sábado, 20 de junho de 2020

Marilyn nada frugal




     Nunca se descobriu se todas as rolhas foram espocadas por ela. Sabrage, aquele ritual napoleônico de decepar a garrafa com o afiadíssimo sabre para celebrar vitórias, certamente não houve. Falam em 350 garrafas de champagne, o tanto para encher sua banheira. No centro borbulhante, Marilyn Monroe (1926-1962) e o banho mais sensual da história.
     O glamour de Marilyn era amplificado com uma taça de champagne nas mãos. Tinha uma queda por Dom Pérignon. Nos sets de filmagem, não admitia que substituíssem champagne por suco de maçã. E ela errava muito...  Engolia champagne e, depois, palavras.  O ator Laurence Olivier fez algumas contas para não passar por mentiroso: Marilyn consumiu 20 potinhos de caviar para concluir uma única cena de O Príncipe Encantado (1957), 34 tomadas e dois dias depois da primeira tentativa.
    Em O Pecado Mora ao Lado (1955), a atriz apareceu tanto quanto a senhorita Morris, a personagem. Era Marilyn quem também estava ali, mergulhando as batatas fritas na taça de champagne, ao som de Rachmaninoff e ouvindo Richard dizer que, no café da manhã que ele mesmo prepara, tomou dois whisky sours com um sanduíche de pasta de amendoim. Na harmonização particular da Senhorita Morris, a insinuação das preferências da própria Marilyn: além das fritas, hambúrgueres, comida mexicana, pasta de amendoim, steaks, hot dogs...  O chili, depois de uma e outra sessão de fotos, matava bem a sua fome.
     Em lua de mel no Japão, em 1954, Marilyn e o astro de baseball Joe DiMaggio (que mesmo aposentado faria tantos home runs fossem necessários para estar sempre ao lado dela; ele a amava) foram fotografados degustando uma sopa de cebolas no restaurante Royal Host de Fukuoka. O mundo todo soube. O rebatedor do New York Yankees, com a colher na mão, não poderia imaginar que teria de dividir a atenção da mulher com soldados americanos sediados na Coreia, pertinho dali. Precisavam ser animados.
     Marilyn só caiu no gosto pelas pastas italianas durante o curto casamento com DiMaggio. Foi com um spaghetti al dente, escalopinhos de vitela e anchovas com pimentão que ele a conquistara dois anos antes do casamento, em encontro no Villa Nova, seu restaurante preferido em Los Angeles. Contam que para agradar DiMaggio, Marylin passou a preparar pastas em casa. Repetiria a dose, com pratos judaicos, para outro marido, o dramaturgo Arthur Miller, com quem se casou em 1956. Na casa da mãe judia de Miller, Marilyn entrou na cozinha para ajudá-la com a canja de galinha e as bolinhas de matzá, estas feitas com farinha de pão ázimo, a “penicilina judaica” que é também sinônimo de conforto nas mais variadas versões nacionais. O pão ázimo não leva fermento, é “o pão do Êxodo” da tradição judaico-cristã - não houve tempo para que crescesse antes da fuga dos judeus do Egito para a Terra Prometida.
     Em 1960, durante as filmagens da comédia romântica Adorável Pecadora, Marilyn Monroe e Arthur Miller se hospedaram no Beverly Hills Hotel, West Sunset Boulevard, 9.641. Seus vizinhos e amigos na temporada eram Yves Montand, com quem contracenava (e com quem teve um tórrido affair), e a mulher de Montand, a também atriz Simone Signoret. Os casais, então vizinhos de bangalôs, combinaram um jantar. Simone preparou o prato principal: spaguetti com almôndegas. Na mesa também salada verde e pães. Château Lafite Rothschild acompanhou a refeição. Para a sobremesa, encomendaram à copa do hotel bombinhas de creme e eclairs. Uma embalagem tetrapack de leite perto de Marilyn compunha a cena, evocando o leite da então mocinha saudável do início de carreira, que bebia, no seu corrido breakfast, leite misturado a dois ovos crus. Tudo ao mesmo tempo verdadeiro e encenado para fotos da revista Vogue.
     Depois vieram lendas e romances dos mais falados, o mais famoso com o presidente Kennedy e seu irmão, e um fim trágico e não menos nebuloso. Na noite de sua morte, em 1962, dizem que numa tentativa de reconquistar Bobby, Marilyn havia encomendado um buffet de comida mexicana para ser entregue em sua casa em Brentwood, na Califórnia.
#champage
#marilyn #marylinchampagne#châteaulafiterotschild# marylindimaggio#marylinarthurmiller



quinta-feira, 18 de junho de 2020

A partir de uma natureza-morta


(Marmelo, Repolho, Melão e Pepino)






     Quando em 1602, no seu estúdio em España, Juan Sánchez Cotán concluiu sua natureza-morta Marmelo, Repolho, Melão e Pepino, a marmelada era uma febre nos banquetes ingleses.
     Já o melão suculento, de herança árabe, reluzia ali em España mesmo, da Andaluzia para as mesas postas no Real Monastério del Escorial, o monumento barroco de Filipe II no coração da Serra de Guadarrama. Das cozinhas reais também saíam para a mesa do rei: guisados de caça, manjar branco e “azumbres de albillo” (um azumbre, medida de inspiração árabe, corresponde a dois litros; no caso, de vinho da uva branca Albillo).
     Quando em 1602, Juan Sánchez Cotán completou o quadro, Cervantes ainda trabalhava na primeira parte do seu Dom Quixote, publicada em 1605. A escrita de Cervantes também era uma pintura, mas uma pintura maneirista: a realidade dura do “Filipe de turno” misturada a sonhos que também alimentam e seguram um país.
     Na Espanha desse início do século XVII, a sopa de repolho e os pepinos serviam para matar a fome de pobres, anos de miséria da Edad del Mortero – alimentos triturados e bem cozidos para a tragédia dos homens sem dentes.
      A fome do pintor Juan Sánchez Cotán era de outra natureza: sair das “obrigatórias” cenas religiosas para os bodegones da vida. “Seu estilo hiperreal e temas austeros fizeram dele um revolucionário”, anotaram os críticos. Na Espanha, bodegones eram tavernas, mas também um estilo muito próprio de natureza-morta.
     Esticada como massa, a pasta translúcida de marmelo ganhava desenhos impressos com selos e moldes da nobreza. O brasão de armas de Filipe V da Espanha foi estampado numa dessas marmeladas festivas, no século XVIII. O molde está hoje, limpinho, no Museu do Pão de Ulm, na Alemanha. Na mesa de doces do quadro Lazarus and Dives, do pintor de Antuérpia Frans Franken, há um prato de marmelada colorida; a massa de marmelo tingida de rosa para ganhar vivacidade e enfeitar os banquetes dos reis.
    A carne de membrillo, a marmelada, chegava a Londres em navios embarcados na Espanha, em Gênova, França e Portugal. Marmelade era um lusitanismo na Inglaterra, porque justamente derivada da palavra marmelo, em português, de um país que fazia desses doces muito antes dessa febre. Doce prescrito por John Parkinson, herbarista de James I, em 1629, por suas qualidades digestivas, enquanto o mundo estava mesmo de olho nas suas propriedades ditas afrodisíacas. As prostitutas de Londres, nessa época eram docemente chamadas de marmalade madams.

    
Os ingleses também apreciavam uma água cordial, chamada Ratafia de Marmelos, usando para isso frutas que ficavam durante algumas semanas mergulhadas em brandy.
     Os melões cantaloupes, casca raiada e polpa entre o laranja salmonado e o amarelo esverdeado, eram populares na Andaluzia, sementes cultivadas pelos árabes que ocuparam a região. Colombo, a serviço dos reis católicos, levou sementes de melões do Haiti para a América espanhola na sua segunda viagem, em 1493.
     Juan Sánchez Cótan pendurou numa janela um marmelo maduro contra um fundo negro, início de uma curva descendente perfeita, composta ainda de um repolho, também atado num cordão (suspensão que era arma contra insetos e vermes comilões e doentios), mais um melão cortado (de salivar) e um de seus pedaços. O final da comestível hipérbole terminou com um pepino. 
     


