terça-feira, 1 de maio de 2012
Tributo a Ronald Searle
Os esnobes do mundo do vinho já tiveram como algoz o cartunista Ronald Searle, um dos grandes artistas gráficos britânicos, que morreu na virada do ano, aos 91 anos, e continua ainda hoje recebendo homenagens pelo mundo. Nascido em Cambridge, Searle morreu em Draguignan, Haute Provence, região de belos vinhedos, onde vivia desde 1975, cercado por uma adega medieval com 500 garrafas, bebidas sem pretensão, como parte do ritual à mesa. O humor cáustico do artista, em publicações de prestígio como Life, The New Yorker e Le Monde, atingia toda a classe política, os costumes ingleses (St. Trinian's fez sucesso ao criticar o sistema educacional inglês) e, ultimamente, as mazelas do mundo globalizado. Duas coleções de desenhos especiais (Something in the Cellar e Illustrated Winespeak) satirizam os críticos de vinho. Segundo ele, com seu linguajar cifrado, o crítico faz tanto mal ao mundo do vinho quanto à própria língua. Os desenhos publicados nesta página foram inspirados em jargões autênticos de degustadores de plantão.
http://ronaldsearle.blogspot.com.br/
DC de 30/março/2012
Lagostins e Verduzzo de Piave
Nem só de pão e vinho vivem as últimas ceias. Na representação da cena bíblica na Igreja de São Jorge, em San Polo di Piave, cidadezinha nas colinas ao norte de Veneza, província de Treviso, os lagostins estão salpicados na comprida mesa comandada por Jesus. Esses crustáceos de vermelho intenso estão ali no afresco de Zanino di Pietro porque a região sempre teve na iguaria um de seus pratos de resistência e abundância. No referencial Food, misto de dicionário e história da gastronomia, o jornalista americano Waverly Root chega a elevar San Polo de Piave (banhada pelas águas geladas do rio Piave que corre para o Adriático) como "capital do lagostim". Na "Última Ceia" pintada por Zanino, em 1466, é indiscutível a importância iconográfica do vinho, servido entre os apóstolos. São cinco de vinho tinto, uma de branco. E mais uma vez o pintor mostra que foi inspirado pelos costumes locais, principalmente em relação ao vinho branco da cena. Piave desde sempre foi uma região vitivinícola. Até hoje os tintos da uva Raboso, ricos e agressivos em taninos, são produtos de distinção regional. Dentro do mesmo registro campanilista, de amores e orgulhos locais (a campanile, o sino da igreja da cidade como símbolo), o vinho branco servido por um dos apóstolos bem poderia ser um Tocai ou Verduzzo, conhecidos de Zanino di Pietro, pintor da escola veneziana. A análise é de John Variano em original ensaio em Tastes and Temptations – Food and Art in Renaissance Italy (University of California Press/2009). A uva Verduzzo é muito cultivada na província de Treviso. Os produtores locais explicam que as origens sardas do vinhedo parece ser diferente do Verduzzo Friulano (região Friuli-Venezia-Giulia), tido como antiquíssimo e nativo do Friuli. O atual vinhedo de Treviso se expandiu sobre a margem esquerda do rio Piave a partir do início do século XX.
