domingo, 12 de junho de 2016

Não me venham com chá

A recomendação que alegrou o mundo do vinho partiu de uma voz firme, aquela que semanalmente se propaga com surpresas de conteúdo a partir de uma pequena janela do Vaticano e que alcança fiéis em toda Piazza São Pedro. Ao saudar casais que estão juntos há 50 anos, na quarta-feira (8 de junho), o papa Francisco usou o vinho como metáfora, mas também no mais secular dos sentidos. “Não se pode encerrar uma festa de casamento bebendo chá”, pregou com bom humor o líder da Igreja Católica para cerca de 20 mil pessoas. “Seria uma vergonha não ter vinho!”. E elogiando os casais, tratou de dizer que eles eram o “vinho bom da família”. O papa Francisco fez referência a trechos da Bíblia que tratam das bodas de Canaã, ocasião em que se deu o milagre da transformação da água em vinho. E vinho dos bons, servido com audácia anfitriônica no final da festa. Segundo o papa, esse milagre tão reverenciado pelos cristãos “indica a transformação da antiga Lei de Moisés no Evangelho portador da alegria”.

terça-feira, 22 de março de 2016

O salto das rãs modernistas

Os modernistas das letras e das artes fizeram do solar da pintora Tarsila do Amaral, na Alameda Barão de Piracicaba, em São Paulo, um dos redutos para os debates que prosseguiram nos anos seguintes à Semana de Arte Moderna, realizada no Teatro Municipal em 1922. O casal Tarsila e Oswald de Andrade gostava de receber os amigos em casa, mas não dispensava as comemorações e os encontros nas mesas dos restaurantes, verdadeiras extensões do solar. E vários foram os endereços. No seu “diário” sobre os modernistas brasileiros (Movimentos Modernistas no Brasil – 1922-1928/ José Olympio/2012), o poeta Raul Bopp, autor do clássico Cobra Norato, lembra: “quando [Oswald] ganhava alguma causa, das questões complexas de herança, gastava tudo em lautas celebrações na Rotisser ie: faisões e bons vinhos”. Bopp dedica alguns parágrafos ao “restaurante das rãs”: “Uma noite, Tarsila e Oswald resolveram levar o grupo que frequentava o solar a um restaurante situado nas bandas de Santa Ana. Especialidade: rãs. O garçom veio tomar nota dos pedidos. Uns queriam rãs. Outros não queriam. Preferiam escalopini... Quando, entre aplausos, chegou um vasto prato com a esperada iguaria, Oswald levantou-se e começou a fazer o elogio da rã, explicando, com uma alta percentagem de burla, a teoria da evolução das espécies. Citou autores imaginários, os ovistas holandeses, a teoria dos ‘homúnculos’, os espermatistas etc. para ‘provar’ que a linha de evolução biológica do homem, na sua longa fase pré-antropoide, passava pela rã – essa mesma que estávamos saboreando entre goles de Chablis gelado.” Como sabiam das coisas da França esses modernistas! Prato tradicional cozinha francesa (não à toa os ingleses chamavam os soldados de Napoleão de frogs), as rãs, ou melhor, “les cuisses de grenouilles” devem ser consumidas sempre com vinhos brancos secos. Para ficar na adega francesa: Chablis, Côte de Beaune, Beaune, Monthelie, Saint-Aubin, Meursault, Santenay, Puligny-Montrachet, Rully, Givry, Mercurey, Mâcon Villages, Pouilly-Fuissé, Pouilly-Vinzelles, Saint-Veran Beaujolais, Quincy, Reuilly, Menetou-Salon, Sancerre, Coteaux du Giennois, Savennières, Anjou Blanc, Riesling da Alsácia, Alsácia Sylvaner, Pinot Blanc Alsace, Graves, Jurancon sec. A lista foi preparada pelo chef Simon, que assina no Le Monde, para o site ecce vino. Simon diz que, como o molho de alho é acompanhante frequente das perninhas de rã, os tintos devem ser evitados. Outro gole de Chablis. E Tarsila volta às rãs. “– Em resumo, isso significa que, teoricamente, deglutindo rãs, somos uns... quase antropófago. A tese, com um forte tempero de blague, tomou amplitude. Deu lugar a um jogo divertido de ideias. Citou-se logo o velho Hans Staden e outros clássicos da Antropofagia: – Lá vem nossa comida pulando. A Antropofagia era diferente dos outros menus. Oswald, no seu malabarismo de ideias e palavras, proclamou: – Tupy or not tupy, that’s the question. Alguns dias mais tarde, o mesmo grupo de poetas e pintores do restaurante das rãs reuniu-se no palacete da alameda Barão de Piracicaba, agora para batizar um quadro de Tarsila: ‘O Antropófago’, e para pensar num movimento “genuinamente brasileiro”, apesar das rãs no prato, diante da parca safra literária, posterior à Semana de 22. O salto das rãs para o Manifesto Antropofágico.