Mais de quatro séculos depois, Ori Gersht, artista israelense baseado em Londres, inspirado em Cotán, tratou literalmente de explodir uma natureza-morta com a mesma hipérbole. Montou um cenário propositalmente muito semelhante ao criado pelo pintor Juan Sánchez Cotán. Mas sua lista de legumes e frutas foi modificada. No lugar do melão, uma abóbora. O marmelo foi substituído por uma romã. Todos alimentos disponíveis, de uma forma ou de outra, importados, congelados, frescos, cultivados ali mesmo ou em hortas distantes, em outros continentes. Com uma câmera de altíssima resolução e altíssima velocidade, Gersht filmou a trajetória de uma bala cruzando o cenário. Em câmera lenta, vemos o projétil atravessando e explodindo a romã, criando mandalas sangrentas, de suco vermelho.
     Em 1603, Juan Sánchez Cotán, depois de Marmelo, Repolho, Melão e Pepino (que está no Museu de Arte de San Diego), fechou seu atelier em Toledo e entrou para a vida religiosa, tornando-se um monge da ordem cartusiana num mosteiro em Granada, silenciando-se e trocando os bodegones por temas religiosos místicos.
     Ori Gersht, depois de estilhaçar a romã, fez mais uma das suas, explodindo arranjos de flores, semelhantes aos pintados em naturezas-mortas do século XVIII rococó. A série foi intitulada Blow Up e sobre ela Gersht declarou: “Estou pensando em cenários onde, em um lugar, há uma guerra muito sangrenta, enquanto em outro lugar pessoas estão vivendo um estilo de vida confortável e decadente.”

                                         *
     A mula de guia vinha enfeitada com fitas vermelhas e tinha o “arriamento mais bonito da tropa”. No peitoral, um conjunto de campainhas anunciava ao longe a passagem da carga de marmelos. Os tropeiros sentiam orgulho de ver seus burros, “puxados” pela mula, transportando no lombo até 200 quilos da fruta, escreve o marmelopolense Olinto Donizette Mota. Os marmelos eram então extraídos das plantações no Distrito de Queimada, município de Delfim Moreira, em Minas Gerais.
     O mercado de marmelo para a marmelada era disputado por uma dezena de fábricas, geran
do empregos para os habitantes locais e os de várias cidades da região.Tanta riqueza levou a população de Queimada a uma luta por emancipação. Até que um referendo, em 1962, a transformou em município de Marmelópolis.
     Hoje a demanda das grandes indústrias brasileiras da marmelada é atendida por marmelos importados da Argentina e do Uruguai. Enquanto doces de marmelo saem caprichosamente de São João do Paraíso, também em Minas, como de Marmelópolis.




sexta-feira, 27 de março de 2020

Bacalhau de peito aberto



     (Este texto se vale da biografia autorizada do bacalhau, assinada por Kurlansky.)


      Um bacalhau embarcado hoje na Noruega leva poucos dias para chegar ao Brasil e, assim, trocar as águas do Báltico e do Atlântico pelo mar verde de azeite de formas e caçarolas. Muito menos tempo do que seus ancestrais, também secos e salgados, levavam para aportar aqui no século XVI, época das grandes navegações. O papel do bacalhau nas aventuras que expandiram os limites do globo e do paladar é desfiado na "biografia autorizada" Bacalhau, o peixe que mudou a história do mundo, de Mark Kurlansky, um pesquisador minucioso da história e da sociologia da alimentação, que tem no sofisticado portfolio nada menos do que a tradução de Le Ventre de Paris, de Emile Zola.
     Aportar em terras novas não é bem o caso já que o bacalhau dos Descobrimentos era quase sempre carga de sobrevivência, 80% proteína, iguaria não perecível devorada nas embarcações que deixavam o Velho Mundo e cortavam mares "nunca d'antes navegados".  O bacalhau entrou na lista oficial de provisões da Marinha Real portuguesa com uma penada de D. João II (1455-1495), ironicamente o rei que não gostava de peixe. O monarca apostou na salubridade dos exemplares enviados por portugueses desbravadores da Terra Nova, então um dos principais pontos de pesca do bacalhau. A Terra Nova de Gaspar Côrte Real era a mesma Newfoundland do italiano anglicanizado John Cabot, hoje território canadense.
     Os franceses também tinham os pés nos pródigos mares do Hemisfério Norte. Todos reivindicavam o título de descobridores do santuário. Os bascos sempre zanzaram por lá. Havia o mesmo "entusiasmo de uma corrida do ouro", conta Kurlansky. Euforia alimentada pelo crescimento do mercado: "lá pela metade do século XVI, 60% de todo peixe consumido na Europa era bacalhau, porcentagem que se manteve estável por mais duzentos anos".
     Os diários de bordo das expedições de Cabral e Vasco da Gama não relatam como a proteína do mar chegava às tripulações famintas, antes que estas fossem consumidas pelo escorbuto e outras doenças que dizimavam nas naus portuguesas. É bem provável que as postas carnudas, desmanchando-se em lascas, ficassem com os comandantes e apaniguados. As "espinhentas sobras" alimentariam os porões. "O fado não canta a saudade e sim a posta perdida", resume Paiva de Carvalho, da Academia do Bacalhau de Toronto.

                                           *

     Primeiro foram os vikings, que ocuparam a Islândia e a Groenlândia, entre os anos 800 e 1200. Antes de zarparem com seus velozes barcos de duas velas, avançando das terras geladas para a Europa, matando monges e freiras na Inglaterra, barbarizando e negociando rumo ao Sul, os vikings já falavam dos peixes que ferviam em seus recortados fiordes e conheciam a técnica de secá-los. Fileiras e fileiras de bacalhau de "peito aberto" eram expostas ao vento frio nos degraus rochosos da sua costa. Cada peixe perdia cerca de quatro quintos de seu peso e transformava-se numa peça dura como tábua, cortada em pequenos pedaços, como biscoitos. E com nutrientes capazes de sustentar as diabruras de Eirik, o Vermelho.
     Até hoje a cidadezinha portuária de Lofoten, na Noruega, com seu colorido casario art nouveau, é cenário dessa rotina. Numa única temporada, fevereiro a maio, a indústria de Lofoten pendura em seus "varais" para secar 16 mil toneladas do bacalhau mais nobre, o Gadus morhua. No total, cerca de 50 mil toneladas de bacalhau saem das águas da região.
    Depois dos vikings, os bascos. Eles tinham sal em abundância, mercadoria então impensável para os nórdicos, e começaram a usá-lo no processamento do bacalhau. O sal aumentava a durabilidade do alimento. Além de bravos pescadores, os bascos eram bons comerciantes. No raiar do século XI, já tinham tradição da pesca à baleia e da venda de seus produtos. O bacalhau os ajudava a enfrentar as durezas das perseguições aos cetáceos gigantes, arpões de prontidão, como o dos célebres personagens de Moby Dick, de Melville. A ligação desse povo com o mar é exagerada na história de pescador que corre por lá: o bacalhau possuiria o dom da fala. E falaria basco...
     "Os bascos ficavam mais ricos a cada sexta-feira", escreve Kurlansky, referindo-se aos dias de jejum determinados pela Igreja Católica. Além dos 40 dias da Quaresma e da Semana Santa, havia vários outros períodos de abstinência de carne vermelha, totalizando quase a metade dos dias do ano. Carnes de bacalhau e de baleia eram enquadradas como carnes frias, vinham da água, e estavam liberadas. O bacalhau tornou-se "um soldado mitológico na cruzada pela observância cristã", analisa Kurlansky.
     A grande procura pelo bacalhau acirrou a disputa entre os países pesqueiros e não foi nada fácil estabelecer limites e territórios. Três guerras do bacalhau eclodiram e tumultuaram os negócios. Nenhum tiro foi disparado, não houve baixas, a não ser a destruição de muitas redes consideradas "devastadoras" de uma e de outra frota.
     Com o tempo, a pesca deixou de ser aventura de homens dispostos a enfrentar "latitudes solitárias", em áreas literalmente congeladas e eternamente enevoadas. Tornou-se prática predatória com redes e dragas, bem distante das tradicionais linhadas com muitos anzóis. Para desespero dos homens que ganhavam a vida no mar, a pesca passou a ser controlada. Os preços do produto dispararam. A queda dos estoques levou o Canadá, em julho de 1992, a proibir a pesca em áreas da Terra Nova. Os únicos "pescadores" autorizados integram o projeto Sentinel Fishery. Zarpam para monitorar "estoques" e acompanhar o desenvolvimento de filhotes. Todos à espera da volta dos generosos cardumes.

                                            *


     O príncipe dos Mares do Norte atende pelo nome científico de Gadus morhua. Assim foi registrado no Systema Naturae do sueco Lineu , em 1758. É o mais cobiçado da família. Assim como seus algozes, é dado a aventuras e, na época da desova, migra pelas águas acompanhando correntes menos frias. Seus parentes estão também nos mares da Noruega, Rússia, Islândia, Canadá e Alasca.
     Corpo robusto, olhos pequenos, "barbicha" no extremo da mandíbula inferior, 5 aletas, cauda reta, o bacalhau da Terra Nova tem manchas cor de âmbar no dorso verde oliva e a barriga branca. Um exemplar de 20 anos mede, em média, um metro, e chega a pesar 50 quilos.
     Quando fisgado, não costuma reagir. Dizem que esse comportamento desestressado está relacionado à carne branca tão apreciada. Quando o assunto é comida, é predador voraz, ataca até anzóis sem iscas e nem filhotes desavisados escapam. A fêmea põe até 8 milhões de ovos. O escritor Alexandre Dumas criou uma imagem poética para essa fertilidade: "se nenhum acidente atrapalhasse a maturação dos ovos e todos conseguissem transformar-se em peixes, demoraria apenas três anos para que o mar ficasse coalhado de bacalhaus de modo que poderíamos atravessar o Atlântico sem molhar os pés, caminhando sobre eles". Fora da ficção, só 6 vingam e 2 chegam à idade adulta.

