sexta-feira, 24 de outubro de 2014

Quanto cabe numa barrica?

Ao iniciar o projeto do Dicionário do Vinho, Maurício Tagliari e Rogério Campos não imaginavam estar diante de uma experiência inédita: não havia outro dicionário do gênero em todo mundo. É claro que as definições de termos técnicos da vitivinicultura podem ser encontrados em livros introdutórios dessa ciência ou em guias e obras mais especializadas, em português ou outras línguas. Mas reunidos de forma organizada, de A a Z, em "entradas" sintéticas, era mesmo a primeira vez. Assim, o Dicionário do Vinho, multilíngue, dando voz a mais de 17 mil palavras, editado pela Companhia Editora Nacional, tornou-se uma obra de consulta indispensável na biblioteca de enólogos, sommeliers, viticultores e entusiastas da bebida. Todos esses termos juntos "nos dá vertigem", brinca Telmo Rodriguez, um dos mais talentosos enólogos da Espanha. Dentro do conjunto de palavras, há descrições de mais de duas mil variedades de uvas e definições para jargões do comércio do vinho e das degustações. Estão também relacionados alguns personagens da mitologia ligada aos vinhos, o deus Bacco puxando o cortejo, mas os autores explicam que não incluíram marcas, muito menos nomes de vinicultores ou de profissionais envolvidos na produção e comércio da bebida. Indicam, na verdade, o desejo de preparar um futuro livro que contemple o "quem é quem" desse mundo. A primeira palavra do dicionário é "aatchkik" , uva cultivada na Geórgia e na Ucrânia, empregada na elaboração de vinhos rosés. A última é "Zypern", indicando o equivalente em alemão para Chipre, uma país de tradição vinícola, entre outros tantos citados na obra. Entre "aatchkik" e "Zypern", termos técnicos que, não raras vezes, aparecem em entrevistas, resenhas e catálogos de produtores. "Chaptalização", por exemplo, mereceu um verbete com detalhes da prática de acrescentar açúcar ao mosto, antes ou durante a fermentação, com o objetivo de aumentar o grau alcoólico do vinho, prática polêmica e desaprovada pela União Europeia. O nome da operação rende homenagem à Antoine Chaptal (1756-1832), químico francês e ministro de Napoleão, que incluiu a medida nas ações de modernização da indústria francesa da época. "Fermentação maloláctica" é outro termo dos bastidores das vinícolas que chega frequentemente aos salões. Trata-se de uma segunda fermentação do vinho, aquela em que o ácido málico se transforma em ácido láctico, com a liberação de gás carbônico, truque realizado por bactérias lácticas (Oenococcus oeni) e que, em resumo, tem a função de suavizar o paladar do vinho. "As especificidades dos vinhos elaborados à volta do planeta exigem um aprofundado conhecimento de termos, nomes de regiões e sub-regiões de uvas, de solos, de sei lá de quantas coisas mais que o vinho na sua vivência secular foi sendo construído pela mão do homem e da natureza", escreveu num dos prefácios do dicionário o português Luís Pato, tradicional produtor da uva baga, da Bairrada. O dicionário de Tagliari e Campos "nos permite a valiosa possibilidade de encontrar as palavras corretas necessárias para descrever a infinita variedade de vinhos e estilos que hoje o mundo nos oferece", elogiou o vinicultor argentino Nicolas Catena. Maurício Tagliari, um dos autores, é compositor, produtor e enófilo, fundador do grupo musical Nouvelle Cuisine, atuando nos mercados fonográfico, publicitário e cinematográfico. Como ele diz, "a paixão pelo vinho que desaguou na produção deste volume nasceu no seio da família de imigrantes italianos e cresceu com a convivência de muitos amigos nos últimos anos". Tagliari é membro da Academia Brasileira de Gastronomia. Rogério de Campos, que assina a obra com Tagliari, é jornalista, editor, tradutor e diretor editorial da Conrad. Em tempo: numa barrica bordalesa, comumente usada na França, cabem 225 litros. Está no dicionário. A a Z DO PORTO - Acaba de ser lançado em Portugal, e com alguns anos de atraso, o Dicionário Ilustra do do Vinho do Porto (Porto Editora), com mais de 3.000 verbetes e 600 imagens. A edição brasileira foi lançada anos antes, em 2011, pela Editora Cultura. Consta que, por ocasião do término da pesquisa, não houve editora ou instituição portuguesa interessadas no projeto. E o vinho é do Porto! Assinam a obra dois craques: Manoel Poças Pintão, há décadas figura histórica do setor, à frente da casa de Porto Poças, e o enófilo Carlos Cabral, um dos maiores conhecedores de vinho do Porto no Brasil. DC de 24/10/2014

