.br).

segunda-feira, 21 de novembro de 2016

Vinhos para ler, livros para degustar

Vinho “harmoniza” com livro?
Na Itália, a vinícola Matteo Correggia está promovendo a leitura com as suas garrafas - acaba de lançar uma linha de vinhos cujos rótulos são na verdade pequenas brochuras com textos de ficção, amarradas aos vasilhames. O projeto da Matteo Correggia, desenvolvido pela agência de design Reverse Innovation, chama-se Librottiglia (de livro e garrafa) e apresenta histórias curtas de jornalistas, humoristas e escritores de suspense. O mote da Librottiglia é: “um vinho para ler ou um livro para degustar?” O texto Homicído, por exemplo, de autoria do jornalista Danilo Zanetti, é um pequeno giallo (como na Itália são batizados os policiais e os livros de mistério). O suspense de Zanetti vai amarrado às garrafas de um vinho da uva Arneis da região de Roero, província de Cuneo (Piemonte). Durante algum tempo, a Arneis, toda aromática, foi plantada para atrair passarinhos e assim distraí-los dos pés da vizinha mais famosa, a uva Nebbiolo dos nobres Barolo e Barbaresco. A vinícola Matteo Correggia colabora agora com a leitura e o resgate da uva branca Arneis (que quase desapareceu nos anos 1970) e seus vinhos secos e frutados.
 Em São Paulo, um dos mais charmosos sebos da cidade, O Desculpe a Poeira, também está apostando na dobradinha livro-vinho. O Desculpe a Poeira tem à frente o jornalista Ricardo Lombardi, sempre aberto a ideias novas para promover o livro, seus autores e a poesia da leitura (as quotesdesculpeapoeira, a seleção de cartoons da The New Yorker e os papéis “achados” pelo arqueobuquineiro nos meios dos livros, tudo circulando no facebook, são impagáveis). No dia 3 de dezembro agora, o sebo vai receber Daniela Bravin e Cassia Campos, que desde setembro conduzem em São Paulo o projeto Sommelier Itinerante. Elas vão a campo, no caso agora um sebo, para mostrar vinhos surpreendentes garimpados no mercado. Taças a bons preços e livros idem são mais do que um convite à dupla embriaguez. Dia 3 de dezembro, a partir das 12 h. O sebo fica na Rua Sebastião Velho, 28ª, em Pinheiros, SP.
Duas ideias que merecem um brinde!
Veja mais em:
/www.librottiglia.com/
 www.matteocorreggia.com
sebodesculpeapoeira.tumblr.com/