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2016

O vinho pop de Downton Abbey

O CEO da Wines That Rock vai direto ao ponto: “podemos não entender de vinho, mas entendemos de marketing”. Wines That Rock é uma empresa americana que produz vinhos temáticos embalados pela cultura pop. Faz o vinho licenciado dos Rolling Stones, por exemplo. Sabe que a grande língua vermelha do rótulo atrai consumidores de vinho fãs da banda. A Wines That Rock fez os vinhos para todos prazeres de 50 Tons de Cinza. E foi nessa mesma trilha pop que seus executivos planejaram os vinhos Downton Abbey, viajando na série televisiva inglesa homônima, que atraiu e atrai milhões de espectadores em todo mundo. A primeira coleção nasceu em vinhedos franceses. Agora, os vinhos saem da Califórnia. Há um Cab Downton Abbey circulando por aí... Downton Abbey, a série, traça um retrato da aristocracia inglesa do início do século XX a partir da família Crawley. A história começa com o naufrágio do Titanic, que não deixa de ser uma grande metáfora: os Crawleys enfrentam as mudanças políticas e comportamentais de sua época com uma elegância persistente que desafia a decadência que se avizinha, após os dramas da Primeira Guerra. Com seus trajes impecáveis, muitas vezes estão à mesa, acompanhados de brilhantes talheres e taças de bons vinhos, ou nos grandes salões e jardins da propriedade, com seus copos de uísque. Representam certo espírito de bem viver que teve como patrono o próprio rei Eduardo VII. (“Não se pode apenas beber o vinho, cheirá-lo, observá-lo, degustá-lo, sorvê-lo, h&aacut e; de se falar sobre ele” é uma frase atribuída ao rei.) Em 2015, o Cabernet Sauvignon Downton Abbey da Wines That Rocks foi um dos 50 vinhos mais vendidos pela Amazon ( são comercializados somente nos Estados Unidos e no Canadá). A primeira coleção Dowton Abbey foi lançada em 2013. A companhia criou dois blends, um branco e um tinto, ambos produzidos na França. Uma parceria com a Dulong Grands Vins de Bordeaux, um negócio de vinhos de 130 anos e 5 gerações, com vinhedos na região de Entre-Deux-Mers. Para essa coleção foram usadas as mesmas castas, em solos e terrenos semelhantes aos que produziam vinhos em 1900. A historiadora Jennifer Regan-Lefebvre, do Trinity College, de Connnecticut, entrevistada pelo site VinePair, diz que registros do século XIX mostram “que não era inusual para as famílias aristocráticas terem alguns milhares de garrafas estocadas em suas adegas”, mesmo se o consumo per capita na Inglaterra de então não ultrapassasse duas garrafas/ano. Em Dowton Abbey, entretanto, não temos a visão da adega. Sabemos da movimentação dos vinhos por meio das cenas em que o grande mordomo Carson (Jim Carter) faz as escriturações e os decanta ritualmente. Os vislumbramos, sim, mas já nas taças cheias do Conde de Grantham (Hugh Bonneville), mais pose do que real prosperidade. Richard L. Elia, da Q.R.W.com, uma revista de vinhos online, avalia que há pouco vinho em Downton Abbey e que a história merecia mais, ou pelo menos uma presen&c cedil;a mais explícita. E faz blague: o valete Thomas Barrow (Rob James-Collie) parece ter o paladar mais refinado entre todos os moradores ou visitantes do casarão, já que sabemos que ele roubou duas garrafas de Château Lafite. Diferentemente do que ocorria em muitos círculos da alta sociedade inglesa, em Downton Abbey a noite passava longe do cocktail. Nos domínios de Robert Crawley, o aquecimento era feito com Porto e Sherry, vinhos fortificados. Os Crawley tinham uma concepção muito particular de harmonização, analisa Jennifer Regan-Lefebvre para o VinePair. Hors d’Oeuvres (Sherry), Sopa (Borgonha Branco), Peixe (Claret), Carnes leves (Champagne), Cordeiro e aves (Bordeaux vintage), Sorvetes (Porto) e Champagne, sempre muito vinho Champagne. Há críticos que tratam os vinhos Downton Abbey feitos na França como “inofensivos”. Agora têm à frente para análise os Downton Abbey feitos na Califórnia, a partir da quinta temporada da série. A coleção homenageia Lady Cora Grantham (Elizabeth McGovern), a mulher do famoso conde, nascida nos Estados Unidos. Os criadores do vinho garantem que o mordomo Carson escolheria vinhos californianos para agradar paladares de sensibilidades mais modernas, de convidados da condessa. Eu não acredito. Os vinhos Condessa de Grantham (Cabernet Sauvignon e Chardonnay) são produzidos na tradicional vinícola familiar Lange Twins, n a região de Lodi, no Vale Central californiano. William Zysblat, da Wines that Rocks, lembra (faz marketing) que as uvas foram plantadas na Califórnia por volta dos anos 1860, justamente a época em que Lady Cora teria nascido.

