Na ode que fez à Grécia e todas as suas magnitudes, o escritor norte-americano Henry Miller (1891-1980) não deixou de escrever um elogio ao vinho Mavrodaphne de Patras, um doce tinto muito especial preparado no Peloponeso. E também algumas linhas à retsina, o ancestral vinho misturado à resina, consumido nas tavernas gregas ao ritmo dos komboloi (contas em colar manipuladas para matar o tempo). A degustação de um Mavrodaphne ganhou um mar de metáforas. É o vinho que "desliza pela garganta como vidro fundido, incendiando as veias como um líquido pesado e vermelho que expande o coração e a mente". Ao prová-lo, a sensação é de peso e leveza ao mesmo tempo. "Sente-se ágil como um antílope e, no entanto, incapaz de se mexer. A língua se liberta de suas amarras, o paladar se engrossa de forma agradável, as mãos descrevem gestos largos e soltos, tais como se gostaria de obter com um lápis grosso e macio. Sente-se com vontade de descrever tudo em vermelho-sangue ou pompeiano com respingos de preto carvão e negro-de-fumo" (a tradução é da jornalista Cintia Shimokomaki) . Henry Miller (foto abaixo) visitou a Grécia em 1939, antes da eclosão da Segunda Guerra Mundial, e o relato dessa viagem se transformou em um de seus livros preferidos, O Colosso de Marússia, no qual reflexões apaixonadas sobre a vida comum se misturam a abordagens metafísicas mais sutis. "Na Grécia, as rochas são eloquentes: os homens podem estar indo para a morte, mas elas, nunca". Em vários momentos da obra, Miller apresenta o espírito do lugar ao descrever seus encontros e suas conversas com George Katsimbalis, um dos grandes poetas modernos do país. Katsimbalis é o colosso que chegou ao título do livro, o grego trágico, carregado de heranças, para quem a retsina é verdadeira panacéia. Faz bem para o pulmão, fígado, intestinos, para a mente, como todos os gregos parecem gostar de pensar. Nesse livro de Miller, Dionísio é muito mais forte que Eros.
DC de abril de 2009
segunda-feira, 20 de abril de 2009
Bramaterra no Bastian Contrario
O restaurante Bastian Contrario, numa das estradinhas da colina de Turim, a que leva a Moncalieri, é conhecido como “Il Re degli antipasti”. São 69 travessas e caçarolas contadas na bancada, como num museu vivo de sabores. Mais do que uma competição de antepastos, entretanto, trata-se da defesa intransigente da tradição piemontesa das entradas, preparadas ao rigor de receitas seculares. O Bastian é slow food desde que nasceu: mesa reservada é mesa para uma noite inteira de delícias, sem pressa, combinadas com os vinhos do Piemonte. Tanto os espumantes de Asti, que amaciam o ancestral calze di seta (fígado de porco com “meias” de gelatina), como os tintos jovens e rústicos que caem bem tanto com o talharim ao tartufo como com o gnochetti ao molho de tomate e manjericão, ou ainda o stracotto d’asino e mesmo polenta acompanhada com geléia de mirtilo. Um dos tintos de predileção no Bastian Contrario é o Bramaterra, produzido em sete cidadezinhas (Masserano, Brusnengo, Curino, Sostegno, Villa del Bosco, Lozzolo e Roasio) perdidas nas províncias de Biella e de Vercelli. O Bramaterra que é DOC desde 1979 carrega traços do mesmo vinho produzido na região no final do século XI, conhecido como Vino di Masserano. É hoje uma mistura de uvas Nebbiolo (de 50% a 70%), Croatina, Vespolina e Bonarda. O produtor Barboni Lodovico, que alimenta o Bastian Contrario, mantém suas videiras em 4 hectares, paixão e teimosia em terra qualificadíssima para a produção de arroz. A Azienda Agricola La Ronda fica em Roasio, Vercelli. Além do Bramaterra, Ludovico faz o Coste della Sesia e o mais recente La Brenta.
