segunda-feira, 30 de julho de 2007

Bons de faro

Bella ficou famosa e é o orgulho de seus donos. A Golden Retriever da família Trefethen foi escolhida o cão do mês pelo site Wine Dogs da editora australiana Giant Dog, especializada em livros sobre cães que "guardam" vinícolas no Novo Mundo. Bella, de 6 anos, adora roubar rolhas e atazanar esquilos. Mas tem também a missão de receber os visitantes dos vinhedos Trefethen, no sul do Vale Napa, Califórnia. Depois de um livro de sucesso com os cães de 150 vinícolas da Austrália e Nova Zelândia, uma edição com fotos de 450 animais de estimação de 300 vitivinicultores americanos foi lançada na propriedade Rubicon, do cineasta Copolla. Uma das pérolas do Wine Dogs é o vídeo no qual o famoso "farejador" e crítico americano Robert Parker Jr. aparece brincando com seu bulldog Buddy. Com bom humor, Parker preparou para os editores uma escala de classificação de cães, de 100 a 50, como aquela que ele usa para classificar os vinhos que degusta. Buddy certamente receberia 96-100: "um extraordinário cachorro, com caráter profundo e complexo que mostra todas as qualidades esperadas de um clássico cão de sua raça". Um animal de 60-69 seria um "cão de média baixa com notáveis deficiências, como excesso de enxofre, falta de obediência e talvez aromas e gases indecentes." Já madame Nyam Nyam, uma cadela astróloga, faz previsões "lendo" um decantador de cristal. Cães de outros continentes, como Merlot, que "cuida" da Fazenda Cucha-Cucha, das Casas de Giner, no Chile, aguardam os editores australianos. À espera também um ganso bravo que faz a vez de cão de guarda nos vinhedos de Nino Bronda, em Nizza, no Piemonte.

http://www.winedogs.com.au/default.aspx

http://www.trefethen.com/

DC 15/12/2006

Menino francês

O fotógrafo Henri Cartier-Bresson (1908-2004) pontuou uma de suas últimas entrevistas – ao jornalista David Friend, da Vanity Fair –, com vinho branco de Bordeaux. Taças bem servidas, brindava: "À anarquia!" Era março de 2003 e a revista celebrava a abertura da Fundação Cartier-Bresson, em Paris. Com a defesa do anarquismo, ele trazia para a discussão temas como a liberdade de fotografar e uma ética própria, na qual o instinto triunfa sobre a razão. Antes da fotografia, estudou pintura com o cubista André Lhote e caiu na farra com surrealistas. Quase morreu de febre numa jornada pela África. Foi também assistente do cineasta Jean Renoir. Soldado francês na Segunda Grande Guerra, irritava os nazistas com uma colorida provocação cultural: "Nós não podemos trabalhar sem vinho tinto!", dizia aos alemães. Conseguiu fugir a tempo de documentar a libertação de Paris. Em 1947, ajudou a fundar a Magnum, a primeira agência de fotojornalismo, e passou décadas viajando pelo mundo. Sair para a rua, Leica na mão, era o que mais dava prazer a Cartier-Bresson na aventura para capturar o "momento decisivo", aquele no qual, ele dizia, a harmonia visual e a expressão humana se encontram. Seus flagrantes da Paris dos anos 30/40 são memoráveis ao deixar de lado clichês para "reconstruir intelectualmente a cidade". É disso que se trata a imagem do menino todo pimpão carregando preciosas garrafas de vinho.

http://www.henricartierbresson.org/

http://digitaljournalist.org/issue0412/friend.html

DC 8/12/2006

À mesa com Cavour

A unificação italiana passou por uma das mesas do restaurante Il Cambio, de Turim, e foi regada a Sizzano, vinho 40% Nebbiolo, uma das uvas mais nobres cultivadas nas colinas da região do Piemonte. Num dos cantos do restaurante, invariavelmente na mesa com vista para o Palazzo Carignano, sede do parlamento, sentava-se o conde Camillo Benso de Cavour (1810-1861). Primeiro-ministro piemontês à época do rei Vittorio Emanuele II, ativista central do Risorgimento italiano, Cavour estendia seus almoços horas a fio e monitorava o movimento de “visitantes” do parlamento pela janela. Quando sua presença no palácio era requerida, um lenço branco era acenado a partir do balcão. “Era a sucursal do parlamento”, descreve o jornalista Paolo Massobrio, da revista Meridiani. Il Cambio é até hoje um restaurante luxuoso e mítico, com espelhos, cristais e garçons impecáveis capazes de emprestar com elegância um paletó adequado para um visitante desavisado sobre a história e a pompa do lugar. São três ambientes: duas saletas, com 20 e 30 lugares, e o salão Cavour, para até 80 comensais. Por seus veludos passaram muitos políticos célebres como Garibaldi e Mazzini, também artífices da unificação da Itália. A carta de vinhos da casa privilegia os rótulos do Piemonte e mantém tanto o Sizzano quanto vinhos das colinas de Langhe e do Roero, também preparados com Nebbiolo. No cardápio, o prato rotineiro do estadista: a “Finanziera”, de preferência com galinha d’angola. Cavour não dispensava aspargos frescos, regados com gemas de ovos cruas, nem o pernil e os filettini de vitelo com bagna caoda.


http://it.wikipedia.org/wiki/Sizzano_(vino)

http://www.nndb.com/people/514/000092238/

DC 1/12/2006

A heresia dos chips

Uma prática pouco ortodoxa deixa os mestres barriqueiros franceses de cabelo em pé. Isso sem falar no desgosto que provoca nos enófilos puristas. Vinicultores da Austrália e de outros países do Novo Mundo têm substituído a guarda dos vinhos em tonéis de carvalho, amadeirando-os com chips – lascas da nobre madeira misturadas nos tanques de fermentação. Há vinícolas apelando até para receitas com carvalho em pó. Outras não titubeiam em retostar a barrica, na tentativa de reavivar suas qualidades e garantir-lhe uma sobrevida. Os produtores de Bordeaux e de toda a França torcem o nariz, acham isso tudo uma heresia. E discorrem sobre a ciência do carvalho na estabilização dos taninos e os amargores decorrentes de uma madeira de baixa qualidade. Os heterodoxos argumentam: fogem do alto custo da barrica – uma padrão não sai da tonnellerie por menos de 800 euros. Os tonéis são fabricados há séculos por uma estirpe de artesãos como recipientes de guarda e transporte do vinho. A procura pela bebida com toques de madeira é mais recente, tem três décadas, o que transformou o barril em peça estratégica dos enólogos. Estes é que dominam a alquimia da maturação, escolhendo a dedo natureza e idade dos tonéis. Há até mesmo aqueles que não dispensam barris novos a cada safra. Disputam o mercado barricas americanas e francesas, estas trabalhadas com árvores plantadas para a indústria naval na época de Napoleão Bonaparte.

http://www.thewinedoctor.com/advisory/technicaloak.shtml

http://www.francoisfreres.com/

DC 24/11/2006