quinta-feira, 17 de novembro de 2016

Vinhedos, livros, encontros

Foi preciso mesmo um amigo cartunista, Jean Galvão (que tem ilustrado com muita perspicácia, humor e carinho os posts de Roda do Vinho), para que eu conhecesse o livro em quadrinhos ‘Os Ignorantes – relato de duas iniciações’, de Étienne Davodeau, lançado no Brasil em 2014, pela editora Martins Fontes. Ao me presentear com o livro, Jean fez um pouco o papel de Étienne, estabelecendo, como o quadrinista francês, conexões entre o mundo dos vinhos e o dos livros. Como Étienne constatou: ‘existem tantas maneiras de fazer um livro quantas de produzir um vinho. Livro e vinho têm o poder, necessário e precioso, de aproximar os seres humanos’.
A HQ Os Ignorantess, de Étienne, mostra o dia a dia do viticultor Richard Leroy, que maneja vinhedos em Rablay-sur-Layon, uma das aldeias ao longo do rio Layon, afluente do Loire. A vinícola de Richard está no coração de Coteaux du Layon, uma Appellation d’Origine Contrôlée (AOC) para o vinho branco doce do Vale do Loire. E aí começa o retrato de um viticultor muito especial: pois Richard Leroy produz grandes vinhos brancos, com a uva Chenin (“a melhor de todas”), mas não são vinhos doces; são vinhos secos. Ele não usa produtos químicos em sua propriedade, adepto que é da biodinâmica. Para a produção dos vinhos doces da região – regra seguida por 95% dos produtores – é permitida a adição de 100 a 180 mg de enxofre por garrafa. O enxofre é comumente usado para a preservação do vinho. Richard usa apenas 20 mg por litro e pensa sempre na inalcançável meta zero.
Para desenhar a sua HQ, Étienne passou muito tempo com Richard Leroy na propriedade de 3 hectares em Rablay. São dois os vinhedos personagens da HQ: Noëls de Montbenault fica no topo da colina, com vista para o rio Layon. Éttienne desenhou Leroy de braços abertos em Montbenault, feliz da vida, conversando com o quadrinista. Nos balões de Leroy lemos: “Ah, cacete, fora de gozação! Você não está sentindo o vento? Estamos em pleno sudoeste! Aqui tem sol e vento o ano todo! Montbenault é um terroir com ventilação impecável. Meu vinhedo está sempre bem, mesmo com sol intenso. No verão ele bate forte nesses pedregulhos, sabia?”
Além de Montbenault, há o Clos de Rouliers, de um hectare, na parte inferior do morro. O solo das duas parcelas, entretanto, como Étienne desenhou, com terra na mão, é composto de riólitos, rocha vulcânica de milhões de anos, um dos orgulhos de Richard Leroy.
 Não foi nada fácil a vida do cartunista nos vinhedos, a começar do importantíssimo ritual da poda das videiras, sempre no inverno, um frio de lascar, em meio até à neve, ritual que vai de janeiro a março. São, afinal, quinze mil pés, encolhidos de frio. O viticultor está, nesse ponto da HQ, com uma providencial barba. (O quadrinista vai reclamar quando chegar a primavera: Richard aparece de cara limpa; ficará mais difícil desenhá-lo. “Sinto que vai sair uma merda. Não quer deixa-la crescer de novo?” A imersão de Étienne nos vinhedos tem sua contrapartida. Richard é levado para conhecer o trabalho da criação e “cultivo” de livros, numa uma editora de quadrinhos. Antes disso, só conhecia mesmo a gráfica que imprimia os rótulos de suas garrafas.
E se Richard levou Étienne para conhecer o trabalho dos toneleiros, os artistas das barricas, dos tonéis, o quadrinista o levou a encontros com artistas geniais, também “envergando carvalho” em suas pranchetas. Na casa de Jean-Pierre Gibrat, Richard ouve o elogio a Moebius (“Mozart e Jimi Hendrix ao mesmo tempo!”) e presta atenção aos dois balões à boca do artista: “ Por que um livro toca – ou não – seus leitores? O que constitui o valor de um autor? É muito misterioso, não é? Gosto dos livros e dos autores que têm identidade forte... e acho que o que constitui nossa identidade são, entre outros, nossos defeitos. Devemos compreendê-los e aceita-los. É como uma cara: um rosto pretensamente sem defeitos não tem graça chateia todo mundo.” Alguma semelhança quando um enólogo quer fugir do modelo tradicional de sua região?
No início de abril, com sol, mas noites ainda muito frias, viticultor e quadrinista trabalham duro na limpeza dos espaços entre as fileiras de vinhas. O frio pode ser problema para o desenvolvimento dos brotos, como ocorreu na safra de 2008. Étienne conta que não sofre esse stress: trabalha num estúdio onde a temperatura nunca cai para menos de 16 graus. Na HQ e na vida, Étiene provoca Richard a falar sobre seus vinhedos orgânicos. Sim, porque Richard Leroy e sua mulher Sophie não usam nem pesticidas, nem herbicidas, mas recusam-se a usar a identificação de “bio” na sua garrafa. “Quero que as pessoas procurem meus vinhos porque gostam deles”, afirma o Richard da tira, confirmando o da vida real.