                                           *

     Auguste Escoffier (1846-1935), pai da moderna cozinha francesa, tinha Portugal em alta conta, por ter o país garantido lugar de destaque ao bacalhau na cena gastronômica. Taillevent, cozinheiro do rei Carlos V, da França, servia o bacalhau com molho de mostarda ou manteiga derretida. Apesar de não ter o bacalhau em suas águas, os portugueses iam longe para trazer o peixe até a cidade do Porto e, de lá, para Lisboa e o mundo. Há tantos pratos preparados com a iguaria em Portugal que, como diz o batido ditado, é possível comer um bacalhau diferente a cada um dos 365 dias do ano.
   Na Idade Média, graças à abundância do pescado e o preço não tão salgado, o bacalhau freqüentava a mesa da nobreza e dos pobres. Enriquecia panelões de arroz para numerosas famílias caribenhas. Ou reinava quase sozinho, só o nobre lomo, em receitas que os espanhóis batizaram de bacalao a la vizcaína ou o al pil pil, com pimenta.
     Do bacalhau se come tudo, até os ossos. Na Islândia, as espinhas ficam de molho em agraço (suco de uvas verdes), são posteriormente cozidas e viram mingau. Em outras épocas, as crianças das terras gélidas comiam também as peles fritas com manteiga. Enquanto outras, mundo afora, tiveram de beber na marra o fortificante óleo de fígado de bacalhau.
     Em 1571, Elizabeth da Áustria foi recepcionada em Paris com banquete que incluía tripas do peixe. Os bons de garfo lambem os beiços é com as línguas cozidas, na verdade as gargantas do bicho. "Têm sabor mais forte e uma textura mais gelatinosa", escreveu Kurlansky. Na lista de históricas receitas, o autor destaca as bochechas fritas (discos carnudos que vêm com a mandíbula), as ovas, quase sempre recheadas, além das bexigas natatórias e cabeças de bacalhau assadas. Sim, bacalhau tem cabeça.

terça-feira, 24 de março de 2020

O vinho da Areni e a hipótese Noé


     Depois que os soviéticos se foram, há cerca de 30 anos, os agricultores da Armênia trataram de, literalmente, buscar suas raízes, as mais profundas delas enterradas nos seus então quase perdidos vinhedos da autóctone cepa Areni, nas barbas do bíblico Monte Ararat, onde a arca de Noé teria batido com seus bichos.
     Nas últimas décadas, à época da colheita, as uvas voltaram a frequentar o altar das igrejas ortodoxas. Os pagãos ancestrais também ofereciam os frutos a seus deuses. A prática foi absorvida ao longo do tempo pelos fervorosos cristãos locais e hoje transformou-se numa cerimônia colorida dedicada à Virgem Maria, sempre no domingo mais próximo do dia 15 de agosto.
     Depois que os soviéticos se foram foi possível também se falar numa ressurreição do vinho da Armênia. Alguns rótulos podem ser encontrados em vários países europeus e, mais recentemente, aportaram nos Estados Unidos. O vinho Areni Noir Karasi 2010, da vinícola Zorah, foi elogiado pela crítica de vinhos inglesa Jancis Robinson, defensora intransigente da abertura do mercado para variedades menos conhecidas. Jancis Robinson é autora, com Julia Harding e o botânico suíço Jose Voullamoz, do referencial Wine Grapes, estudo biogenético de muito fôlego que traz descrições detalhadas das 1.368 cepas de uvas em produção hoje no mundo. A Areni é uma delas.
     A Transcaucásia, onde está localizada a Armênia, é pesquisada pelos arqueólogos como local da domesticação da videira e de outras tantas plantas durante a “revolução neolítica”. E se o alemão Heirinch Schielmann foi atrás da Antiga Tróia com a Ilíada de Homero debaixo do braço, alguns arqueólogos ligados à botânica se inspiram em passagem bíblica para formular a sua intrigante “Hipótese Noé”: uma única videira, nascida nas escarpas do Monte Ararat, teria sido a mãe de todas as outras espalhadas pelo mundo. No livro Gênesis está escrito que, após o Dilúvio, arca ancorada no Monte Ararat, Noé plantou a primeira videira, dela fez vinho e se embriagou. Teria sido a primeira bebedeira devidamente registrada da história, lembra o filósofo Michel Onfray, em A Razão Gulosa.
      A ancestralidade da vitivinicultura local ganhou ainda mais evidência com as descobertas em Areni. Pavel Avetisian, diretor do Instituto de Arqueologia da Armênia, afirma tratar-se do mais antigo complexo para produção de vinhos já escavado.
      Foi esse peso da história que levou o iraniano Zorik Gharibian de volta da sua Itália de adoção à Armênia de seus antepassados para implantar a vinícola Zorah. Há mais de dez anos anos, cuida de vinhedos da cepa Areni Noir plantados nas encostas do Monte Ararat, a 1.400 metros de altitude. Gharibian conta que esse local pode ter sido o mesmo explorado por monges no século XIX.
     A ligação afetiva de Gharibian com a Armênia fez com que o projeto focasse nas cepas locais, ideia devidamente encampada pelo renomado enólogo Alberto Antonini (com assinaturas em vinhos de várias partes do globo, incluindo sua Toscana e os da bodega Alto Las Hormigas, na Argentina) e o viticulturista Stefano Bartolomei. Ambos integram desde o primeiro momento o time de Gharibian.
     A Armênia tem cinco zonas vinícolas e conta com dezenas de variedades autóctones. A Areni (parente da Pinot Noir) é a tinta considerada âncora dos atuais produtores. Há ainda a Garan Dmak, Nazeli e Chillar, além de uma branca especial, a Voskeat - "Pingos de Ouro".  Por ora, Gharibian tem a Areni como menina dos olhos, a cepa de milhares de anos, provavelmente originária da região sul da Armênia. Além disso, trata de adaptar as práticas de vinificação indicadas pelos achados arqueológicos e a experiência dos locais. O vinho é primeiramente preparado em karasì (ânforas, em armênio), que são depois enterradas no solo. Apenas um terço é armazenado em barricas francesas e armênias. Gharibian tem certeza de que os karasì concentram a expressão da fruta. E é fiel ao mote: Zorah: 6.000 anos de história em uma garrafa.
 



Armênia: um mocassin e uma 'fábrica de vinhos'


    Um mocassin de couro de 5.500 anos foi descoberto numa caverna na Armênia, em 2007, atestando uma moda ancestral. Poucos anos depois, os arqueólogos anunciaram o achado de uma prensa e um tanque de fermentação ainda mais velhos, de 6.100 anos, principais peças da mais antiga “fábrica” de vinhos já estudada. Estavam perto da vila de Areni, em território da atual Armênia. A descoberta foi anunciada pelo arqueólogo Gregory Areshian, da Universidade da Califórnia, que liderou os trabalhos ao lado do armênio Boris Gasparyan.
     Para o arqueólogo biomolecular Patrick E. McGovern, a sofisticação desses achados da Idade do Cobre sugere que a tecnologia de produção de vinho começou provavelmente muito antes desse período. Desde 2007 eles estavam debruçados sobre esses tesouros, incluindo “taças”, vasilhas de armazenagem, odres, galhos secos, sementes, além do mais antigo mocassin. As escavações foram finalizadas em setembro de 2010.
     Areshian acredita que a viticultura pré-histórica de Areni estava vinculada a ritos fúnebres, uma vez que as instalações foram encontradas no terreno de um cemitério. Em estudo publicado no Journal of Archaeological Science, Areshian explica que esses homens espremiam as uvas com os pés (técnica não de todo abandonada). O sumo era posteriormente drenado para um tanque de fermentação. O vinho era então armazenado em jarros de argila. As condições da caverna, fria e seca, garantiam ao acaso a boa preservação da bebida. A datação dos resíduos foi feita com a utilização da tecnologia do radiocarbono e as análises mostraram ainda a presença de malvidin, um pigmento vegetal responsável pela cor vermelha do vinho.
     McGovern disse à revista National Geographic que a comprovação da especialidade da “fábrica” encontrada em Areni também se deu por meio do ácido tartárico, este sim marcador preciso da presença das uvas. Os resíduos detectados de malvidin são computados por ele a frutas locais, como a romã. Em diversos sítios arqueológicos em Israel e outras regiões do Oriente Médio e Mediterrâneo, com datações mais recentes, também há indícios de que a produção de vinho se deu em instalações semelhantes, muitas delas escavadas na rocha.