quinta-feira, 16 de outubro de 2014

A sentença do vinho

A jovem, não tem 18 anos, põe à mostra uma erudita tatuagem nas costas: In vino veritas. Ela mesma me confessa que foi um erro do tatuador, que deveria ter "escrito" Carpe Diem (Aproveita o momento fugaz), bem mais popular. O tatuador se enganou ao conferir a grafia na lista de seus latins. A concisa frase latina que a jovem carrega no corpo, In vino veritas (No vinho, a verdade), é um lema milenar, propagado com força desde a Idade Média, com essas mesmíssimas letras. E continua difundido até hoje, principalmente entre os entusiastas da bebida. Seu significado primeiro revela uma das qualidades mais nobres do vinho, seu poder de estimular as conversas, os debates, embalando afeições, promovendo encontros. O inebriado se expressaria de maneira livre, sem mentiras ou amarras. Como resumem os checos: "O vinho puro desenrola a língua". Renzo Tosi, autor do indispensável Dicionário de Sentenças Latinas e Gregas (Martins Fontes/1996) escreve que a frase In vino veritas não aparece dessa forma em nenhum autor latino clássico, mas conta que paralelos entre vinho e verdade são encontrados tanto em Horácio como em Plínio. Estes se referem, por sua vez, a um ditado popular, de origem grega, documentado por Alceu e que chegou depois "explicitamente citado como provérbio grego" a Platão, Teócrito e Plutarco: "Vinho e crianças são verazes". In vino veritas tem seu similar em quase todas as línguas modernas. Tosi destaca especialmente a francesa, rebuscada: Avant Noé les hommes, n’ayant que de l’eau à boire, ne pouvaient trouver la vérité (Antes de Noé, os homens que só tinham água para beber, não encontaravam a verdade). Lembremos que, no texto bíblico, logo depois de atracar sua arca antidiluviana, Noé plantou a primeira vinha, fez vinho e com ele se embriagou. Uma referência literária importante é a incorporação da célebre sentença latina por Rabelais, em seu Bacco in Toscana, justamente o "renascentista francês" dos excessos enogastronômicos, personalizados por Pantagruel. Já o filósofo dinamarquês Kierkegaard batizou de In vino veritas (Antígona/Lisboa/2005)) parte de um estudo sobre "os caminhos da vida", de 1845, que trata de um banquete onde os convivas falam a verdade sobre o amor e a mulher. Cada participante discursa sobre suas teses in vino e não poderiam fazê-lo "antes de ter bebido o bastante para notar o poder do vinho, ou seja, enquanto não estivesse naquele estado em que se diz muita coisa que de outro modo não se gostaria de dizer, mas sem que contudo a conexão do discurso e do pensamento fosse constantemente interrompida por soluços". Proverbial na Antiguidade é o dito "O bronze é o espelho do rosto; o vinho é o espelho da mente", que alguns atribuem a Ésquilo. "O que permanece no coração do sóbrio está na língua do bêbado" é um provérbio documentado em Plutarco que chegou ao Brasil, via europeus, para ganhar forma no certeiro e algo debochado "Cachaceiro não tem segredo". Inevitavelmente, a embriaguez e a "verdade dos bêbados" sempre estiveram presentes nos provérbios populares, realidade que algumas vezes subverte a ideia filosófica original de In vino veritas. "De vinho, abastado, e de razão, minguado", listou José Roberto Whitaker-Penteado em O Folclore do Vinho (Centro do Livro Brasileiro, Lisboa/ 1980) . Penteado traz em seu livro uma coletânea de nada menos do que 200 provérbios brasileiros que envolvem o vinho, a uva, a vide e o viticultor. "Conselho de vinho é falso caminho" pode ser contraposto a "Onde entra o beber, entra o saber". "Quando o vinho desce, as palavras sobem". O ditado escocês, do século 18, vai na mesma trilha: "Quando o vinho afunda, as palavras nadam". Mas, "se bebes vinho, não bebas o sizo", aconselham os propagandistas da temperança. Penteado explica que a maioria desses provérbios repete ipsis literis os rifões portugueses, que embarcaram para cá na bagagem dos colonizadores. Os relatos folclóricos, em todos os cantos do mundo, nunca deixaram de lado os níveis de embriaguez. Resumo e adapto aqui uma lenda mexicana, com inspiração nitidamente grega. Faz parte de The Muse in the Bottle (Citadel Press/2002), de Charles A. Coulombe. Depois dos primeiros copos, o homem é capaz de cantar como um passarinho; depois da primeira garrafa, está forte e disposto a lutar como um leão, mas quando passa de qualquer medida, age como um porco e logo, logo está na sarjeta. "Ay, que mala suerte!" DC de 17/10/2014