 Um dos momentos mais engraçados dessa HQ é justamente quando o desenhista vai a campo para assistir a uma verdadeira aula de biodinâmica, num belo entardecer de junho de 2010. Richard e um vinicultor amigo da vizinhança vão aspergir no terreno a tradicional fórmula “500 P”. “500 P”? O que seria isso? Na verdade, um composto líquido amarronzado que é nada mais do que bosta de vaca que passou o inverno dentro de chifres. Essa prática faz parte da biodinâmica, inspirada nos conceitos antroposóficos do filósofo austríaco Rudolf Steiner (1861-1925), que propõem “uma visão supramaterialista do mundo e das relações entre os seres vivos”. A biodinâmica incorpora os conceitos da agricultura orgânica, acrescentando à rotina dos agricultores considerações sobre os ritmos planetários e lunares e a magia da bosta de vaca. Étienne, como era de esperar, não esconde os traços de seu ceticismo. Richard é desenhado acreditando na fórmula. Mais tarde, convida o quadrinista para outra rodada da “coreografia biodinâmica”, de nebulização, desta vez no sentido de “dinamizar as folhas na direção do céu, na direção da luz”. A receita agora é outra: sílica (em doses mínimas de 3 gramas por hectare). Leroy conta o segredo para a pena de Étienne: “Imagine a sílica como cristais, armadilhas de luz que colocamos sobre as folhas.” Na manhã seguinte, Étienne faz um autorretrato da sua lida: está exausto, aparando e arrancando, com a ajuda de uma espécie de arado, nas trilhas de xistos, o mato que cresceu entre as fileiras.
Étienne se desculpa (só no livro): vai obrigar Richard a largar as vinhas (sem que ele tenha tido tempo de tratá-las antes das tempestades), para algumas horas na rotina de uma editora, em Paris. Na mesa do almoço entre os artistas, a voz de Étienne faz um resumo: “Talvez vinhos e livros também sirvam para isso: se espicaçar tranquilamente.” De volta aos vinhedos, Étienne se entusiasma com um pulverizador, quer desenhá-lo. Para ele, mais parece “um ready made de Marcel Duchamp”. Richard é pragmático: vai usá-lo para tratar o vinhedo com uma calda bordalesa e enxofre, autorizada pela agricultura orgânica.
Com a HQ “ Os Ignorantes” aprendemos tudo isso. Ficamos sabendo também que maio e junho são os meses da desbrota, que consiste em tirar a profusão de brotos, deixando apenas seis em cada pé. Os desenhos dizem tudo, mesmo para quem conhece a teoria. No fim de junho, é hora de conduzir as videiras para seus caminhos, organizando aquilo que poderia virar uma floresta. E vemos logo as gavinhas se enroscando nos arames. Tudo em ordem. Em agosto, vem a debastação dos parreiras. E, à espera da colheita, Étienne prova os mais diversos vinhos da espetacular adega de Richard: Riesling Rosenlay Auslese Schloss Lieser 1989 e um Château Tropolong-Mondot, Saint-Émilion Grand Cru 1989, por exemplo, para não embebedarmos aqui neste post. É claro que Étienne vai fazer troça de um vinho de Richard. Afinal, esse Noëls Montbenault 2004, “não me diz grande coisa...”. Os dois degustam vinhos enquanto vão dividindo comentários sobre quadrinhos anglo-saxões: “Watchmen”, de Alan Moore e Dave Gibbons, ou “Maus”, de Art Spiegelman, um tanto “bizarro” para Richard (seria uma vingancinha?) No bate-papo, uma conversa sobre resenhas. Richard pergunta: “As modas e o poder da imprensa... vocês também enfrentam isso na HQ?” E Étienne abre o jogo: “Não tanto quanto vocês, decerto... nosso livros são todos “resenhados”. Em HQ, “a verdadeira crítica permanece muito confidencial”
Já tínhamos sabido, nesse ponto, que o viticultor dos secos da uva Chenin, recebera a visita em Montbenault de um representante de Robert Parker Jr., o crítico americano que durante décadas praticamente ditou o rumo do mercado de vinhos finos, especialmente os da França. Richard tem muita reserva em relação ao sistema de pontos de Parker, mas não recusa a visita de degustadores reconhecidos, respeita-os. Até a edição da HQ, os vinhos de Richard Leroy faziam parte do fechado clube dos “mais de noventa de Parker”, ou seja, tiveram nota superior a noventa sobre cem. Étienne deu o devido tom de mistério à degustação do homem de Parker.
 A HQ Os Ignorantes celebra a chegada do mês de setembro, o “mês mais bonito do ano”, quando os vindimeiros freelancers, sazonais, trazem sons para os vinhedos, ao ritmo de “passe o balde” e do balde caindo no cascalho. Há também canções. Richard supervisioniza tudo, vai experimentando como estão as uvas, seu teor de maturação e açúcar. E faz um alerta: não quer ver ninguém colhendo uvas botritizadas, quer dizer, aquelas “podres”, atacadas pelo microfungo Botrytis, que faz o açúcar disparar. Para os vinhos brancos doces da região, a Botrytis é o paraíso. Não para os brancos secos de Richard. Enquanto as uvas vão para os tonéis, Étienne e o vitivinicultor vão para a Bretagna. Depois de um salão de vinhos, se embriagam no Quai-des-Bulles, em Saint Malo, o segundo maior festival de “la bande dessinée et de l'image” da França.
Étiene continua o desenho do mês de setembro: são cenas das barricas, onde as coisas “borbulham, espumam, trabalham, transbordam”. “É o período do ano em que o vinho é um animal. Cheio de energia e ímpeto, enche o lugar com seus humores”. Tudo o que fazem na propriedade Rablay-sur-Layon é “ouvir, cheiras, provar”. Depois será a hora do rótulo, tampa e caixa de papelão... Richard então diz, depois de calcular o tanto de garrafas que conseguiu produzir: “Eu me dou mal todos os anos: antes da colheita digo sim a todo mundo. Depois de um mês, não tenho mais nada para vender.” Étienne tira uma onda: “Em casos desse tipo, nós temos uma palavra mágica: reimpressão!