                                        

Homo imbibens

     Em algum momento da pré-história, uma criatura não diferente de nós, com olhos sensíveis a frutas coloridas, um gosto por açúcar e álcool, e um cérebro familiarizado com os efeitos psicotrópicos de certo caldo, moveu-se da inconsciente procura por frutas fermentadas, como faziam os macacos bêbados, para a produção e o consumo intencionais. Essa é a “hipótese paleolítica” da descoberta do vinho, que vem sendo estudada pelo arqueólogo biomolecular Patrick E. McGovern, do Museu de Arqueologia e Antropologia da Universidade da Pennsylvania, na Filadélfia, e foi descrita em Uncorking the Past. Esses viventes da Idade da Pedra Lascada tomavam seu vinho há 2,5 milhões de anos.
     McGovern, caçador das bebidas ancestrais, tem desvendado aquele a quem chamou de Homo imbibens, mas para isso usa um contexto ainda maior, mostrando que o álcool ocorre na natureza desde as profundezas do espaço e esteve presente no caldo primordial que pode ter gerado a primeira vida. A essa visão com gosto de metafísica soma a da Antropologia, mostrando que os primeiros hominídeos e chimpanzés tiveram um poderoso incentivo para se empanturrar de frutas fermentadas e outras fontes ricas em açúcar, como o mel, aproveitando ao máximo os frutos só encontrados em determinada estação. Era uma excelente solução para sobreviver num ambiente geralmente hostil e pobre de recursos, escreve McGovern.
     Ao levar as uvas de plantas silvestres (Vitis vinifera ssp. sylvestris) das florestas do Cáucaso para sua caverna (há certo consenso entre os estudiosos de que a primeira videira é nativa dessa região), o "milagre" teria se consumado. Frutas maduras transportadas em recipientes de madeira ou em odres primitivos de couro, violentamente sacudidas, liberavam a substância natural presente nas cascas para o início da fermentação. O arqueólogo acredita que dessa forma nasceu um vinho de baixo teor alcoólico, disputado pelos homens das cavernas. A partir da observação, trataram de repetir a experiência. Era uma espécie de Beaujolais Noveau da Idade da Pedra.
     O americano Leo Cullum (1942-2010), assíduo cartunista da The New Yorker, celebrou com bom humor a experiência pré-histórica: desenhou degustadores dentro de uma caverna. Do alto de seu barbão descuidado, depois de experimentar a poção natural, um deles proclama como um connoisseur: "Estou sentindo notas de um mamute fofo!"


     Patrick E. McGovern viaja o mundo atrás das mais remotas evidências da produção de vinho, cerveja e outros néctares alcoólicos, visitando sítios arqueológicos de cidadezinhas perdidas na imensidão chinesa ou escavados nas grandiosas montanhas iranianas. Quando não está em campo, está mergulhado no sofisticado laboratório da universidade, examinando potes e ânforas milenares, peças que guardam menores que microscópicos resquícios de outras civilizações e que têm ajudado a compor a trajetória alimentar do homem.
     Numa cerâmica de 7 mil anos, retirada das montanhas Zagros, no Irã, identificou, com técnicas de DNA, o vinho de uvas mais antigo já encontrado numa cozinha neolítica. Em Jiahu, província de Henan, às margens do rio Amarelo, norte da China, um vinho fermentado de várias frutas era preparado com sofisticação há cerca de 9 mil anos. Hoje há empreendedores que correm atrás dessas descobertas para tentar reproduzi-las comercialmente.
    A Dogfish Head, uma cervejaria de Delaware, requisitou a assessoria do cientista para lançar a Midas Touch, cerveja inspirada nos resíduos encontrados numa tumba de 2.700 anos, na Turquia. A Dogfish Head já recriou até um “grog”, Kvasir, baseado em traços de bebidas encontradas em sítios na Escandinávia, datados de 1200 a.C. e do ano 200. Kvasir é um deus da mitologia nórdica, resultado da soma da saliva de todos os outros deuses. Kvasir foi morto por dois irmãos anões, que retiraram-lhe todo o sangue e o misturaram com mel, resultando no “hidromel da poesia”.
                                         
     

quinta-feira, 29 de dezembro de 2016

A uva Norton de Thomas Jefferson

Thomas Jefferson, um dos pais da pátria norte-americana, principal autor da Declaração da Independência e terceiro presidente dos Estados Unidos (1801-1809) cunhou uma máxima que os puritanos de plantão não engoliram: “o vinho é o único antídoto contra a perdição do whisky”, dizia Thomas Jefferson. Não só não engoliram, como mais tarde ganharam a guerra, misturando todos os alcoóis na mesma lista de proibidos, com a decretação da Lei Seca (1920 a 1933).

O vinho caiu nas graças de Jefferson depois de sua passagem pela França, como embaixador (1784-1789). A partir de Paris, ele realizou inúmeras viagens pelas regiões vinícolas européias e tomou gosto pelo assunto (e pelos vinhos). Há registros de que chegou a enviar grandes rótulos para a adega da Casa Branca. Quando deixou Paris, levou com ele 125 garrafas do Château Haut-Brion, o premier cru classé produzido em Pessac, não distante de Bordeaux. Jefferson dizia: “Nós poderíamos, nos Estados Unidos, produzir variedades de vinho tão boas como aquelas feitas na Europa, não exatamente dos mesmos tipos, mas sem dúvida da mesma qualidade.”

Como defensor da horticultura e de todas as potencialidades da terra americana, Jefferson chegou a plantar vinhas na sua propriedade de Monticello, na suaVirgínia natal, mas grande parte das vitis viníferas de tradição europeia não resistiram às doenças da América. O grande sonho do vinho americano, emulando ou superando os da Europa, não foi atingido em sua época (isso demoraria cerca de um século e meio, se contarmos o início da revolução vinícola nos Estados Unidos, a partir dos anos 1960, com Robert Mondavi, na Califórnia).

Entre as uvas cultivadas por Thomas Jefferson estava a variedade Norton, batizada a partir do nome de seu descobridor, Daniel Norbone Norton (1794-1842), médico e horticultor de Richmond, Virgínia, que passou a promover essa cepa a partir de 1820.

Doctor. Norton dizia que a variedade Norton era uma planta híbrida de Bland (Vitis lambrusca X Vitis vinífera) e Pinot Meunier. Estudos recentes de DNA, entretanto, registrados no livro Wine Grapes (Jancis Robinson, Julia Harding e José Vouillamoz) dizem que a Norton é uma uva híbrida que inclui entre seus ancestrais Vitis aestivalis e Vitis vinifera, rejeita o parentesco com a Pinot Meunier, e fala de uma relação com a Enfariné Noir.

No final dos anos 1800, bons clarets da uva Norton chegaram a ser vinificados na Monticello Wine Company de Charlottesville. Hoje, a Horton Vineyards, por exemplo, tem orgulho de reintroduzir entre seus vinhedos a variedade Norton da Virgínia ao lado de cepas francesas do Rhône e de Bordeaux. Variedades que se dão bem no clima de Old Dominion.

Os vinhos da Norton produzidos pela Horton, segundo o site da própria vinícola, são escuros, frutados, com aroma intenso de ameixas e cerejas azedas. Passam 14 meses em barricas de carvalho, o que garante ao vinho um final aromático de especiarias. Um vinho indicado para carne de caça, linguiças grelhadas e pratos étnicos apimentados. Nos vinhos Norton da Horton, 93% das uvas são Norton, sendo os 7% restantes da casta portuguesa Touriga Nacional.

A Norton é muito cultivada na região Nordeste e no Midwest dos Estados Unidos. Outras vinícolas de respeito na terra da Norton são Augusta Winery, Crown Valley, Stone Hill (Missouri) e Pontchartain (Louisiana).  Segundo Tyler Colman (Wine Politcs/University of California Press/2008), a vinícola Stone Hill, fundada em 1847, faz o que os colonizadores do rei James nunca puderam fazer, ou seja, bons vinhos com a variedade local. Outro fã da Norton é o filósofo inglês Roger Scruton, que a incluiu num dos capítulos de seu festejado livro I Drink Therefore I am (Continuum/2011)

quarta-feira, 21 de dezembro de 2016

Punch hot 25, sem esnobismos

William Thackeray (1811-1868), amigo de Charles Dickens e frequentador da Trafalgar Tavern, em Greenwich, era romancista e escreveu ferinas críticas aos esnobes de seu tempo, a quem chamava de England Dinner-giving Snobs.  Colaborava com a revista Punch, artigos posteriormente reunidos em Book of Snobs, em 1848. 
    Hoje há uma competente e moderna revista Punch, virtual, que consegue capturar o ethos que leva os vinhos, os destilados e os coquetéis adiante na sua jornada de inovação e alegria, reportando com criatividade que suplanta o tão alquebrado esnobismo do tema. A revista não se contenta com o comum, nem com as unanimidades geradas pelo mercado. Veja a seguir a lista dos 25 vinhos do ano, segundo a Punch. Visite o site, com a reportagem completa assinada por Jon Bonné e crítica e serviço de cada rótulo.