quarta-feira, 27 de janeiro de 2016

Reguengos de Tabucchi, com sarrabulho

Antonio Tabucchi (1943-2012) foi o mais português dos escritores italianos, um dos grandes contemporâneos, com uma prosa dinâmica, de textos curtos, muitas vezes tragicômicos, que em seus momentos de cumplicidade com Portugal, evoca a toponímia da sua Lisboa, por onde transitam Fernando Pessoa e todos os seus heterônimos, mapa referencial onde também há lugar e tempo para uma mesa, um vinho, um prato regional. E não é à toa que esse cotidiano aflora na obra de Tabucchi: o escritor viveu em Portugal, casou-se com uma portuguesa e estudou com afinco as literaturas moderna e surrealista do país (foi tradutor de Fernando Pessoa e Carlos Drummond de Andrade para o italiano). Pois em Requiem, uma alucinação (Cosac Naify/2015), eis que aparece, “em nostalgias irremediáveis” (Pedro Mexia), com distinção, com todas as suas letras, o vinho Reguengos de Monsaraz. Ao se encontrar com o falecido Tadeus Waclaw, uma figura de seu passado, com o qual quer tirar algumas satisfações, quebra o gelo primeiramente com taças de champanhe Laurent-Perrier, garrafa comprada na Brasileira do Chiado, o mais antigo café de Lisboa, indicação do “criado do balcão” diante de duas opções. O outro vinho era um Veuve Clicquot, “um bocadinho ácido”. Mais tarde, no restaurante do Casimiro, a conversa franca é acompanhada com Reguengos. “O senhor Casimiro chegou com pão, manteiga e azeitonas. Com o sarrabulho o tinto seria de rigor, disse ele, mas não sei se seu amigo vai gostar, tenho um Reguengos de garrafeira que aconselho vivamente. Para mim vai o Reguengos, decidiu Tadeus. Eu fiz um sinal afirmativo com a cabeça e suspirei: de acordo, vai ser o fim. O sarrabulho vinha numa travessa de barro, daquelas castanhas com flores amarelas em relevo, de tipo popular. À primeira vista tinha um aspecto repelente. No meio da travessa estavam as batatas, alouradas na gordura, e em redor os rojões [os pedaços de carne de porco sem osso,mas com alguma gordura] e as tripas. (...) Eu espetei o garfo num rojão quase de olhos fechados e levei-o à boca. Era uma delícia, uma comida de sabor requintadíssimo”. E Tadeus serviu-lhe mais um copo de Reguengos, pedindo à cozinheira que ensinasse ao narrador, “a este rapaz como é que se prepara um sarrabulho à moda do Douro, de maneira que ele possa voltar à sua terra e fazê-lo na sua própria casa, que lá onde ele mora só se comem esparguetes”. A cozinheira, mulher de Casimiro, ganha um copinho do Reguengos de Monsaraz e passa a receita: “se vossemecê que fazer um bom s sarrabulho tem de preparar a carne na véspera, corta o lombo em bocados regulares e tempera-o com alhos picados, vinho, sal, pimenta e cominhos, no dia seguinte vai encontrar uma carninha vem cheirosa, vossemecê pega um tacho de barro e corta lá dentro a gordura dos folhos, que é como se chama a gordura que liga as tripas, e deixa-a derreter em lume brando, põe a alourar os rojões na banha em lume forte e depois deixa cozer devagarinho. Quando a carne estiver quase cozida, rega-se com a marinada da véspera e deixa-se evaporar. Entretanto, vossemecê corta a tripa e o fígado e frita-os na banha até ficar tudo bem alourado. À parte refoga a cebola picada com azeite e junta-lhe a tigela de sangue cozido. Depois junta tudo no tacho e o sarrabulho está prontinho”. Depois da aventura do sarrabulho, doces amarelos em forma de barquinhos, papos de anjo de Mirandela. E Casimiro trouxe-lhes café e uma garrafa de bagaço. Reguengos de Monsaraz é uma cidade portuguesa, no Distrito de Évora, na região do Alentejo. Sua produção vinícola é conhecida internacionalmente, com rótulos das vinícolas Vinhos ‘José de Sousa’ (adquirida em 1986 pela vinícola José Maria da Fonseca), da cooperativa Carmim (hoje uma das maiores adegas do Alentejo), Herdade do Esporão (uma das mais antigas propriedades demarcadas do sul de Portugal, em 1267), Monte dos Perdigões (propriedade instituída desde antes do século XV), Ervideira, Adega do Calisto, Monte das Serras, São Lourenço do Barrocal e Luís Duarte Vinhos. Vinhos encorpados que aguentam o sarrabulho de Tabucchi e de Tadeus.

