Poetas e calígrafos chineses de várias dinastias têm sua história e a de suas obras associadas aos prazeres do vinho. "Como todas as culturas da terra, a refinada cultura chinesa buscou os meios para conseguir que a mente pudesse liberar-se da rigidez das convenções, da lógica racional e da limitação do cotidiano para vagabundear pelo mundo do imaginário", analisou Jacques Pimpaneau no livro Celebración de la embriaguez (José J. de Olañeta, editor/2004) – ensaio no qual costura suas reflexões com a poesia dos mestres chineses. Num primeiro momento, drogas foram usadas para essa desejada viagem de inspiração. Com o tempo, o consumo de vinho tomou o seu lugar. Não existe na China uma palavra específica para vinho – jiu vale tanto para fermentados quanto para licores. E na maioria dos casos está associada a vinho de cereais e de frutas, inclusive de uva. Taoísta, Li Bo (701-762), o "poeta embriagado", achava que só a bebida era capaz de levá-lo a lugares frequentados por imortais (para Li Bo lugares melhores do que os tomados por sábios), meio de escapar das limitações da condição humana. "Três taças e tu estás em contato com o grande Tao; uma vasilha inteira e estás em harmonia com o Universo", escreveu. Tao Yuanming (372-427) explicou em versos porque gostava do vinho: "Bebo uma taça e minhas preocupações desaparecem/Bebo outra e até me esqueço do céu". Tao Yuanming adicionava pétalas de crisântemos a seu vinho para perfumar a bebida. Su Dongpo (1036-1101), poeta mas também pintor, calígrafo e ensaísta, preparava ele próprio seu vinho de arroz. Su Dongpo e Zhang Xu, outro mestre calígrafo, antes de "desenhar" nos finos papéis, brindavam com taças de vinho em verdadeiras performances. Durante a dinastia Tang (618-907), vinho de uva aparece num poema de Wang Han: "Um bom vinho de uva em uma taça brilha à noite./Tenho desejo de beber, mas o alaúde me incita a montar no cavalo (...)" Durante as movimentações na Ásia Central, os chineses encontraram vinhedos e aprenderam a fazer bom vinho, técnica que os locais haviam herdado de civilizações do Oriente Próximo. Esse vinho de uva caiu em desuso durante vários séculos, até voltar com os missionários cristãos. Mais tarde, os soldados sob as ordens de Napoleão III chegaram à França, depois da campanha da China, impressionados com os rituais: antes do primeiro trago, brindavam com a expressão "Chín, chín! (Qing, Qing!) – onomatopéia do tilintar de taças, o hoje universal "tim-tim", nas também sinônimo
de felicidade. Em dose dupla, muita felicidade.
DC de 02/07/2010
sexta-feira, 2 de julho de 2010
sexta-feira, 25 de junho de 2010
Um Madeira pela Independência
George Washington e Thomas Jefferson brindaram a Declaração de Independência dos Estados Unidos, em 4 de julho de 1776, com cálices de Vinho da Madeira – uma pista de como a bebida fortificada, produzida com uvas das "violentas" escarpas da ilha portuguesa, teve presença marcante na sociedade americana. Em Oceans of Wine (Yale University Press/2009), o autor David Hancock, historiador da Universidade de Michigan, analisa o impacto do vinho Madeira na história do comércio transatlântico, entre 1640 e 1815, e mostra como esse vinho ajudou a moldar o gosto americano. Hoje 65% das garrafas produzidas na Madeira – 3,2 milhões de litros em 2009 – foram exportadas para a União Européia. Estados Unidos e Japão também aparecem na lista de bons consumidores. O livro de Hancock recebeu o Gourmand World Cookbook Awards de 2009 como o melhor livro sobre vinho europeu. E venceu também o Prêmio Louis Gottschalk 22009-2010, patrocinado pela American Society for Eighteenth-Century Studies. Oceans of Wine foi celebrado por pequisadores da história da alimentação e do período colonial porque examina documentos nunca antes estudados, reconstruindo a vida de produtores, distribuidores e consumidores. E o mais interessante: desmonta as interpretações tradicionais “que identificam Estados e Impérios” como força motora do comércio do período. No retrato de Hancock o mercado aparece auto-organizado e descentralizado. O vinho da Madeira tem uma história de mais de 500 anos, com a introdução da uva Malvasia de Creta. O arquipélago passou a exportar seu vinho rapidamente, logo 25 anos depois de descoberto, no início do século XV. Já nos seus primórdios, a vinha era um dos integrantes da sua chamada “trilogia agrária”. O trigo e a cana eram os outros dois trunfos. Nos séculos XVIII e XIX o Funchal, na costa sul da principal ilha, era considerada a Cidade do Vinho, beneficiada em urbanização e embelezamento arquitetônico graças às riquezas do Madeira e às mãos dos exportadores ingleses. Muitos deles aprenderam a gostar do Madeira em solo americano. Com a Independência, de volta à Inglaterra, levaram na bagagem o gosto pelo Madeira. Hoje a produção com a pioneira Malvasia é pequena. A maior parte das vinícolas usa a Sercial, Verdelho, Boal e Tinta Negra.