Punch hot 25
Day Wines Mamacita! Mae’s Vineyard Malvasia Pétillant Naturel
Terroir al Limit Pedra de Guix Priorat Blanco
Domaine des Ardoisières Argile Blanc IGP Vin des Allobriges
Benoît Ente Bourgogne Aligoté
Domaine Rietsch Demoiselle Alsace Gewurztraminer
Arbe Garbe Sonoma County White
Ciro Picariello Irpinia Fiano
Luneau-Papin Clos des Allées Muscadet Sèvre et Maine Sur Lie
Weiser-Künstler Estate Mosel Riesling
Benoit Courault Gilbourg Vin de France
Dominique Belluard Grandes Jorasses Savoie White
Domaine Berthaut Fixin Les Crais
Schlossgut Diel Rosé de Diel Nahe Pinot Noir Rosé
Forlon Hope Dragone Ramato Rorick Vineyard Pinot Gris
Los Bermejos Lanzarote Listán Rosado
Broc Cellars Green Valley Solano County Valdiguié
Château de Brézé Clos Mazurique Saumur Red
Tom Shobbrook Poolside Barossa Syrah
Giacomo Fenocchio Barolo
Adegas Guímaro Finca Capeliños Ribeira Sacra
Holger Koch Kaiserstuhl Baden Spätburgunder
Richard Rottiers Dernier Souffle Moulin à Vent
Enfield Pretty Horses California Tempranillo
Pedro Parra y Familia Imaginador Itata Cinsault

E depois eles dizem que não gostam de listas!


domingo, 11 de dezembro de 2016

Garrafa Melquizedeque e Abraão

As grandes garrafas de vinho, com seus nomes de referências bíblicas, chamam minha atenção. As informações sobre sua gênese sempre estiveram difusas, mas ganharam novos contornos no livro Divine Vintage (Palgrave Macmillan/2012), de Randall Heskett e Joel Butler. A maior de todas as garrafas, a garrafa de 30 litros, onde cabem o volume de 40 garrafas de 750 ml, é chamada de Melquizedeque. E não é à toa.

Intencional ou não, esse batismo tem grande simbolismo, marcando um momento importante da história do vinho. Em seu caminho de Ur para Israel, o patriarca Abraão encontrou-se com Melquizedeque, rei de Salem (de Jerusalém), na cidade de Shaveh. Foi quando Melquizedeque lhe serviu pão e vinho dos vinhedos locais. Duas culturas, a canaanita e a hebreia, desafiando padrões de animosidade, se encontravam pela primeira vez diante do vinho, em paz. Abraão vinha da terra da cerveja, da Mesopotâmia transbordante dos rios Tigre e Eufrates, e o vinho de Canaã, com todo seu peso cultural, pode ter sido um ponto de inflexão.

Nomes e tamanhos das garrafas

Melquizedeque --- 30 litros, 40 garrafas (de 700 ml)

Primat -------------- 27 litros, 36 garrafas

Sovereign ---------- 25 litros, 33,3 garrafas

Salomão ------------ 20 litros, 28 garrafas

Melchior ----------- 18 litros, 24 garrafas

Nabucodonosor ---15 litros, 20 garrafas (Champagne)

Baltasar ------------ 12 litros, 16 garrafas (Champagne)

Salmanazar -------- 9 litros, 12 garrafas

Matusalém --------- 6 litros, 8 garrafas (Borgonha)

Impériale ------------ 6 litros, 8 garrafas (Champagne)

Rehoboam --------- 4,5 litros, 6 garrafas

Jeroboam ---------- 3 litros, 4 garrafas (Bordeaux)

Double Magnum - 3 litros, 4 garrafas (Borgonha e Champagne)

Marie-Jeanne ----- 2,25 litros, 3 garrafas (Champagne)

Magnum ----------- 1,5 litros, 2 garrafas

Standard ----------- 750 ml, 1 garrafa

Demi ou Split ----- 375 ml, meia-garrafa

Piccolo ------------- 187 ml, um quarto de garrafa

O aprofundamento histórico sobre os nomes dessas garrafas tem tudo a ver com a própria formação de um dos autores. Randall Heskett é professor universitário e um biblical scholar com formação em Velho Testamento pela Universidade de Yale e Universidade de Toronto. Ex-importador de vinhos, escreveu diversos livros e artigos, incluindo Reading the Book of Isaiah: Destruction and Lament in the Holy Cities (Palgrave Macmillan/2011).

Segundo Tom Stevenson, respeitado autor de The World Encyclopedia of Champagne and Other Sparkling Wines (Wine Appreciation Guild/ 2003), a mais antiga garrafa com nome bíblico é a Jeroboam, usada em Bordeaux pelo menos desde o século XVIII. As demais, com capacidades que ultrapassam 1,5 l ( Magnum), foram nomeadas a partir dos anos 1920.

Jeroboam foi o primeiro rei de Israel (922-901 a.C.), depois do sucesso da revolta das dez tribos do norte contra Rehoboam (o da garrafa de 4,5 litros), que resultou num reino dividido, Rehoboam à frente de Judá. Os autores conjecturam que a escolha de Jeroboam tenha ocorrido porque um dos seus vícios era, talvez, beber demais. Há também a possibilidade de tudo não passar de puro marketing,
tática que os produtores de Champagne conhecem muito bem.

Os pilotos da Fórmula I costumam subir ao podium ostentando garrafas Jeroboam, com 3 litros de Champagne (double Magnum). Sempre foi Champagne. Mas depois de 15 anos como símbolo da premiação da F-1, a vinícola G H Mumm perdeu o lugar no contrato para a australiana Chandon, submarca da Moët & Chandon. E como Champagne é só o vinho de Champagne...











sexta-feira, 9 de dezembro de 2016

O verão e os vinhos de Hesíodo


Alguns versos de  Os Trabalhos e os Dias , do grego Hesíodo (séc. VIII a.C.), trata da vida agrícola e dos campos em Ascra, na Beócia, onde cultivou seus campos e fez poesia, sempre com vinho e pão à mão. Os versos a seguir (de 582 a 596) foram traduzidos diretamente do grego e do latim pelo poeta e ensaísta Péricles Eugênio da Silva Ramos (1919-1992), e constam do livro Poesia Grega e Latina (Editora Cultrix, 1964).

Verão

Quando floresce o cardo e, na árvore, a cigarra
verte de sob as asas doce canto estrídulo,
no tempo em que o verão é fatigante,
mais gordas vêem-se as cabras e melhor o vinho,
mais sensuais as mulheres, débeis os varões:
- Sírius lhes queima a fronte e os joelhos, e o calor
lhes seca a pele. Oh, possa eu ter, nessa ocasião,
a sombra de uma rocha, vinho bíblino,
pão e leite de cabras que já desmamaram,
e carne de novilha que parou no bosque
e ainda não deu cria, ou, caso falte,
de cordeirinhos do primeiro parto.
E possa eu, para beber o vinho negro,
à sombra me estender, de coração feliz
com o meu banquete, e, dando o rosto ao vento oeste,
junto a fonte perpétua, viva e imperturbada,
mesclar três partes de água e uma de vinho.

Acredita-se que vinho bíblino do poema de Hesíodo é uma versão grega do vinho negro de Biblos (importante cidade fenícia), incensado por seu perfume e por sua cor escura. Era feito principalmente na Trácia, resultado da fermentação de uma variedade conhecida como "bibline".

Vinhos de Biblos

Povo de origem semita, os fenícios habitavam não somente Biblos, mas também Sidon e Tiro, no que é o Líbano de hoje. Os vinhos de Biblos foram muito famosos com os romanos, mas foi apreciado muito antes pela família real egípcia. Enquanto carregamentos de vinhos da Anatólia abasteciam o sul de Canaã, no quarto milêmo a.C., vinhos com destino ao Egito eram embarcados no porto de Biblos, ao norte de onde está a atual Beirute. "Viticultores libaneses reivindicam hoje que a sua uva merwah é a uva do vinho bíblino e que ela está relacionada com a cepa Semillon", escrevem Randall Heskett e Joel Buttler em Divine Vintage (Palgrave Macmillan/2012). A merwaah não é usada mais para vinhos de mesa e sim entra na destilação do raki.