quinta-feira, 21 de janeiro de 2016

A caligrafia do vinho de arroz

Encharcado com três copos de vinho de arroz, esse fermentado criado na China há milhares de anos, o calígrafo e pintor chinês Zhang Xu (710-750) partia gritando performaticamente em direção ao papel, pincel em punho, e “escrevia” suas letras com descomunal intensidade. Sua “selvagem” escritura cursiva (kuangcao) impressionava a todos. O “louco Zhang”, em plena dinastia Tang, algumas vezes mais embriagado ainda, realizava sua caligrafia depois de entintar seus próprios longos cabelos. (Body art?) Não à toa Zhang foi tema de um poema do filosófico Du Fu (712-770), um dos maiores entre tantos grandes que celebravam a embriaguez: Tao Yanming (365 ou 372-427), Li Bo (701-726) e Su Dongpo (1036-1101). Du Fu escreveu que as “nuvens no papel” produzidas por Zhang só se formavam a partir do vinho. O nome de Zhang “é comumente citado junto com o de um artista jovem, Huai Su (737-798), um monge budista cujo dinâmico estilo de escrita era inspirado por um pesado consumo de cerveja e vinho, que entrou para a literatura como ‘bêbado Su’”, escreve o sinólogo alemão Thomas O. Höllmann em The Land of Five Flavors (Columbia University Press/2014), um estudo cultural atualizado da cuisine chinesa. Outras referências a caligrafias e poemas inspirados pelos vinhos estão em Celebración de La Embriaguez, um pequeno livro de Jacques Pimpaneau, traduzido para o espanhol por Alícia Sánchez (da Coleção El Cuerno de La Abundancia, editado em 2004 por José J. de Olañera). “O desejo que o espírito possa vagar, ascender a outro lugar, libertar-se do jugo da lógica racional e das preocupações cotidianas e penetrar no imaginário está presente em todas as civilizações”, escreve Pimpaneau logo no início do livro. Um letrado chinês citado por ele diz que o ser humano aspira desenvolver uma habilidade que permita a seu espírito ver as montanhas, o mar e viajar por diferentes lugares, sem se mover. Durante algum tempo, as drogas (o venenoso cinabre, por exemplo) foram esse meio, mas na China o vinho logo prevaleceu como “o melhor liberador para conduzir o espírito ao âmbito do imaginário”. Segundo Pimpaneau, “os chineses também viram outra vantagem: o vinho gerava uma atmosfera distendida, as relações humanas se tornavam mais relaxadas em uma sociedade na qual se impunha a rigidez dos ritos”. Wang Xizhi (321-379), “o sábio da caligrafia”, inspirador do “louco Zhang”, conta no prefácio de Poemas Compostos no Pavilhão de Orquídeas, sobre uma histórica reunião de escritores, na qual “taças de vinho e canções nos permitiam expressar nossos mais fundos sentimentos...” Era início do último mês da Primavera do ano 353. E os poetas e artistas presentes ao Festival de Purificação da Primavera colocavam copos de vinho para flutuar em pequenos meandros construídos a partir de um rio de águas claras, corredor de luz no pé das encostas do Monte Kuaiji, perto da cidade de Shaoxing (justamente a região d o mais conhecido vinho de arroz hoje produzido na China). Vinho que navegava poeticamente até ser resgatado e degustado pelos poetas. As caligrafias semi-cursivas do "enófilo" Wang Xizhi agradavam tanto o imperador Taizong, que este, ao morrer, foi para o mausoléu acompanhado dos originais dos Poemas Compostos no Pavilhão de Orquídeas. Como Zhang, Wang também apreciava a inspiração que vinha do vinho de arroz, mas tinha uma escola muito especial. Conta-se que a chave da sua escrita estava na observação do movimento do pescoço de seus lindos e cultuados cisnes.