sexta-feira, 3 de outubro de 2014

Por trás das garrafas

Das elegantes ânforas de terracota resgatadas pelos arqueólogos às garrafas de vidro com sofisticado design foram milhares de anos. Uma indústria que, ao longo dos séculos, atendeu às demandas sempre crescentes de transporte e armazenamento do vinho, seja com jarros de cerâmica, cantis de couro (lembra-se do alucinado D. Quixote degolando odres da adega de uma estalagem?) ou barricas de madeira. Foi, entretanto, com as garrafas de vidro soprado e o advento das rolhas de cortiça, este no início do século 18, que os vinhos passaram a ser o que são, protegidos da oxidação. E, mais que isso, avançaram pelo universo da maturação, colocando também o tempo na sua medida. Uma elegante garrafa, fora de todos os padrões, foi recentemente criada pela artista e designer cipriota Kristina Apostolou para o vinho Anama, do ousado enólogo Lefteris Mohianakis. A vinícola do Chipre lançou 1.881 garrafas numeradas da safra 2010 desse vinho, considerado um marco na retomada dos vinhos doces da ilha. Um conceito novo para uma bebida naturalmente doce, preparada com uvas passas (Xynisteri e Mavro), que segue os passos de um dos mais conhecidos vinhos do mundo antigo, o Kyprion Nama, e seu afamado sucessor, o Commandaria. A cor radiante do Anama aparece através do vidro branco, como se tratasse do "medicamento" de uma antiga farmácia, panaceia como nos tempos dos ancestrais vinhos gregos, mas sem o ranço da resina protetora. As garrafas de vidro escuro geralmente são usadas contra a luz, que pode comprometer o envelhecimento dos vinhos de guarda, como os Bordeaux, os Borgonha, os Barolo. Mas a regra em nada impede, por exemplo, o engarrafamento de Champagne numa garrafa de cristal ou a "inovação" cipriota. Conta a lenda que o czar Alexandre II, querendo que a linda cor do Champagne não ficasse escondida numa garrafa de vidro opaca, encomendou à famosa casa Roederer um Champagne acondicionado em garrafas de puro cristal. Até hoje os produtores de vinhos com apelo de cor, como os rosés, também preferem os frascos translúcidos. A indústria vinícola mais moderna, contudo, sempre precisou das garrafas mais resistentes e mais uniformes, que permitissem seu transporte seguro e a facilidade de empilhamento. Essas características começaram a aparecer com a fabricação em série e o advento da Revolução Industrial, no século 18. Os ingleses foram pioneiros ao fabricar essas garrafas de vidro forte e escuro, contribuindo para o próprio desenvolvimento do Champagne, dos grandes Châteaux de Bordeaux e do vinho do Porto. O abade Don Pérignon (1638-1715), a quem poeticamente é atribuída a invenção do Champagne, certamente comemorou as grossas garrafas que mantinham-se intactas e não estouravam com suas experiências de gases e borbulhas. As garrafas de vinho variaram também de tamanho desde que começaram a sair das potentes fornalhas inglesas, "enriquecidas com chumbo". Uma garrafa Nabucodonosor, cujo nome homenageia a grandiosidade do império babilônico, tem capacidade para 15 litros. Numa Magnum cabem duas garrafas, ou 1,5 litro. A maior garrafa do mundo, para 173 garrafas-padrão de um Cabernet Sauvignon da vinícola californiana Beringer, foi feita apenas para decorar uma loja e não conta no dia a dia das degustações. Já alguns champagnes de 3 litros (Double Magnum) são até hoje usados por vencedores da Fórmula 1 ou por damas muito chiques em batismos náuticos. Mas como nasceu a garrafa de 750 ml, hoje aceita mundialmente como padrão? Segundo o especialista Marcelo Copello, há três teorias. A primeira tem a ver com os famosos vinhos franceses. Uma barrica bordalesa tem capacidade para 225 litros, portanto encheria 300 garrafas. É uma boa conta. A segunda hipótese é a aquela que trata 750 ml de vinho como boa e honesta dose para um casal durante uma refeição. A terceira teoria, segundo Copello, diz que 750 ml correspondem à capacidade do pulmão de um antigo soprador de vidros.ESTILOS - Nesses frascos com forma de cantil, chamados de bocksbeutel, são tradicionalmente engarrafados os vinhos brancos da Francônia, no sul da Alemanha. Mas também vinhos rosés portugueses, como o celebrado Mateus. Já os fiaschi, que muitas vezes decoram cantinas italianas em meio a um mar de camisetas, são praticamente sinônimos dos antigos vinhos Chianti, produzidos na Toscana. A palha ajudava a proteger as então frágeis garrafas exportadas para todo o mundo Os modernos Chianti, entretanto, ganharam as tradicionais garrafas de desenho bordalês. Os apreciados vinhos de Châteauneuf-du-Pape, no Sudeste da França, onde os papas moraram durante o Cisma, também têm as suas garrafas próprias, todas identificadas pelo brasão papal em alto relevo. DC de 3/9/2014