http://www.vinhomadeira.pt/Home-1.aspx
http://www.madeira-live.com/pt/wine.html
Diário do Comércio de 25/06/2010
http://www.vinhomadeira.pt/Home-1.aspx
http://www.madeira-live.com/pt/wine.html
Diário do Comércio de 25/06/2010
sexta-feira, 18 de junho de 2010
Randall Grahm, transbordante
O prometido livro do vinicultor californiano Randall Grahm, Been Doon So Long (University of California Press/2009), é tão transbordante quanto seu autor. Reúne ensaios filosóficos sobre a produção do vinho – ele mesmo já se definiu como philosophe manqué – e textos de palestras que fez para plateias especializadas ao redor do mundo, além de sua cuidada e irreverente produção ficcional sobre o tema: “viterature”, poesia e até óperas. Grahm foi o mais autêntico dos rhonerangers, como são conhecidos os americanos que cultivam à francesa cepas clássicas do Vale do Rhône, mourvèdre e grenache. A vinícola Boony Doon foi fundada em 1983, criou vinhos cultuados mundo afora como o Cardinal Zin e Big House. Hoje Grahm “se livrou” desses vinhos que começaram a ser produzidos em escala e está mergulhado em vinhedos da uva riesling nas escarpas do rio Columbia, em Washington. É defensor intransigente do terroir e da qualidade das uvas na equação do bom vinho. É também um dos craques do vinho biodinâmico.
O crítico inglês Hugh Johnson escreve na apresentação do livro que o vinho também precisa de palavras em seu caminho entre ser notado e – aqui a melhor parte – bebido. Conhecemos bem as palavras viciadas da crítica de uma nota só e seu jargão excludente. Por isso o elogio rasgado do inglês às palavras originais de Grahm, um escritor que, mais do que tudo, está envolvido até a alma na produção de vinhos – a paixão do viticultor encharcando a pena do escritor. Grahm levou bom humor a uma indústria que se fechava em seriedades. Seus rótulos fora do comum, alegres, foram os primeiros passos. Grahm "reescreveu" textos clássicos a partir de uma verve satírica. Em "Cheninagin’s Wake – James Juice Takes de Wine Train", de 1994, uma de suas primeiras incursões literárias, Grahm traz o vinho e a uva chenin (a roussane a a marsanne como coadjuvantes) para o terreno de James Joyce, o celebrado Finnegans Wake e todo seu experimentalismo. “Chenin again, began again! Slake. Roussanity, marsannemanme! Till sousendsthee. Mls. The keys to. Swallowed! Oy vay a Rhône a lapse a loved a long the”. Em "Don Quijones, the Man for Garnacha", a brincadeira (séria, como assinala Johnson) é com Dom Quixote. No texto de Grahm, a crítica aos rankings de vinhos aparece no dia a dia de Don Quijones. No lugar de viajar em textos de cavalaria, está mergulhado em guias de vinho. Don Quijones é inclusive assinante da newsletter bimensal Avocado del Vino (uma referência ao polêmico crítico americano Robert Parker Jr. e sua revista Wine Advocate) e da “risível” El Gran Inquisidor del Vino (Wine Spectator?), capazes de provocar, como na realidade, uma mistura de “raiva e fascinação” no herói. Em "Da Vino Commedia: The Vinferno", a mais ambiciosa das "adaptações", com os pés nos lagares de Dante Alighieri, uma alegoria “al dente” escrita em plena negociação de venda de parte da vinícola e todas as angústias do negócio. Entre os vinhos e vinhedos do Grahm da ficção, sua Vinthology, encontramos também Franz Kaffeika e J.D.Salignac, este com o autobiográfico A Perfect Day for Barberafish.
https://www.bonnydoonvineyard.com/biography/
Diário do Comércio de 18/06/2010
O crítico inglês Hugh Johnson escreve na apresentação do livro que o vinho também precisa de palavras em seu caminho entre ser notado e – aqui a melhor parte – bebido. Conhecemos bem as palavras viciadas da crítica de uma nota só e seu jargão excludente. Por isso o elogio rasgado do inglês às palavras originais de Grahm, um escritor que, mais do que tudo, está envolvido até a alma na produção de vinhos – a paixão do viticultor encharcando a pena do escritor. Grahm levou bom humor a uma indústria que se fechava em seriedades. Seus rótulos fora do comum, alegres, foram os primeiros passos. Grahm "reescreveu" textos clássicos a partir de uma verve satírica. Em "Cheninagin’s Wake – James Juice Takes de Wine Train", de 1994, uma de suas primeiras incursões literárias, Grahm traz o vinho e a uva chenin (a roussane a a marsanne como coadjuvantes) para o terreno de James Joyce, o celebrado Finnegans Wake e todo seu experimentalismo. “Chenin again, began again! Slake. Roussanity, marsannemanme! Till sousendsthee. Mls. The keys to. Swallowed! Oy vay a Rhône a lapse a loved a long the”. Em "Don Quijones, the Man for Garnacha", a brincadeira (séria, como assinala Johnson) é com Dom Quixote. No texto de Grahm, a crítica aos rankings de vinhos aparece no dia a dia de Don Quijones. No lugar de viajar em textos de cavalaria, está mergulhado em guias de vinho. Don Quijones é inclusive assinante da newsletter bimensal Avocado del Vino (uma referência ao polêmico crítico americano Robert Parker Jr. e sua revista Wine Advocate) e da “risível” El Gran Inquisidor del Vino (Wine Spectator?), capazes de provocar, como na realidade, uma mistura de “raiva e fascinação” no herói. Em "Da Vino Commedia: The Vinferno", a mais ambiciosa das "adaptações", com os pés nos lagares de Dante Alighieri, uma alegoria “al dente” escrita em plena negociação de venda de parte da vinícola e todas as angústias do negócio. Entre os vinhos e vinhedos do Grahm da ficção, sua Vinthology, encontramos também Franz Kaffeika e J.D.Salignac, este com o autobiográfico A Perfect Day for Barberafish.
