A recomendação que alegrou o mundo do vinho partiu de uma voz firme, aquela que semanalmente se propaga com surpresas de conteúdo a partir de uma pequena janela do Vaticano e que alcança fiéis em toda Piazza São Pedro. Ao saudar casais que estão juntos há 50 anos, na quarta-feira (8 de junho), o papa Francisco usou o vinho como metáfora, mas também no mais secular dos sentidos. “Não se pode encerrar uma festa de casamento bebendo chá”, pregou com bom humor o líder da Igreja Católica para cerca de 20 mil pessoas. “Seria uma vergonha não ter vinho!”. E elogiando os casais, tratou de dizer que eles eram o “vinho bom da família”. O papa Francisco fez referência a trechos da Bíblia que tratam das bodas de Canaã, ocasião em que se deu o milagre da transformação da água em vinho. E vinho dos bons, servido com audácia anfitriônica no final da festa. Segundo o papa, esse milagre tão reverenciado pelos cristãos “indica a transformação da antiga Lei de Moisés no Evangelho portador da alegria”.
domingo, 12 de junho de 2016
Não me venham com chá
A recomendação que alegrou o mundo do vinho partiu de uma voz firme, aquela que semanalmente se propaga com surpresas de conteúdo a partir de uma pequena janela do Vaticano e que alcança fiéis em toda Piazza São Pedro. Ao saudar casais que estão juntos há 50 anos, na quarta-feira (8 de junho), o papa Francisco usou o vinho como metáfora, mas também no mais secular dos sentidos. “Não se pode encerrar uma festa de casamento bebendo chá”, pregou com bom humor o líder da Igreja Católica para cerca de 20 mil pessoas. “Seria uma vergonha não ter vinho!”. E elogiando os casais, tratou de dizer que eles eram o “vinho bom da família”. O papa Francisco fez referência a trechos da Bíblia que tratam das bodas de Canaã, ocasião em que se deu o milagre da transformação da água em vinho. E vinho dos bons, servido com audácia anfitriônica no final da festa. Segundo o papa, esse milagre tão reverenciado pelos cristãos “indica a transformação da antiga Lei de Moisés no Evangelho portador da alegria”.
terça-feira, 22 de março de 2016
O salto das rãs modernistas
quarta-feira, 3 de fevereiro de 2016
O vinho pop de Downton Abbey
O CEO da Wines That Rock vai direto ao ponto: “podemos não entender de vinho, mas entendemos de marketing”. Wines That Rock é uma empresa americana que produz vinhos temáticos embalados pela cultura pop. Faz o vinho licenciado dos Rolling Stones, por exemplo. Sabe que a grande língua vermelha do rótulo atrai consumidores de vinho fãs da banda. A Wines That Rock fez os vinhos para todos prazeres de 50 Tons de Cinza. E foi nessa mesma trilha pop que seus executivos planejaram os vinhos Downton Abbey, viajando na série televisiva inglesa homônima, que atraiu e atrai milhões de espectadores em todo mundo. A primeira coleção nasceu em vinhedos franceses. Agora, os vinhos saem da Califórnia. Há um Cab Downton Abbey circulando por aí...
Downton Abbey, a série, traça um retrato da aristocracia inglesa do início do século XX a partir da família Crawley. A história começa com o naufrágio do Titanic, que não deixa de ser uma grande metáfora: os Crawleys enfrentam as mudanças políticas e comportamentais de sua época com uma elegância persistente que desafia a decadência que se avizinha, após os dramas da Primeira Guerra. Com seus trajes impecáveis, muitas vezes estão à mesa, acompanhados de brilhantes talheres e taças de bons vinhos, ou nos grandes salões e jardins da propriedade, com seus copos de uísque. Representam certo espírito de bem viver que teve como patrono o próprio rei Eduardo VII. (“Não se pode apenas beber o vinho, cheirá-lo, observá-lo, degustá-lo, sorvê-lo, h&aacut e; de se falar sobre ele” é uma frase atribuída ao rei.)