Vinhos que Dalí serviu à musa

Dalí "roubou" Gala, a esposa russa do poeta Paul Eluard, em 1929, sob o sol de um verão "surrealista" em Portlligat, pequena vila perto de Cadaqués, na Catalunha. O amor à primeira vista tornou-se um casamento para o resto da vida. Gala morreu em 1982, em Girona. Dali, em Figueres, em 1989. 'Galushka' foi sua grande musa e pelo menos dois livros foram a ela dedicados já no crepúsculo da carreira que não queria se pôr: Les Diners de Gala e Les Vins de Gala revelam a paixão dos dois pela boa mesa. Esgotados há décadas, os livros viraram raridades. Dalí lembra dos encontros com o poeta Lorca e o cineasta Buñuel, todos movidos a Champagne. E compara o espocar das rolhas ao andamento das conversas apaixonadas. Não à toa, os vinhos espumantes de Ay abrem sua literária lista de vinhos. The Wines of Gala (traduzido para a casa Abrams em 1978, um ano após a edição parisienese da respeitada Draeger) tem textos de dois especialistas, Philippe Gérad e Louis Orizet. Traz ainda, a título de introdução, um poema sobre a adega, escrito pelo barão Philippe de Rothschild, do célebre Château Mouton Rothschild. The Wines of Gala tem 296 páginas e mais de 140 ilustrações, incluindo algumas feitas especialmente para a obra. Célebres são as intervenções do artista em pinturas medievais que retratam a vindima. A lista dos 10 vinhos do "divino Dalí", sem nenhuma modéstia, inclui o Champagne de Ay, a bebida da persa Shiraz, o vinho da Creta "do rei Minos", o Lacrima Christi elaborado na vulcânica Campânia italiana, o Châteauneuf-du-Pape da terra dos papas em cisma no seu retiro francês, os grandes tintos de Bordeaux, um destaque para o Romanée-Conti, outro para o vinho botitrizado que sai como ouro do Château d'Yquem, o Sherry que é o Jerez de sua Espanha e os inspiradores vinhos da Califórnia. Já os dez vinhos listados para homenagear Gala valem-se de suas características: Vinhos da Alegria (Beaujolais, Rioja, Côtes-du-Rhône), da Soberania (aqui estão os tintos da Borgonha e também do Chile e da Argentina), do Esteticismo (destaque para os bons alemães), da Madrugada (Côtes de Provance Rosé, Tavel, Rosé de Cabernet D'Anjou), da Sensualidade (Sauternes, Vouvray), da Luz (brancos da Borgonha, de Bordeaux, do Vale do Loire), da Generosidade (Porto, Madeira), da Frivolidade (Saumur, Champagne-Crémant, Sekt), do Disfarce (Sherry, Tokay, Château-Chalon) e vinhos do Impossível (série encerrada com os ancestrais gregos resinados).SOBREVIVENTES -Tem sido uma outra luta manter o último vinhedo comercial da Síria aberto e em produção desde que a guerra civil, a partir de 2011, engolfou todo o país. Garrafas do Domaine de Bargylus são símbolo de resistência em terra devastada e continuam a ser vendidas em restaurantes estrelados em Paris e Londres. No início do mês, houve até uma sessão de degustação na vizinha Beirute, no Líbano. DC de 26/09/2014