quinta-feira, 3 de novembro de 2016

El Niño parece que não bebe

A produção mundial de vinho vai cair 5% em 2016, segundo dados divulgados no início desta semana em Bento Gonçalves, na Serra Gaúcha, durante o 39º Congresso da Organização Internacional do Vinho e da Vinha (OIV). Os números fazem parte do relatório anual da entidade sobre a situação da vitivinicultura no planeta. A produção total de 259 milhões de hectolitros é uma das menores em 20 anos. Em 2013, quando o recorde foi estabelecido, chegou a 276,6 milhões de hectolitros (lembrando que 1 hectolitro equivale a 100 litros). Itália e França, que lideram o ranking da produção mundial, produziram menos em 2015. Na Itália são 48,8 milhões de hectolitros, uma queda de 2% em relação à safra anterior. A queda da produção na França foi muito maior: 12%, com 41,9 milhões. Em terceiro lugar no ranking, a Espanha registrará uma produção de 37,8 milhões (+1%) Na sequência aparecem os Estados Unidos (22,5 milhões, + 2%) e, depois, Austrália (12,5 milhões, +5%). Na Europa, a maior queda será em Portugal, 20%, passando de 7 para 5,6 milhões de hectolitros. Os dois maiores produtores da América do Sul também não foram nada bem em 2016. O maior tombo foi registrado na Argentina, que produziu 8,8 milhões de hectolitros, resultado 35% menor do que na safra anterior. No Chile foram produzidos 10,1 milhões, queda de 19%. No Brasil, que ocupa o 22º no ranking, foram produzidos 1,4 milhão de hectolitros, safra 50% menor do que a de 2015. O clima, principalmente o fenômeno do El Niño, foi o vilão dos vitivinicultores na América Latina. A OIV informou ainda que a área plantada com vinhedos em 2015 cresceu para 7,5 milhões de hectares, dado o avanço tecnológico do setor. A Espanha lidera esse ranking de área plantada, com um pouco mais de um milhão de hectares. Os maiores vinhedos espanhóis são das uvas brancas Airén, Palomino, Macabeo e Pardina. Já as tintas mais plantadas são a Tempranillo, Garnacha, Monstrael e Bobal. Em segundo lugar no ranking dos vinhedos vem a China, posição conquistada em 2014, com 830 mil hectares. (A China é o país campeão na produção de uvas passas.) A França vem em terceiro (786.000 hectares), seguida pela Itália (682.000 ha), Turquia (497.000 ha) e Estados Unidos (419.000 ha).