Em 2015, o Cabernet Sauvignon Downton Abbey da Wines That Rocks foi um dos 50 vinhos mais vendidos pela Amazon ( são comercializados somente nos Estados Unidos e no Canadá). A primeira coleção Dowton Abbey foi lançada em 2013. A companhia criou dois blends, um branco e um tinto, ambos produzidos na França. Uma parceria com a Dulong Grands Vins de Bordeaux, um negócio de vinhos de 130 anos e 5 gerações, com vinhedos na região de Entre-Deux-Mers. Para essa coleção foram usadas as mesmas castas, em solos e terrenos semelhantes aos que produziam vinhos em 1900.
A historiadora Jennifer Regan-Lefebvre, do Trinity College, de Connnecticut, entrevistada pelo site VinePair, diz que registros do século XIX mostram “que não era inusual para as famílias aristocráticas terem alguns milhares de garrafas estocadas em suas adegas”, mesmo se o consumo per capita na Inglaterra de então não ultrapassasse duas garrafas/ano. Em Dowton Abbey, entretanto, não temos a visão da adega. Sabemos da movimentação dos vinhos por meio das cenas em que o grande mordomo Carson (Jim Carter) faz as escriturações e os decanta ritualmente. Os vislumbramos, sim, mas já nas taças cheias do Conde de Grantham (Hugh Bonneville), mais pose do que real prosperidade. Richard L. Elia, da Q.R.W.com, uma revista de vinhos online, avalia que há pouco vinho em Downton Abbey e que a história merecia mais, ou pelo menos uma presen&c cedil;a mais explícita. E faz blague: o valete Thomas Barrow (Rob James-Collie) parece ter o paladar mais refinado entre todos os moradores ou visitantes do casarão, já que sabemos que ele roubou duas garrafas de Château Lafite.
Diferentemente do que ocorria em muitos círculos da alta sociedade inglesa, em Downton Abbey a noite passava longe do cocktail. Nos domínios de Robert Crawley, o aquecimento era feito com Porto e Sherry, vinhos fortificados. Os Crawley tinham uma concepção muito particular de harmonização, analisa Jennifer Regan-Lefebvre para o VinePair. Hors d’Oeuvres (Sherry), Sopa (Borgonha Branco), Peixe (Claret), Carnes leves (Champagne), Cordeiro e aves (Bordeaux vintage), Sorvetes (Porto) e Champagne, sempre muito vinho Champagne.
Há críticos que tratam os vinhos Downton Abbey feitos na França como “inofensivos”. Agora têm à frente para análise os Downton Abbey feitos na Califórnia, a partir da quinta temporada da série. A coleção homenageia Lady Cora Grantham (Elizabeth McGovern), a mulher do famoso conde, nascida nos Estados Unidos. Os criadores do vinho garantem que o mordomo Carson escolheria vinhos californianos para agradar paladares de sensibilidades mais modernas, de convidados da condessa. Eu não acredito. Os vinhos Condessa de Grantham (Cabernet Sauvignon e Chardonnay) são produzidos na tradicional vinícola familiar Lange Twins, n a região de Lodi, no Vale Central californiano. William Zysblat, da Wines that Rocks, lembra (faz marketing) que as uvas foram plantadas na Califórnia por volta dos anos 1860, justamente a época em que Lady Cora teria nascido.
quarta-feira, 27 de janeiro de 2016
Reguengos de Tabucchi, com sarrabulho
Antonio Tabucchi (1943-2012) foi o mais português dos escritores italianos, um dos grandes contemporâneos, com uma prosa dinâmica, de textos curtos, muitas vezes tragicômicos, que em seus momentos de cumplicidade com Portugal, evoca a toponímia da sua Lisboa, por onde transitam Fernando Pessoa e todos os seus heterônimos, mapa referencial onde também há lugar e tempo para uma mesa, um vinho, um prato regional. E não é à toa que esse cotidiano aflora na obra de Tabucchi: o escritor viveu em Portugal, casou-se com uma portuguesa e estudou com afinco as literaturas moderna e surrealista do país (foi tradutor de Fernando Pessoa e Carlos Drummond de Andrade para o italiano).