Bebendo na nova safra de aplicativos

Ouso da safra de aplicativos sobre vinhos tem crescido no Brasil em ritmo mais acelerado que o próprio consumo da bebida, revelando uma outra sede dos brasileiros, por tecnologia. Pesquisa do banco Morgan Stanley mostra que o Brasil apresenta uma das maiores taxas mundiais de crescimento do consumo de vinho: de 2007 a 2010, o salto foi de 30%. Segundo o Anuário de Vinhos 2013 o consumo atual é de 2,2 litros por pessoa/ano. E não somente a produção de vinhos brasileiros de qualidade tem aumentado, as importações também têm crescido. Em valores de negócios, o País importou US$ 261 milhões em 2011, ante US$ 65,2 milhões, dez anos antes. Enquanto isso, o uso do aplicativo Vivino cresceu nada menos do que 730% nos últimos 20 meses, sendo baixado no Brasil por 711 mil pessoas até agosto. É o segundo maior mercado do aplicativo no mundo, só perdendo para os Estados Unidos. Mas como esses aplicativos podem ajudar o apreciador de vinhos? A maioria deles descomplica a escolha da bebida, apresentando uma ficha técnica em poucos segundos de consulta, apontando avaliações de quem já a experimentou e preços. Outros indicam as melhores harmonizações do vinho à mesa. Vale a pena testar cada um deles, já que a maioria é grátis. Aqui, uma seleção que mostra a variedade de opções. VIVINO – Um dos mais populares, o Vivino é capaz de puxar a ficha de cada vinho por meio da fotografia do seu rótulo. O aplicativo dá uma espécie de adeus aos diários de degustação em papel, uma vez que pode armazenar todas as suas informações, além de facilitar seu compartilhamento. HELLO VINO – Indicado para iniciantes que precisam encontrar um vinho que melhor acompanhe determinado prato ou o mais adequado para cada ocasião. SOMMELIER DOC – Aplicativo italiano traz as aulas para quem quer ser mesmo um sommelier, amador ou profissional. DRYNC – Além de elegante, o aplicativo é considerado um dos maiores bancos de dados de vinho da App Stores. Tem 1,2 milhão de rótulos cadastrados, com uma enxurrada de críticas, para quem precisa delas. WA-TRIX – Quer identificar melhor os aromas presentes numa taça? O Wine Aroma Matrix traz tabelas que facilitam a apreciação multissensorial. WINE SECRETARY – Dicionário (em inglês) de alguns termos do mundo dos vinhos, dos mais corriqueiros aos mais técnicos. Com ajuda de pronúncia. DOCG – Os vinhos italianos listados por variedade de uvas e das regiões produtoras. Diário do Comércio de 19/09/2014