www.ristorantebastiancontrario.it
http://www.terradeivini.net/
DC de fevereiro de 2009
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DC de fevereiro de 2009
Doux d'Henry, a última fronteira
Até hoje ninguém se atreveu a dizer se as videiras de Doux d'Henry têm origem francesa ou italiana. O que se sabe é que pequenos vinhedos dessa cepa são cultivados há séculos nos arredores de Pinerolo, cidadezinha colada a Bricherasio e a poucos quilômetros de Turim, no Piemonte. Terra de fronteira e, por isso, de acirradas disputas, a região de Pinerolo serviu ao poderoso de cada ocasião, francês ou nobre de alguma parte de uma Itália dividida. Contam que o nome do vinhedo (e o da própria variedade) deve-se a Henrique IV, rei da França. O monarca teria ficado entusiasmado com um vinho amabile degustado no Vale do Susa, região da famosa Sacra de San Michele. O rei visitava Carlo Emanuele I de Savóia para a assinatura de um tratado. Era início do século XVII e aquele vinho, desde a ocasião, passou a ser conhecido como Doux d'Henry. Os textos históricos relatam que, num primeiro momento, era principalmente vinhedo de uvas de mesa. Mais tarde passou a produzir vinho para ser misturado aos de outras cepas regionais. O Doux d'Henry quase foi tirado do mapa durante o remanejo das plantações, após o ataque da Phylloxera vastatrix, nos anos 20. Mas alguns produtores mais tradicionais conseguiram manter parte desse vinhedo de charme que, além de tudo, é estéril e depende de vinhedos vizinhos para o mecanismo da polinização. Apesar de a produção do tinto seco Doux d'Henry estar limitada à região do Pinerolese, nos vilarejos de Cumiana, Frossasco, Roletto, Cantalupa, San Secondo di Pinerolo, San Pietro Val Lemina, Prarostino e Bricherasio, todos incrustados nas colinas, viajantes atentos podem encontrá-lo em cidades maiores. Nas últimas décadas, os viticultores passaram a se dedicar ao Doux d'Henry como vinho varietal, já que desde 1996 Pinerolo é área reconhecida com a chancela DOC (Denominazione di Origine Controllata). Segundo o site da vinícola Il Tracio, hoje os viticultores fazem experiências sonhando com a produção de um "passito". O "Pinerolese Doux d'Henry" da Il Tracio foi um dos vinhos de destaque de janeiro no Eataly, grande centro enogastronômico em Turim, no Piemonte.
www.iltracio.com
http://winecountry.it/regions/piedmont/cities.php
DC de 3 de abril de 2009
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DC de 3 de abril de 2009
Troféus de piratas
Uma fotografia da AP divulgada pelo blog Vinography, escrito pelo bem informado Alder Yarrow, tomou conta de sites e páginas sobre vinhos na internet. Mostra um grupo de piratas somalis erguendo caixas de vinho da Califórnia como troféus. Como essas garrafas foram parar ali naquele conturbado pedaço de Oceano Índico? As histórias sobre ataques piratas na costa africana ao sul do Canal do Suez estão nas primeiras páginas de toda imprensa mundial. Mas um episódio curioso foi registrado no calar de março. A tática foi a mesma: pequenos botes se aproximaram do cargueiro Matriarch, piratas armados até os dentes dominaram a tripulação desarmada e fizeram festa com as mercadorias a bordo. No caso do refrigerado Matriarch, chamava a atenção o lote de 250 caixas de vinho, com destino ao porto de Dubai. A exibição de Cabernets cults da Califórnia, como identificou o blog Vinography, mostra que os piratas já têm noção do valor desse tipo de commodity – garrafas avaliadas em centenas e até milhares de dólares: Harlan, Screaming Eagle, Colgin, Husic... Mas a Somália não é um país inteiramente muçulmano, onde a bebida alcóolica é proibida? Mas quem disse que os piratas vão degustar as preciosidades? Há ainda o comentário de revisionistas da lei islâmica. São os primeiros a dizer que o condenável é a embriaguez, não a bebida em si, apegando-se às primeiras "suras", revelações ao profeta Maomé que apresentaram o vinho como um presente de Deus. Somente este ano, os ataques já renderam aos piratas somalis US$ 30 milhões de dólares. Diante de um Estado falido e miserável como a Somália, esses ex-pescadores encontraram no crime uma atividade inicialmente de sobrevivência e, agora, um grande negócio. Bons vinhos como os saqueados têm abastecido principalmente vips de centros financeiros endinheirados, cada vez mais longe de Manhattan. Segundo o Vinography, a crise fez o movimento dos restaurantes de Nova York cair drasticamente. Las Vegas, grande compradora desses hollywodianos cabernets da Califórnia, congelou seus pedidos. Por isso cargas assim cruzam os oceanos em direção a Dubai e Hong Kong.
http://www.vinography.com/archives/2009/04/somali_pirates_take_ransom_in.html
DC de 17 de abril de 2009
http://www.vinography.com/archives/2009/04/somali_pirates_take_ransom_in.html
DC de 17 de abril de 2009
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