Pois em Requiem, uma alucinação (Cosac Naify/2015), eis que aparece, “em nostalgias irremediáveis” (Pedro Mexia), com distinção, com todas as suas letras, o vinho Reguengos de Monsaraz. Ao se encontrar com o falecido Tadeus Waclaw, uma figura de seu passado, com o qual quer tirar algumas satisfações, quebra o gelo primeiramente com taças de champanhe Laurent-Perrier, garrafa comprada na Brasileira do Chiado, o mais antigo café de Lisboa, indicação do “criado do balcão” diante de duas opções. O outro vinho era um Veuve Clicquot, “um bocadinho ácido”. Mais tarde, no restaurante do Casimiro, a conversa franca é acompanhada com Reguengos.
“O senhor Casimiro chegou com pão, manteiga e azeitonas. Com o sarrabulho o tinto seria de rigor, disse ele, mas não sei se seu amigo vai gostar, tenho um Reguengos de garrafeira que aconselho vivamente. Para mim vai o Reguengos, decidiu Tadeus. Eu fiz um sinal afirmativo com a cabeça e suspirei: de acordo, vai ser o fim. O sarrabulho vinha numa travessa de barro, daquelas castanhas com flores amarelas em relevo, de tipo popular. À primeira vista tinha um aspecto repelente. No meio da travessa estavam as batatas, alouradas na gordura, e em redor os rojões [os pedaços de carne de porco sem osso,mas com alguma gordura] e as tripas. (...) Eu espetei o garfo num rojão quase de olhos fechados e levei-o à boca. Era uma delícia, uma comida de sabor requintadíssimo”. E Tadeus serviu-lhe mais um copo de Reguengos, pedindo à cozinheira que ensinasse ao narrador, “a este rapaz como é que se prepara um sarrabulho à moda do Douro, de maneira que ele possa voltar à sua terra e fazê-lo na sua própria casa, que lá onde ele mora só se comem esparguetes”.
A cozinheira, mulher de Casimiro, ganha um copinho do Reguengos de Monsaraz e passa a receita: “se vossemecê que fazer um bom s sarrabulho tem de preparar a carne na véspera, corta o lombo em bocados regulares e tempera-o com alhos picados, vinho, sal, pimenta e cominhos, no dia seguinte vai encontrar uma carninha vem cheirosa, vossemecê pega um tacho de barro e corta lá dentro a gordura dos folhos, que é como se chama a gordura que liga as tripas, e deixa-a derreter em lume brando, põe a alourar os rojões na banha em lume forte e depois deixa cozer devagarinho. Quando a carne estiver quase cozida, rega-se com a marinada da véspera e deixa-se evaporar. Entretanto, vossemecê corta a tripa e o fígado e frita-os na banha até ficar tudo bem alourado. À parte refoga a cebola picada com azeite e junta-lhe a tigela de sangue cozido. Depois junta tudo no tacho e o sarrabulho está prontinho”.
Depois da aventura do sarrabulho, doces amarelos em forma de barquinhos, papos de anjo de Mirandela. E Casimiro trouxe-lhes café e uma garrafa de bagaço.
Reguengos de Monsaraz é uma cidade portuguesa, no Distrito de Évora, na região do Alentejo. Sua produção vinícola é conhecida internacionalmente, com rótulos das vinícolas Vinhos ‘José de Sousa’ (adquirida em 1986 pela vinícola José Maria da Fonseca), da cooperativa Carmim (hoje uma das maiores adegas do Alentejo), Herdade do Esporão (uma das mais antigas propriedades demarcadas do sul de Portugal, em 1267), Monte dos Perdigões (propriedade instituída desde antes do século XV), Ervideira, Adega do Calisto, Monte das Serras, São Lourenço do Barrocal e Luís Duarte Vinhos. Vinhos encorpados que aguentam o sarrabulho de Tabucchi e de Tadeus.
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