A referência à mistura de água ao vinho, na última estrofe aqui reproduzida, revela um costume dos gregos, muito presente nos simpósios, a reunião de homens entorno do vinho, pós-refeição. Filósofos chegavam a discutir em altos termos a melhor proporção da mistura durante esses encontros movidos a vinho. Embriagar-se aos poucos era uma das regras.Para a diluição do vinho depositado em crateras (três crateras para um grupo de 11 bebedores) era usada uma outra vazia chamada hidria. Na média as misturas variavam de uma parte de vinho para uma de água a cinco de vinho para duas de água.

Leia também: No início eram os divinos

sexta-feira, 25 de novembro de 2016

Prix au Sommelier

A Academia Brasileira de Gastronomia (ABG) diplomou nesta quinta-feira (24/11/2016) Tiago Locatelli, head sommelier e diretor do setor de bebidas do restaurante Varanda Grill, de São Paulo, profissional de destaque de 2016, na categoria Prix au Sommelier. A cerimônia foi realizada no Restaurante Cantaloup, com jantar a cargo do chef Waldir Nascimento e seleção de vinhos de Ennio Federico, enólogo, gourmet e membro da ABG (veja menu abaixo). O jantar também celebrou os 15 anos de fundação da Academia Brasileira de Gastronomia. O chef Rafael Costa e Silva, do Restaurante Lasai, Rio de Janeiro, recebeu o Prix au Chef de l'Avenir. Já o Prix Littérature Gastronomique foi para Nilda Luz, escritora de várias obras de gastronomia, premiada por "Brasil, Campeão de Copa e Cozinha". O Prix Multimedia foi conferido a Gabriel Pupo Nogueira, do portal Taste (www.taste.com.br).

segunda-feira, 21 de novembro de 2016

Vinhos para ler, livros para degustar

Vinho “harmoniza” com livro?
Na Itália, a vinícola Matteo Correggia está promovendo a leitura com as suas garrafas - acaba de lançar uma linha de vinhos cujos rótulos são na verdade pequenas brochuras com textos de ficção, amarradas aos vasilhames. O projeto da Matteo Correggia, desenvolvido pela agência de design Reverse Innovation, chama-se Librottiglia (de livro e garrafa) e apresenta histórias curtas de jornalistas, humoristas e escritores de suspense. O mote da Librottiglia é: “um vinho para ler ou um livro para degustar?” O texto Homicído, por exemplo, de autoria do jornalista Danilo Zanetti, é um pequeno giallo (como na Itália são batizados os policiais e os livros de mistério). O suspense de Zanetti vai amarrado às garrafas de um vinho da uva Arneis da região de Roero, província de Cuneo (Piemonte). Durante algum tempo, a Arneis, toda aromática, foi plantada para atrair passarinhos e assim distraí-los dos pés da vizinha mais famosa, a uva Nebbiolo dos nobres Barolo e Barbaresco. A vinícola Matteo Correggia colabora agora com a leitura e o resgate da uva branca Arneis (que quase desapareceu nos anos 1970) e seus vinhos secos e frutados.
 Em São Paulo, um dos mais charmosos sebos da cidade, O Desculpe a Poeira, também está apostando na dobradinha livro-vinho. O Desculpe a Poeira tem à frente o jornalista Ricardo Lombardi, sempre aberto a ideias novas para promover o livro, seus autores e a poesia da leitura (as quotesdesculpeapoeira, a seleção de cartoons da The New Yorker e os papéis “achados” pelo arqueobuquineiro nos meios dos livros, tudo circulando no facebook, são impagáveis). No dia 3 de dezembro agora, o sebo vai receber Daniela Bravin e Cassia Campos, que desde setembro conduzem em São Paulo o projeto Sommelier Itinerante. Elas vão a campo, no caso agora um sebo, para mostrar vinhos surpreendentes garimpados no mercado. Taças a bons preços e livros idem são mais do que um convite à dupla embriaguez. Dia 3 de dezembro, a partir das 12 h. O sebo fica na Rua Sebastião Velho, 28ª, em Pinheiros, SP.
Duas ideias que merecem um brinde!
Veja mais em:
/www.librottiglia.com/
 www.matteocorreggia.com
sebodesculpeapoeira.tumblr.com/

quinta-feira, 17 de novembro de 2016

Vinhedos, livros, encontros

Foi preciso mesmo um amigo cartunista, Jean Galvão (que tem ilustrado com muita perspicácia, humor e carinho os posts de Roda do Vinho), para que eu conhecesse o livro em quadrinhos ‘Os Ignorantes – relato de duas iniciações’, de Étienne Davodeau, lançado no Brasil em 2014, pela editora Martins Fontes. Ao me presentear com o livro, Jean fez um pouco o papel de Étienne, estabelecendo, como o quadrinista francês, conexões entre o mundo dos vinhos e o dos livros. Como Étienne constatou: ‘existem tantas maneiras de fazer um livro quantas de produzir um vinho. Livro e vinho têm o poder, necessário e precioso, de aproximar os seres humanos’.


A HQ Os Ignorantess, de Étienne, mostra o dia a dia do viticultor Richard Leroy, que maneja vinhedos em Rablay-sur-Layon, uma das aldeias ao longo do rio Layon, afluente do Loire. A vinícola de Richard está no coração de Coteaux du Layon, uma Appellation d’Origine Contrôlée (AOC) para o vinho branco doce do Vale do Loire. E aí começa o retrato de um viticultor muito especial: pois Richard Leroy produz grandes vinhos brancos, com a uva Chenin (“a melhor de todas”), mas não são vinhos doces; são vinhos secos. Ele não usa produtos químicos em sua propriedade, adepto que é da biodinâmica. Para a produção dos vinhos doces da região – regra seguida por 95% dos produtores – é permitida a adição de 100 a 180 mg de enxofre por garrafa. O enxofre é comumente usado para a preservação do vinho. Richard usa apenas 20 mg por litro e pensa sempre na inalcançável meta zero.


Para desenhar a sua HQ, Étienne passou muito tempo com Richard Leroy na propriedade de 3 hectares em Rablay. São dois os vinhedos personagens da HQ: Noëls de Montbenault fica no topo da colina, com vista para o rio Layon. Éttienne desenhou Leroy de braços abertos em Montbenault, feliz da vida, conversando com o quadrinista. Nos balões de Leroy lemos: “Ah, cacete, fora de gozação! Você não está sentindo o vento? Estamos em pleno sudoeste! Aqui tem sol e vento o ano todo! Montbenault é um terroir com ventilação impecável. Meu vinhedo está sempre bem, mesmo com sol intenso. No verão ele bate forte nesses pedregulhos, sabia?”


Além de Montbenault, há o Clos de Rouliers, de um hectare, na parte inferior do morro. O solo das duas parcelas, entretanto, como Étienne desenhou, com terra na mão, é composto de riólitos, rocha vulcânica de milhões de anos, um dos orgulhos de Richard Leroy.


 Não foi nada fácil a vida do cartunista nos vinhedos, a começar do importantíssimo ritual da poda das videiras, sempre no inverno, um frio de lascar, em meio até à neve, ritual que vai de janeiro a março. São, afinal, quinze mil pés, encolhidos de frio. O viticultor está, nesse ponto da HQ, com uma providencial barba. (O quadrinista vai reclamar quando chegar a primavera: Richard aparece de cara limpa; ficará mais difícil desenhá-lo. “Sinto que vai sair uma merda. Não quer deixa-la crescer de novo?” A imersão de Étienne nos vinhedos tem sua contrapartida. Richard é levado para conhecer o trabalho da criação e “cultivo” de livros, numa uma editora de quadrinhos. Antes disso, só conhecia mesmo a gráfica que imprimia os rótulos de suas garrafas.


E se Richard levou Étienne para conhecer o trabalho dos toneleiros, os artistas das barricas, dos tonéis, o quadrinista o levou a encontros com artistas geniais, também “envergando carvalho” em suas pranchetas. Na casa de Jean-Pierre Gibrat, Richard ouve o elogio a Moebius (“Mozart e Jimi Hendrix ao mesmo tempo!”) e presta atenção aos dois balões à boca do artista: “ Por que um livro toca – ou não – seus leitores? O que constitui o valor de um autor? É muito misterioso, não é? Gosto dos livros e dos autores que têm identidade forte... e acho que o que constitui nossa identidade são, entre outros, nossos defeitos. Devemos compreendê-los e aceita-los. É como uma cara: um rosto pretensamente sem defeitos não tem graça chateia todo mundo.”

Alguma semelhança quando um enólogo quer fugir do modelo tradicional de sua região?
No início de abril, com sol, mas noites ainda muito frias, viticultor e quadrinista trabalham duro na limpeza dos espaços entre as fileiras de vinhas. O frio pode ser problema para o desenvolvimento dos brotos, como ocorreu na safra de 2008. Étienne conta que não sofre esse stress: trabalha num estúdio onde a temperatura nunca cai para menos de 16 graus. Na HQ e na vida, Étiene provoca Richard a falar sobre seus vinhedos orgânicos. Sim, porque Richard Leroy e sua mulher Sophie não usam nem pesticidas, nem herbicidas, mas recusam-se a usar a identificação de “bio” na sua garrafa. “Quero que as pessoas procurem meus vinhos porque gostam deles”, afirma o Richard da tira, confirmando o da vida real.