quarta-feira, 9 de dezembro de 2015

Torrada, biscotto, madeleine

John Naughton, professor emérito de Public Understanding of Technology da British Open University, autor de From Gutemberg to Zuckerberg: What You Really Need to Know About the Internet, publicou na edição de 19 de outubro de 2015, no The Guardian (veja link abaixo) uma notícia que atinge a ideia cristalizada com a qual o mundo tratava “a mais poderosa metáfora da literatura francesa”: o bolinho na forma de concha, mergulhado numa xícara de chá, com o qual Marcel Proust (1871-1922) conseguia voltar a dias de sua infância em Combray. Muitos anos fazia que, de Combray, tudo quanto não fosse o teatro e o drama do meu deitar não mais existia para mim, quando, por um dia inverno, ao voltar para casa, vendo minha mãe que eu tinha frio, ofereceu-me chá, coisa que era contra os meus hábitos. A princípio recusei, mas, não sei por quê, terminei aceitando. Ela mandou buscar um desses bolinhos pequenos e cheios chamados madalenas e que parecem moldados com aquele triste dia e a perspectiva de mais um dia tão sombrio como o primeiro, levei aos lábios uma colherada de chá onde deixara amolecer um pedaço de madalena. Mas no mesmo instante em que aquele gole, de envolta com as migalhas do bolo, tocou o meu paladar, estremeci, atento ao que se passava de extraordinário em mim. Invadira-me um prazer delicioso, isolado, sem noção da sua causa. Esse prazer logo me tornara indiferentes as vicissitudes da vida, inofensivos os seus desastres, ilusória a sua brevidade, tal como o faz o amor, enchendo-me de uma preciosa essência: ou antes, essa essência não estava em mim; era eu mesmo. Cessava de me sentir medíocre, contingente, mortal. De onde me teria vindo aquela poderosa alegria? Senti que estava ligado ao gosto do chá e do bolo, mas que o ultrapassava infinitamente e não devia ser da mesma natureza. De onde vinha? Que significava? Onde aprendê-la? Bebo um segundo gole em que não encontro nada demais que no primeiro, um terceiro que me traz um pouco menos que o segundo. É tempo de parar, parece que está diminuindo a virtude da bebida. É claro que a verdade que procuro não está nela, mas em mim. (De No Caminho de Swann, em tradução de Mário Quintana) Pois antes da madeleine, a primeira versão de No Caminho de Swann, livro I de Em Busca do Tempo Perdido, tinha como recurso de expressão uma prosaica torrada. Segundo manuscritos divulgados na França, no primeiro rascunho, de 1907, a torrada com mel é que dispara o gatilho da nostalgia proustiana. Numa segunda versão, a torrada dá lugar a um biscoito. A famosa madeleine e seus pedaços embebidos em chá só ganharam seu lugar na história da literatura (e da gastronomia) na terceira versão do escritor. http://www.theguardian.com/books/2015/oct/19/proust-madeleine-cakes-started-as-toast-in-search-of-lost-time-manuscripts-reveal § Os biscoitinhos preferidos da nossa yorkshire Meg ficam guardados numa antiga lata de madeleines da Fauchon.