quinta-feira, 11 de setembro de 2014

Vida longa a Monsieur Nectar

Nectar, personagem da casa de vinhos francesa Nicolas, faz parte de uma verdadeira saga publicitária que toma fôlego com novo desenho e caminha para os 100 anos. O entregador capaz de carregar um número absurdamente grande garrafas nas mãos nasceu da pena de Dransy em 1922 e, desde então, mesmo durante a Segunda Guerra Mundial, comunicou-se de maneira eficaz com o consumidor francês, pintado em muros, impresso em catálogos e, principalmente, reinando em cartazes que tanto encantam a França. No primeiro desenho de Dransy, Nectar levava 16 garrafas em cada mão, indicando a disponibilidade da entrega e a variedade do catálogo de vinhos da Nicolas. O Nectar redesenhado em 2012 para marcar os 190 anos da cadeia de lojas mantém o avental, o boné e até o moustache do eficiente entregador, mas aliviou a sua carga para 8 garrafas. Grandes cartazistas do Entreguerras participaram da primeira etapa da história de Nectar: Iribe, Loupot, Cassandre, Brunhoff. Ficaram famosos também os catálogos de luxo, feitos para celebrações, entregues aos clientes no fim de cada ano, entre 1932 e 1973 (e também em 1992), com participação de renomados artistas: Van Dongen, Derain, Lorjou, Buffet, Chapelain Midy, Boisrond. Toda essa história foi contada e reunida por Alain Weill, especialista em arte publicitária, no livro Nectar comme Nicolas (Herscher/1986). Só ficou de fora mesmo o novo Monsieur Nectar, estilizado em 2012. Por tudo isso, Étienne Nicolas, que comandava a empresa familiar em 1922, quando Nectar foi lançado, é apresentado por Weill como um "gênio da comunicação", imprimindo seu ânimo de promoção dos vinhos durante 40 anos. Fundada em 1822, em Paris, apenas "um ano após a morte de Napoleão", como a empresa faz questão de frisar, foi a primeira loja especializada a vender e entregar vinhos de qualidade superior em garrafas, em tempo em que a bebida ainda era vendida por volume. Foi também a casa que lançou a ideia do Beaujolais Nouveau e pôs em circulação inúmeros vins de pays. Hoje, a casa, com mais 500 lojas somente em Paris e outras dezenas em outros pontos do globo, pertence ao grupo Grupo Castel, iniciado com negociantes e engarrafadores de Bordeaux, no final dos anos 40, e atualmente um dos maiores produtores de vinho do mundo. Não à toa, o velho Nectar foi parar no rótulo de um comemorativo Cabernet Sauvignon 2012. Em três anos de sucesso de "Nectar das 32 garrafas", Éttienne compreendeu que precisava dar-lhe uma nova dimensão. Associou-se a Draeger, um homem de peso na publicidade francesa da época, que começou a produzir encartes para jornais, com um Nectar modernizado, incorporado em elegantes traços cubistas. Com Draeger, Nectar também foi parar no cinema, em filmetes divertidos que antecediam a atração principal. Dransy assinou um contrato com Nicolas, em que autorizava o uso de seu personagem, desenhado posteriormente nos estúdios de Draeger, com o indicativo "d'après" Dransy. Nesse espírito, Nectar chegou a aparecer com seu ajudante Glou-Glou. Sua "literária" companheira Felicité não chegou a ser um sucesso. Na década de 30, Paul Iribe, precursor da arte déco e grande ilustrador, foi chamado por Étienne para produzir vários álbuns com sequências ao modo de quadrinhos, onde um indisfarçável Nectar aparece como sommelier. Nectar não se furtou a emprestar sua figura a todos os estilos e todo tipo de aventura. E até os anos 1960, quando ainda circulavam, tínhamos quase certeza de que era ele a dirigir o famoso triciclo da casa pelas ruas de Paris entregando os vinhos da Nicolas. DC de 12/09/2014