quarta-feira, 17 de agosto de 2016

Desculpe, bebi demais

A carta-padrão a seguir foi redigida no ano de 856 pelos funcionários do Departamento de Etiqueta de Dunhuang, uma região da China. Uma carta que os bêbados arrependidos assinavam já no dia seguinte, antes mesmo da ressaca acabar, ou o quanto antes possível, com um pedido envergonhado de desculpas ao proprietário da casa ou ao anfitrião por terem “passado dos limites”. A pequena carta chinesa é uma das 125 correspondências (com contextualizações e documentais fac-símiles) na coletânea Cartas Extraordinárias, organizada por Shaun Usher e editada pela Companhia das Letras, em 2014. “Ontem, tendo bebido demais, fiquei tão embriagado que passei dos limites; porém nenhuma das palavras rudes e obscenas que pronunciei foi dita por mim em são consciência. Na manhã seguinte, ao ouvir comentários sobre o assunto, dei-me conta do que havia acontecido e quase morri de vergonha, só queria achar um buraco para me esconder. Tudo ocorreu porque minha pequena tolerância não me permite encher o copo até a borda. Humildemente espero que em vossa sábia benevolência não me condeneis por minha transgressão. Logo vou desculpar-me pessoalmente, mas, entrementes, envio-vos esta mensagem para sua bondosa avaliação. Deixando muito por dizer, subscrevo-me, respeitosamente." Cartas Extraordinárias espelham a riqueza das correspondências nas mais diversas esferas, revelando outra camada significante dos relacionamentos e costumes. Cartas entre escritores, políticos, artistas, cientistas e entre pessoas comuns e celebridades, dos mais variados pontos do planeta, das mais diversas épocas. O livro abre com uma aparentemente prosaica carta com o timbre do Palácio de Buckingham de 24 de janeiro de 1960, endereçada ao então presidente dos Estados Unidos Dwight Eisenhower. “Ao ver no jornal de hoje uma foto do senhor diante de uma churrasqueira onde se assavam codornas, lembrei que não mandei a receita dos scones que havia prometido no Castelo de Balmoral, escreve de próprio punho a rainha Elizabeth II.

sexta-feira, 8 de julho de 2016

O Fendant elétrico de Joyce

Num post divertido e inteligente no facebook, o poeta Sérgio Medeiros faz várias conexões a partir de uma notícia que ele diz ter lido na Folha de S. Paulo. “Brasil é o primeiro na América Latina a receber vinho branco suíço”. Autor dos livros Figurantes, Alongamento, Totens, O Sexo Vegetal, A Formiga-leão e Outros Animais na Guerra do Paraguai, entre outros, professor na Universidade Federal de Santa Catarina, Sérgio Medeiros é ensaísta e estudioso da obra de James Joyce. Pois Sérgio lembra das referências que o autor irlandês faz ao vinho suíço Fendant de Sion, a “pale golden liquid”, “urine of an archduchess”, que Joyce bebia a rodo. “White wine is like a electricity”, “urina” que vibra em Finnegans Wake. O Fendant é o vinho branco suíço com boa acidez e não muito frutado indicado para o tradicional fondue. Como lembra Hugh Johnson, em Wine, os principais vinhedos do país seguem o curso do Rhône, da sua nascente em Bernese Oberland, passando pelo Valais e seus penhascos até a costa norte do Lago de Geneva. “Os vinhos do Valais são geralmente conhecidos pelo nome da uva ou também por um nome fantasia. Somente ocasionalmente o nome do lugar é usado. Os vinhos da uva Fendant em Sion são explícitos, apesar de existirem Fendant de Sion não produzidos em Sion. Os de Sion, os mais exportados ao lado dos Johannisberg, são certamente especiais, fermentados com uvas nascidas logo além da fortaleza rochosa de Sion, a partir de onde a planície aluvial se alarga, com mais encostas e mais sol para as cobiçadas frutas.