terça-feira, 1 de dezembro de 2015

Nas taças de Canaã

Brad Whittington, texano filho de pastor e formado numa comunidade batista que sempre atuou com rigidez no combate ao consumo de álcool, analisa friamente em What Would Jesus Drink? - What the Bible Really Says About Alcohol (Wunderfool Press/2011) as citações bíblicas sobre o vinho. Faz questão de distinguir a letra do texto bíblico das regras de tradição, culturais, de cada igreja cristã. Para ele, uma coisa é condenar o consumo, como ele mesmo o faz, considerando as estatísticas dos estragos sociais relacionados ao alcoolismo ou ao abuso eventual das bebidas alcoólicas. Outra, muito diferente, é pregar a abstinência apropriando-se de citações e, principalmente, transformando o vinho bíblico em vinho sem álcool, sempre quando necessário na defesa de teses religiosas. O vinho e outras “bebidas fortes” aparecem na Bíblia (Velho e Novo Testamentos) em 247 citações, em referências negativas, positivas e neutras, estas muitas vezes simbólicas. Estou como vinho arrolhado, Como odres novos prestes a romper. Jó, 32:19 Whittngton diz que quase caiu de costas quando fez as contas e descobriu que 58% das citações eram positivas. “Eu nunca tinha ouvido um sermão positivo sobre o vinho e nunca esperava esse resultado”, escreveu. Também foi pego de surpresa ao detalhar os conteúdos. São 58 as referências nas quais o vinho aparece, sem qualquer condenação moral, como parte integrante do dia a dia da época de Jesus, e 47 as que tratam da abundância do vinho como bênção de Deus. Deveria eu renunciar ao meu vinho, que alegra os deuses e os homens (...) Juízes, 9:13 A maioria das 40 citações bíblicas negativas ao álcool condenam seu consumo excessivo. Não se embriaguem com vinho, que leva à libertinagem (...) Efésios, 5:18 A conclusão final de Whittington: “a posição das escrituras dá ênfase ao consumo moderado do álcool com um alerta contra a embriaguez”. E se há tantas alusões contra a embriaguez e pregação por abstinência, como pensar que nas mesas da época as jarras e as ânforas estavam cheias de suco de uva, como querem algumas igrejas? As ânforas da festa de casamento de Canaã, a do milagre da água transformada em vinho, certamente continham a bebida embriagante. O pastor Roberto Cruvinel, da Igreja Assembléia de Deus Pleroma, de São Bernardo do Campo, em outras circunstâncias, também teve a mesma reação de perplexidade de Whittington. Cruvinel disse certa vez, num programa de rádio, que tinha se convencido da natureza alcoólica dos vinhos bíblicos ao ouvir de Henrique Murachco, seu renomado professor de grego na Universidade de São Paulo, que a palavra oinos do texto bíblico em língua grega deve ser traduzida definitivamente por vinho, o que tem álcool.