https://www.bonnydoonvineyard.com/biography/
Diário do Comércio de 18/06/2010
segunda-feira, 14 de junho de 2010
África do Sul, sem conditum
O crítico inglês Hugh Johnson escreveu que o grande naturalista Plínio, o Velho (23-79 d.C.) recomendava aos viajantes da Roma Antiga carregarem na sua bagagem um frasco de conditum, mistura de mel e pimenta capaz de mascarar o sabor de vinhos intragáveis que certamente encontrariam pelo caminho. John e Erica Platter, autores de Africa Uncorked – Travels in Extreme Wine Territory (The Wine Appreciation Guild/2002) fizeram de uma garrafa de licor de cassis o seu conditum. Eles cruzaram a África para retratar a cultura da vinha nos seus mais inóspitos pontos: do Marrocos, Argélia e Egito, no Norte, a Zimbawe, Namíbia e África do Sul, no outro extremo, cruzando outra série de países durante a jornada. Pobreza e descuido, associados às guerras políticas e de religião, não faltam no livro de viagem. Somente na África do Sul, que os Platter conheciam muito bem – trabalharam ali durante mais de 20 anos –, talvez tenham dispensado o licor de cassis. Milhares de rótulos, de centenas de vinícolas, dão pujança à indústria sul-africana e novos empreendedores derrubam antigos perímetros, em avanço que atende à demanda da globalização. Há vinhedos até nos campos de diamante do país, a mais de 1.000 quilômetros do tradicional coração da viticultura local. No Cabo, alguns produtores elaboram vins de soleil, valorizando a natureza climática da região. Outros apostam na uva pinotage, sua marca registrada. E muitos dão o toque local a cepas internacionais, com destaque para a cabernet sauvignon e a shiraz. Duas das mais qualificadas importadoras brasileiras, Mistral e Vinci, oferecem vários rótulos imperdíveis da produção sul-africana. Os vinhedos chegaram ao sul da África com a Companhia Holandesa das Índias Orientais. O comandante Jan Van Riebeeck cravou a sua bandeira em Table Bay, em 1652. Não tardou para que chegassem mudas de hanepoot (denominação local da muscat d'Alexandrie) e steen (chenin blanc) para o indispensável vinho. Hoje a África do Sul tem mais chenin que o próprio Vale do Loire, a terra primeira da variedade. “Hoje [2 de fevereiro de 1659], graças a Deus, pela primeira vez fizemos vinho com uvas do Cabo...”, escreveu Riebeeck no seu diário. Era um vinho branco, doce, que décadas depois encantaria o mundo como vinho de Constantia (Napoleão Bonaparte não passava sem um cálice). Com Simon Van der Stel, sucessor de Riebeeck, a colônia ganhou um modelo europeu de produção e de arquitetura – marcas deixadas em Constantia e Stellenbosch, ainda hoje respeitáveis áreas vitivinícolas. E se o primeiro vinho de prestígio foi o Moscatel, o de maior originalidade nasceu das mãos de Abraham Izak Perold (1880-1941), então professor da Universidade de Cape Town. Como primeiro professor de Viticultura da Universidade de Stellenbosch, cruzou a pinot noir, a uva dos Borgonha, e a resistente cinsault. Conseguiu, em 1924, sementes que foram plantadas na residência oficial. Ao ser transferido de Stellenbosch, Perold deixou a experiência para trás. Tempos depois, outro mestre, Charlie Niehaus, passeando de bicicleta perto da antiga casa de Perold, notou jardineiros em sua azáfama. E conhecedor da pesquisa com as sementes, salvou as mudas crescidas da sanha dos carpidores. Nascia a pinotage, que teve seu papel ampliado com a retomada da viticultura pós-Apartheid, nos anos 90. Uma primeira história da pinotage já foi escrita pelo entusiasta e estudioso inglês Peter May. Em Pinotage – Behind the Legends of South Africa’s Own Wine (Inform & Enlighten/2009), May dá cor à descoberta de Perold, decifrando segredos escondidos em cadernetas de antigos cientistas do Cabo.
Diário do Comércio de 11/06/2010
Diário do Comércio de 11/06/2010
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