 Um dos momentos mais engraçados dessa HQ é justamente quando o desenhista vai a campo para assistir a uma verdadeira aula de biodinâmica, num belo entardecer de junho de 2010. Richard e um vinicultor amigo da vizinhança vão aspergir no terreno a tradicional fórmula “500 P”. “500 P”? O que seria isso? Na verdade, um composto líquido amarronzado que é nada mais do que bosta de vaca que passou o inverno dentro de chifres. Essa prática faz parte da biodinâmica, inspirada nos conceitos antroposóficos do filósofo austríaco Rudolf Steiner (1861-1925), que propõem “uma visão supramaterialista do mundo e das relações entre os seres vivos”. A biodinâmica incorpora os conceitos da agricultura orgânica, acrescentando à rotina dos agricultores considerações sobre os ritmos planetários e lunares e a magia da bosta de vaca. Étienne, como era de esperar, não esconde os traços de seu ceticismo. Richard é desenhado acreditando na fórmula. Mais tarde, convida o quadrinista para outra rodada da “coreografia biodinâmica”, de nebulização, desta vez no sentido de “dinamizar as folhas na direção do céu, na direção da luz”. A receita agora é outra: sílica (em doses mínimas de 3 gramas por hectare). Leroy conta o segredo para a pena de Étienne: “Imagine a sílica como cristais, armadilhas de luz que colocamos sobre as folhas.” Na manhã seguinte, Étienne faz um autorretrato da sua lida: está exausto, aparando e arrancando, com a ajuda de uma espécie de arado, nas trilhas de xistos, o mato que cresceu entre as fileiras.
Étienne se desculpa (só no livro): vai obrigar Richard a largar as vinhas (sem que ele tenha tido tempo de tratá-las antes das tempestades), para algumas horas na rotina de uma editora, em Paris. Na mesa do almoço entre os artistas, a voz de Étienne faz um resumo: “Talvez vinhos e livros também sirvam para isso: se espicaçar tranquilamente.” De volta aos vinhedos, Étienne se entusiasma com um pulverizador, quer desenhá-lo. Para ele, mais parece “um ready made de Marcel Duchamp”. Richard é pragmático: vai usá-lo para tratar o vinhedo com uma calda bordalesa e enxofre, autorizada pela agricultura orgânica.
Com a HQ “ Os Ignorantes” aprendemos tudo isso. Ficamos sabendo também que maio e junho são os meses da desbrota, que consiste em tirar a profusão de brotos, deixando apenas seis em cada pé.

Os desenhos dizem tudo, mesmo para quem conhece a teoria. No fim de junho, é hora de conduzir as videiras para seus caminhos, organizando aquilo que poderia virar uma floresta. E vemos logo as gavinhas se enroscando nos arames. Tudo em ordem. Em agosto, vem a debastação dos parreiras. E, à espera da colheita, Étienne prova os mais diversos vinhos da espetacular adega de Richard: Riesling Rosenlay Auslese Schloss Lieser 1989 e um Château Tropolong-Mondot, Saint-Émilion Grand Cru 1989, por exemplo, para não embebedarmos aqui neste post. É claro que Étienne vai fazer troça de um vinho de Richard. Afinal, esse Noëls Montbenault 2004, “não me diz grande coisa...”. Os dois degustam vinhos enquanto vão dividindo comentários sobre quadrinhos anglo-saxões: “Watchmen”, de Alan Moore e Dave Gibbons, ou “Maus”, de Art Spiegelman, um tanto “bizarro” para Richard (seria uma vingancinha?) No bate-papo, uma conversa sobre resenhas. Richard pergunta: “As modas e o poder da imprensa... vocês também enfrentam isso na HQ?” E Étienne abre o jogo: “Não tanto quanto vocês, decerto... nosso livros são todos “resenhados”. Em HQ, “a verdadeira crítica permanece muito confidencial”


Já tínhamos sabido, nesse ponto, que o viticultor dos secos da uva Chenin, recebera a visita em Montbenault de um representante de Robert Parker Jr., o crítico americano que durante décadas praticamente ditou o rumo do mercado de vinhos finos, especialmente os da França. Richard tem muita reserva em relação ao sistema de pontos de Parker, mas não recusa a visita de degustadores reconhecidos, respeita-os. Até a edição da HQ, os vinhos de Richard Leroy faziam parte do fechado clube dos “mais de noventa de Parker”, ou seja, tiveram nota superior a noventa sobre cem. Étienne deu o devido tom de mistério à degustação do homem de Parker.


 A HQ Os Ignorantes celebra a chegada do mês de setembro, o “mês mais bonito do ano”, quando os vindimeiros freelancers, sazonais, trazem sons para os vinhedos, ao ritmo de “passe o balde” e do balde caindo no cascalho. Há também canções. Richard supervisioniza tudo, vai experimentando como estão as uvas, seu teor de maturação e açúcar. E faz um alerta: não quer ver ninguém colhendo uvas botritizadas, quer dizer, aquelas “podres”, atacadas pelo microfungo Botrytis, que faz o açúcar disparar. Para os vinhos brancos doces da região, a Botrytis é o paraíso. Não para os brancos secos de Richard. Enquanto as uvas vão para os tonéis, Étienne e o vitivinicultor vão para a Bretagna. Depois de um salão de vinhos, se embriagam no Quai-des-Bulles, em Saint Malo, o segundo maior festival de “la bande dessinée et de l'image” da França.


Étiene continua o desenho do mês de setembro: são cenas das barricas, onde as coisas “borbulham, espumam, trabalham, transbordam”. “É o período do ano em que o vinho é um animal. Cheio de energia e ímpeto, enche o lugar com seus humores”. Tudo o que fazem na propriedade Rablay-sur-Layon é “ouvir, cheiras, provar”. Depois será a hora do rótulo, tampa e caixa de papelão... Richard então diz, depois de calcular o tanto de garrafas que conseguiu produzir: “Eu me dou mal todos os anos: antes da colheita digo sim a todo mundo. Depois de um mês, não tenho mais nada para vender.” Étienne tira uma onda: “Em casos desse tipo, nós temos uma palavra mágica: reimpressão!

quinta-feira, 3 de novembro de 2016

El Niño parece que não bebe

A produção mundial de vinho vai cair 5% em 2016, segundo dados divulgados no início desta semana em Bento Gonçalves, na Serra Gaúcha, durante o 39º Congresso da Organização Internacional do Vinho e da Vinha (OIV). Os números fazem parte do relatório anual da entidade sobre a situação da vitivinicultura no planeta. A produção total de 259 milhões de hectolitros é uma das menores em 20 anos. Em 2013, quando o recorde foi estabelecido, chegou a 276,6 milhões de hectolitros (lembrando que 1 hectolitro equivale a 100 litros). Itália e França, que lideram o ranking da produção mundial, produziram menos em 2015. Na Itália são 48,8 milhões de hectolitros, uma queda de 2% em relação à safra anterior. A queda da produção na França foi muito maior: 12%, com 41,9 milhões. Em terceiro lugar no ranking, a Espanha registrará uma produção de 37,8 milhões (+1%) Na sequência aparecem os Estados Unidos (22,5 milhões, + 2%) e, depois, Austrália (12,5 milhões, +5%). Na Europa, a maior queda será em Portugal, 20%, passando de 7 para 5,6 milhões de hectolitros. Os dois maiores produtores da América do Sul também não foram nada bem em 2016. O maior tombo foi registrado na Argentina, que produziu 8,8 milhões de hectolitros, resultado 35% menor do que na safra anterior. No Chile foram produzidos 10,1 milhões, queda de 19%. No Brasil, que ocupa o 22º no ranking, foram produzidos 1,4 milhão de hectolitros, safra 50% menor do que a de 2015. O clima, principalmente o fenômeno do El Niño, foi o vilão dos vitivinicultores na América Latina. A OIV informou ainda que a área plantada com vinhedos em 2015 cresceu para 7,5 milhões de hectares, dado o avanço tecnológico do setor. A Espanha lidera esse ranking de área plantada, com um pouco mais de um milhão de hectares. Os maiores vinhedos espanhóis são das uvas brancas Airén, Palomino, Macabeo e Pardina. Já as tintas mais plantadas são a Tempranillo, Garnacha, Monstrael e Bobal. Em segundo lugar no ranking dos vinhedos vem a China, posição conquistada em 2014, com 830 mil hectares. (A China é o país campeão na produção de uvas passas.) A França vem em terceiro (786.000 hectares), seguida pela Itália (682.000 ha), Turquia (497.000 ha) e Estados Unidos (419.000 ha).