DC de 13/004/2012
Nicolas, depuis 1822
Quem flanar por Paris à procura de ... Paris, vai certamente encontrar uma dessas lojas com fachada cor de vinho e um letreiro em amarelo: Nicolas. E não à toa. A casa de negócios de vinho, estabelecida no centro de Paris desde 1822, "um ano após a morte de Napoleão", está hoje em mais de 500 pontos na cidade e redondezas, sem contar as mais de 80 lojas que atravessaram o Canal da Mancha a partir de 1989, para conforto dos ingleses. Hoje, a cadeia pertence ao Grupo Castel, iniciado com negociantes e engarrafadores de Bordeaux, no final dos anos 40, e atualmente um dos maiores produtores de vinho do mundo. O jornalista e escritor Frank J. Prial, colunista de vinhos do NYTimes durante 25 anos, escreveu um texto nostálgico em Remembrances of Things – Paris – Sisty Years od writing from Gourmet (Modern Library Food/2005) em que lembra que, até os anos 60, os pequenos triciclos motorizados da Nicolas cruzavam a cidade de cima a baixo entregando vinho, da mesma maneira como o leite era entregue no Brasil, por exemplo. Mas já muito diferente da Paris de Emile Zola (1840-1902). Comportamento dos tempos do autor de O Ventre de Paris (romance protagonizado por um mercado, Les Halles), ainda nos anos 70 uma lojinha na Rue San Paul, anunciada com o cartaz Vins Du Sud-Ouest, vendia seu vinho em bombas como as de um antigo posto de gasolina. Os números em cada bomba (11, 11,5 e 12) indicavam a dosagem alcoólica de cada vinho. Prial chegou a comprar um pouco de vinho branco para preparar em casa moules marinière. A Nicolas na verdade foi a primeira casa a vender o vinho não por volume, mas em garrafas. A casa também tem no currículo o lançamento do Beaujolais Nouveau em Paris e – o mais importante – sempre deu espaço na sua lista de vinhos aos Vin de Pays, selecionados entre os pequenos produtores que trabalham com qualidade e boas uvas. As ações comerciais da Nicolas ao longo de sua trajetória quase bicentenária envolveram inúmeros artistas e cartazistas. Algumas das peças que lembram um pouco da sua história foram reunidas no livro Nectar as Nicolas (Editions Herscher). Num dos cartazes aparece o emblemático triciclo: "Livraisons rapides à domicile". No site da casa é possível encontrar os catálogos dos vinhos comercializados desde 1928.
DC de 20/04/2012
Na Hungria, com Neruda e Asturias.
Nunca a comida e os vinhos húngaros foram tão exaltados quanto nas páginas de um livro escrito a duas mãos por Miguel Angel Asturias e Pablo Neruda. Comiendo en Hungria (Lumen/Barcelona/1974) é uma edição em espanhol, ilustrada por artistas húngaros, com toda a vivacidade e cores da páprica, do gulash e dos vinhos tintos e doces da região – obra preciosa para quem aprecia livros de gastronomia. O guatelmateco e o chileno visitaram a Hungria (não só Budapeste, mas várias cidades “das planuras”) no começo dos anos 1970 e encontraram na culinária a alma do país. Na Hungria, “confluência dos pimentões e da páprica”, não se pode ignorar as sopas, os repolhos "em toda a sua arte", os pescados finos do lago Balaton... Mesa que não dispensa os bons vinhos brancos da terra e os doces Tokay, “fogo de âmbar, luz de mel, caminho de topázio”. E há mais “fulgores da Hungria” nas odes dos dois escritores. Um dos vinhos incensados, o Riesling de Badacsony, sai do solo vulcânico perto do Balaton. Neruda defende a degustação de toda escala de valores do Tokay, "da seca transparência à delirante doçura". Na relação do poeta, também "Medoc de Villány, Tokay Furmint, Aszú, Szamorodini transparentes e sorridentes, doces ou airados, chamas de honra que alargam a vida, como o vinho de Somló”. Asturias fez um brinde à centenária e rústica taverna Híd, no coração de Buda, onde o prosista húngaro Gyula Krúdy (1878-1933) tomava seus vinhos e, arregaçando as mangas da camisa, entregava-se ao prazer de um assador de carnes. Nos salões elegantes do café-restaurante Hungaria, construção art nouveau do início do século XX, outro encontro dos dois esacritores com a boa gastronomia: especialidades húngaras, como os cogumelos empanados, frango recheado, medalhões assados em fogo vivo, depois servidos sobre vários tipos de pimentões, tudo recoberto com “pörkölt” (um molho à base de cebolas, tomates, páprica e vinho tinto). Essas gloriosas constelações da cozinha local “pedem rios de vinhos", justifica-se Neruda, “vinhos de meio-dia e de crepúsculo”.
DC de 27/04/2012
Assinar:
Postagens (Atom)