quinta-feira, 4 de setembro de 2014

A nova cara dos vinhos australianos

Muitas barricas vêm rolando na terra dos cangurus desde que o capitão Arthur Philip desembarcou, em 1788, no que é hoje o Porto de Sydney. Das primeiras tentativas de produção de vinho aos mais de 700 milhões de litros exportados anualmente para todo mundo passaram-se apenas 200 anos, rapidez e eficiência reveladoras de uma nação perseverante que se vale de muita experimentação e ciência para o manejo de seus vinhedos. A Wine Spectator de agosto, na pena do especialista Harvey Steiman, acaba de indicar um avanço dos Cabernet Sauvignon australianos no mercado americano, depois que os vinicultores conseguiram um equilíbrio na sua personalidade herbácea. Importante notícia, já que o Shiraz sempre fez sombra aos "Cab aussies". A mais nova expressão do dinamismo da vinicultura australiana, entretanto, é encontrada em jovens e estudiosos produtores de Victoria, reunidos no grupo South Pack. Fora do circuito global das grandes empresas, estão atrás de vinhos artesanais que melhor expressem o terroir daquele pedaço de Novo Mundo que tem solos de 500 milhões de anos. Vinhos que também mostrem como o australiano está tratando as novas variedades plantadas hoje no país, vinhedos que se misturam às mais antigas parreiras remanescentes do mundo, dos anos 1850. Em entrevista a Tim Wildman, publicada no blog Les Caves de Pyrène (mantido pela homônima importadora britânica), o viticultor Barney Flanders, da Allies, define o South Pack com uma antítese. O que o grupo está procurando NÃO FAZER é justamente vinhos excessivamente frutados, com a presença intensa do carvalho "adocicado", muito álcool e baixa acidez . Ele acredita que o mundo já se cansou dessa receita típica australiana, que fez muito sucesso num passado que é ainda muito presente. A produção do South Pack é, portanto, uma reação aos "pesados" vinhos dos anos 90, comparável à revolução ocorrida nos Estados Unidos com o movimento "New California", escreveu Julia van der Vink, em Punch. O South Pack foi criado em 2006 para somar as forças de promoção das garrafas de pelo menos oito vinicultores independentes, que trabalham com vinhedos principalmente no Yarra Valley, Mornington e Gippsland, ao sul da região de Victoria. São eles: Mac Forbes (Mac Forbes Wines), Timo Mayer (Mayer) Gary Mills (Jamsheed), James e Clare Lance (Punch), Barney Flandres e David Chapman (Alliens e Garagiste), Adam Forster (Syrahmi), Luke Lambert (Luke Lambert Wines), Bill Downie (William Downie). Muitos deles estão concentrados no Yarra Valley, que tem a uva Pinot como "cepa de inovação". Os Pinot de Mac Forbes foram parâmetros dessa revolução. Luke Lambert, por sua vez, além dos Shiraz, faz vinhos da italianíssima uva Nebbiolo, em Heathcote, assim como Gary Mills produz boas garrafas de Gewürztraminer e Viognier. Essas novas apostas convivem com as mais tradicionais cepas da vinicultura local, que são Shiraz, Cabernet Sauvignon (que gosta da terra roxa de Cononawarra) e Chardonnay. Depois daquela árdua viagem oceânica de oito semanas, uma das primeiras atitudes do capitão Philip (logo guindado a almirante e que seria o governador da colônia britânica New South Wales), foi plantar, com a força dos seus "condenados" o que restava das mudas que trazia na embarcação. Entre as plantas, vinhas do Cabo da Boa Esperança e do Brasil. Pois se a Grã-Bretanha não tem exatamente uma história das mais vibrantes da indústria do vinho, sempre foi um grande reino de consumidores e, no século XVIII, já era um porto de muitos negociantes da bebida. Havia uma ideia, sobrejacente à da conquista territorial, de que a Austrália poderia ser o "vinhedo da Inglaterra", explica Max Allen em Crush (Mitchell Beazley/2000). Como aquele ponto da Austrália era muito quente e úmido, as tentativas de produzir vinho ali fracassaram. O primeiro vinhedo produtivo e a primeira vinícola comercial vieram décadas depois, já no início do século XIX. Até os anos 1960, aproximadamente 80% dos vinhos australianos eram fortificados, na linha do Sherry e do Porto. Eram conhecidos na Inglaterra como "vinho colonial". Foi depois da Segunda Guerra que o perfil dos vinhos locais foi sendo alterado, graças aos imigrantes italianos, gregos e alemães, que gostavam dos vinhos à mesa, para acompanhar as refeições. O primeiro grande vinho australiano saiu das mãos de Max Schubert, da vinícola Penfold, em 1951: o safrado "Grange". Depois dele, a vinicultura australiana nunca mais foi a mesma. TERREMOTO - O espírito de um movimento social que os americanos conhecem bem (neighbors helping neighbors) tomou conta de produtores de vinho reunidos no Napa Valley Vintners, que anunciou a doação de US$ 10 milhões para a criação de um fundo destinado às vítimas do terremoto que atingiu a Califórnia, incluindo vinhedos de Napa, em 24 de agosto. O dinheiro vai para reconstrução de moradias e negócios.BRASILEIROS - O Novo Guia Adega de Vinhos do Brasil (2014-2015) acaba de ser lançado pela Editora Inner em parceria com a revista Adega. Foram avaliados cerca de 580 vinhos, de mais de 60 vinícolas de todo País. A publicação oferece ainda um resumo das principais regiões vitivinícolas e um ranking de rótulos de maior destaque. http://lojainner.com.br/guiaadegavinhosdobrasil2013-2015.html DC de 5 de setembro de 2014