quarta-feira, 17 de agosto de 2016

Desculpe, bebi demais

A carta-padrão a seguir foi redigida no ano de 856 pelos funcionários do Departamento de Etiqueta de Dunhuang, uma região da China. Uma carta que os bêbados arrependidos assinavam já no dia seguinte, antes mesmo da ressaca acabar, ou o quanto antes possível, com um pedido envergonhado de desculpas ao proprietário da casa ou ao anfitrião por terem “passado dos limites”. A pequena carta chinesa é uma das 125 correspondências (com contextualizações e documentais fac-símiles) na coletânea Cartas Extraordinárias, organizada por Shaun Usher e editada pela Companhia das Letras, em 2014. “Ontem, tendo bebido demais, fiquei tão embriagado que passei dos limites; porém nenhuma das palavras rudes e obscenas que pronunciei foi dita por mim em são consciência. Na manhã seguinte, ao ouvir comentários sobre o assunto, dei-me conta do que havia acontecido e quase morri de vergonha, só queria achar um buraco para me esconder. Tudo ocorreu porque minha pequena tolerância não me permite encher o copo até a borda. Humildemente espero que em vossa sábia benevolência não me condeneis por minha transgressão. Logo vou desculpar-me pessoalmente, mas, entrementes, envio-vos esta mensagem para sua bondosa avaliação. Deixando muito por dizer, subscrevo-me, respeitosamente." Cartas Extraordinárias espelham a riqueza das correspondências nas mais diversas esferas, revelando outra camada significante dos relacionamentos e costumes. Cartas entre escritores, políticos, artistas, cientistas e entre pessoas comuns e celebridades, dos mais variados pontos do planeta, das mais diversas épocas. O livro abre com uma aparentemente prosaica carta com o timbre do Palácio de Buckingham de 24 de janeiro de 1960, endereçada ao então presidente dos Estados Unidos Dwight Eisenhower. “Ao ver no jornal de hoje uma foto do senhor diante de uma churrasqueira onde se assavam codornas, lembrei que não mandei a receita dos scones que havia prometido no Castelo de Balmoral, escreve de próprio punho a rainha Elizabeth II.

sexta-feira, 8 de julho de 2016

O Fendant elétrico de Joyce

Num post divertido e inteligente no facebook, o poeta Sérgio Medeiros faz várias conexões a partir de uma notícia que ele diz ter lido na Folha de S. Paulo. “Brasil é o primeiro na América Latina a receber vinho branco suíço”. Autor dos livros Figurantes, Alongamento, Totens, O Sexo Vegetal, A Formiga-leão e Outros Animais na Guerra do Paraguai, entre outros, professor na Universidade Federal de Santa Catarina, Sérgio Medeiros é ensaísta e estudioso da obra de James Joyce. Pois Sérgio lembra das referências que o autor irlandês faz ao vinho suíço Fendant de Sion, a “pale golden liquid”, “urine of an archduchess”, que Joyce bebia a rodo. “White wine is like a electricity”, “urina” que vibra em Finnegans Wake. O Fendant é o vinho branco suíço com boa acidez e não muito frutado indicado para o tradicional fondue. Como lembra Hugh Johnson, em Wine, os principais vinhedos do país seguem o curso do Rhône, da sua nascente em Bernese Oberland, passando pelo Valais e seus penhascos até a costa norte do Lago de Geneva. “Os vinhos do Valais são geralmente conhecidos pelo nome da uva ou também por um nome fantasia. Somente ocasionalmente o nome do lugar é usado. Os vinhos da uva Fendant em Sion são explícitos, apesar de existirem Fendant de Sion não produzidos em Sion. Os de Sion, os mais exportados ao lado dos Johannisberg, são certamente especiais, fermentados com uvas nascidas logo além da fortaleza rochosa de Sion, a partir de onde a planície aluvial se alarga, com mais encostas e mais sol para as cobiçadas frutas.

domingo, 12 de junho de 2016

Não me venham com chá

A recomendação que alegrou o mundo do vinho partiu de uma voz firme, aquela que semanalmente se propaga com surpresas de conteúdo a partir de uma pequena janela do Vaticano e que alcança fiéis em toda Piazza São Pedro. Ao saudar casais que estão juntos há 50 anos, na quarta-feira (8 de junho), o papa Francisco usou o vinho como metáfora, mas também no mais secular dos sentidos. “Não se pode encerrar uma festa de casamento bebendo chá”, pregou com bom humor o líder da Igreja Católica para cerca de 20 mil pessoas. “Seria uma vergonha não ter vinho!”. E elogiando os casais, tratou de dizer que eles eram o “vinho bom da família”. O papa Francisco fez referência a trechos da Bíblia que tratam das bodas de Canaã, ocasião em que se deu o milagre da transformação da água em vinho. E vinho dos bons, servido com audácia anfitriônica no final da festa. Segundo o papa, esse milagre tão reverenciado pelos cristãos “indica a transformação da antiga Lei de Moisés no Evangelho portador da alegria”.

terça-feira, 22 de março de 2016

O salto das rãs modernistas

Os modernistas das letras e das artes fizeram do solar da pintora Tarsila do Amaral, na Alameda Barão de Piracicaba, em São Paulo, um dos redutos para os debates que prosseguiram nos anos seguintes à Semana de Arte Moderna, realizada no Teatro Municipal em 1922. O casal Tarsila e Oswald de Andrade gostava de receber os amigos em casa, mas não dispensava as comemorações e os encontros nas mesas dos restaurantes, verdadeiras extensões do solar. E vários foram os endereços. No seu “diário” sobre os modernistas brasileiros (Movimentos Modernistas no Brasil – 1922-1928/ José Olympio/2012), o poeta Raul Bopp, autor do clássico Cobra Norato, lembra: “quando [Oswald] ganhava alguma causa, das questões complexas de herança, gastava tudo em lautas celebrações na Rotisser ie: faisões e bons vinhos”. Bopp dedica alguns parágrafos ao “restaurante das rãs”: “Uma noite, Tarsila e Oswald resolveram levar o grupo que frequentava o solar a um restaurante situado nas bandas de Santa Ana. Especialidade: rãs. O garçom veio tomar nota dos pedidos. Uns queriam rãs. Outros não queriam. Preferiam escalopini... Quando, entre aplausos, chegou um vasto prato com a esperada iguaria, Oswald levantou-se e começou a fazer o elogio da rã, explicando, com uma alta percentagem de burla, a teoria da evolução das espécies. Citou autores imaginários, os ovistas holandeses, a teoria dos ‘homúnculos’, os espermatistas etc. para ‘provar’ que a linha de evolução biológica do homem, na sua longa fase pré-antropoide, passava pela rã – essa mesma que estávamos saboreando entre goles de Chablis gelado.” Como sabiam das coisas da França esses modernistas! Prato tradicional cozinha francesa (não à toa os ingleses chamavam os soldados de Napoleão de frogs), as rãs, ou melhor, “les cuisses de grenouilles” devem ser consumidas sempre com vinhos brancos secos. Para ficar na adega francesa: Chablis, Côte de Beaune, Beaune, Monthelie, Saint-Aubin, Meursault, Santenay, Puligny-Montrachet, Rully, Givry, Mercurey, Mâcon Villages, Pouilly-Fuissé, Pouilly-Vinzelles, Saint-Veran Beaujolais, Quincy, Reuilly, Menetou-Salon, Sancerre, Coteaux du Giennois, Savennières, Anjou Blanc, Riesling da Alsácia, Alsácia Sylvaner, Pinot Blanc Alsace, Graves, Jurancon sec. A lista foi preparada pelo chef Simon, que assina no Le Monde, para o site ecce vino. Simon diz que, como o molho de alho é acompanhante frequente das perninhas de rã, os tintos devem ser evitados. Outro gole de Chablis. E Tarsila volta às rãs. “– Em resumo, isso significa que, teoricamente, deglutindo rãs, somos uns... quase antropófago. A tese, com um forte tempero de blague, tomou amplitude. Deu lugar a um jogo divertido de ideias. Citou-se logo o velho Hans Staden e outros clássicos da Antropofagia: – Lá vem nossa comida pulando. A Antropofagia era diferente dos outros menus. Oswald, no seu malabarismo de ideias e palavras, proclamou: – Tupy or not tupy, that’s the question. Alguns dias mais tarde, o mesmo grupo de poetas e pintores do restaurante das rãs reuniu-se no palacete da alameda Barão de Piracicaba, agora para batizar um quadro de Tarsila: ‘O Antropófago’, e para pensar num movimento “genuinamente brasileiro”, apesar das rãs no prato, diante da parca safra literária, posterior à Semana de 22. O salto das rãs para o Manifesto Antropofágico.