quinta-feira, 6 de dezembro de 2012

Vinhos dos acadêmicos

Vinhos da serra gaúcha foram servidos restaurante DOM para convidados e 19 membros da Academia Internacional de Gastronomia (AIG), em visita ao Brasil, de 1 a 8 de dezembro. No almoço de quarta-feira (12/12), comandado pelo chef Alex Atala, as harmonizações foram feitas com Cave Geisse Brut 2010, Pizzato Chardonnay 2011, Pizzato Fausto Verve 2009, Miolo Lote 43 2008 e Perini Licoroso. Os encontros enogastronômicos em São Paulo e no Rio foram organizados pela anfitriã Academia Brasileira de Gastronomia.

De espiões e gangues do bem

Dois “espiões” com base em Sonoma, na Califórnia, desde agosto de 2007 infiltram-se em vinhedos e adegas de todo mundo para revelar segredos de vinhos de qualidade. Concluída a espionagem, disparam “informes confidenciais” aos cadastrados no site The Wine Spies. O objetivo dos agentes Red (Jason Seeber) e White (Brandon Stauber) é ajudar os consumidores a decifrar os “códigos” do mundo do vinho. É evidente que são também agentes duplos, cooperando com pequenas vinícolas, pinçando garrafas raras e de qualidade, oferecendo pechinchas na internet. Neste momento, Red e White estão “disfarçados” com gorro de Papai Noel e podem facilmente disparar: “Sigam aquele Cab!”. No Brasil, o serviço de “vinhos legais, preços (quase) ilegais” é feito há poucos anos por uma gangue (quase) “escondida” no site SmartBuy Wines. Um serviço “limpo”, diga-se aqui emulando o humor desses negociantes virtuais. A semelhança com os espiões californianos está na carta de intenções: “Conseguimos isso (preços menores) porque somos fuçadores. E porque detestamos os preços exagerados que cobram por aí”. A empresa importa vinhos pontuados, com destaque para os californianos de primeira linha, como “investigou” e “fez carimbar os dedos" o crítico Luiz Horta, do Estadão. Mas há ofertas de vinhos italianos e argentinos também de bom calibre. SmartBuy Wines faz inteligentes tiradas à luz da história da Lei Seca nos Estados Unidos, mas esclarece todo “esquema”, a pedido dos consiglieri jurídicos: o comércio das “muambas” estão dentro das mais rígidas normas de importação e distribuição, apesar dos precinhos com a cara dos praticados por “contrabandistas”. Quer um Chardonnay cult, do Chateau Montelena, a vinícola que já desbancou Chablis franceses no célebre Julgamento de Paris? A gangue “pode arranjar” por um preço camarada. Ou está procurando um Petite Sirah da família Foppiano, que desde 1896 faz vinhos na Califórnia e sobreviveu a todas as intemperanças da Lei Seca? A SmartyBuy Wines separa algumas garrafas que estavam escondidas "atrás da parede falsa" para você. Para outros “rolos” da empresa, visite o descontraído site, onde é fácil descobrir como se juntar à “quadrilha” ou como se candidatar a uma vaga de “atravessador”. http://www.smartbuywines.com.br DC de 7/12/2012

quinta-feira, 29 de novembro de 2012

Alegrias de Rías Baixas

Os albariños de Rías Baixas, na costa sudoeste da Galícia e ao redor de Vigo, Pontevedra e Arousa, são vinhos brancos frescos e perfumados que nas últimas décadas têm embarcado da região dos "fiordes" espanhóis para ganhar o mundo, a começar dos Estados Unidos. Se considerarmos o incensado Paco & Lola, da vinícola Rosalía de Castro, em Pontevedra, com seu rótulos à la Almodóvar, não há erro em dizer que são vinhos alegres e contemporâneos. Os alvariños são produzidos com a mesma casta – de pequenos bagos e extremamente resistente – plantada logo na fronteira do Minho, em solo português. Em Portugal, a alvarinho faz bonito como varietal, mas entra tradicionalmente, e com muita personalidade, na composição dos vinhos verdes de qualidade. Já na Espanha, a alvariño nasce para brilhar sozinha – é a uva rainha de 130 bodegas. São 1.900 hectares de alvariño, manejados por 4.200 viticultores. Rías Baixas DO – status conseguido apenas em meados dos anos 1980, apesar da longa tradição vinícola – é dividida em cinco subzonas: O Rosal, Condado do Tea, Soutomaior, Ribeira do Ulla e Val do Salnés, sendo esta última responsável por 2/3 da produção. Há pelo menos três décadas os produtores da região passaram a cuidar da qualidade de seus vinhedos. A vinícola Pazo de Señorans é um exemplo de sucesso sob comando de Soledad Bueno e da enóloga Ana Quintela. É de onde saem um dos mais populares alvariños espanhóis, da cepa que os estudiosos tratam de ligar à família da Riesling. Ana encarou uma grande polêmica a partir de 1995, quando a Pazo de Señorans resolveu envelhecer um de seus vinhos em tanques de aço inoxidável. Pazo de Señorans Selección de Añada figura hoje entre os melhores brancos da Europa. O cenário da viticultura da região foi dissecada em recente guia (The Finest Wines of Rioja and Northwest Spain) pelos especialistas Jesús Barquín, Luis Gutiérrez e Víctor de La Serna. Segundo eles, é importante lembrar que pelo menos uma bodega de Rías Baixas já produzia um alvariño de qualidade, bem antes do reconhecimento oficial. Fefiñanes, o nome resumido da vinícola, era sinônimo de alvariño. Lembram ainda que o famoso escritor espanhol Juan Goytisolo, no seu romance Señas de Identidad (1966), já tratava o Fefiñanes como palavra do melhor dos brancos. As Bodegas del Palacio de Fefinãnes produzem hoje alvariños estruturados, sem barrica (Alvariño de Fefiñanes III Año), capazes de derrubar o mito do consumo imediato e que evoluem na garrafa por alguns anos.

sexta-feira, 23 de novembro de 2012

Vernaccia de Boccaccio

Fosse apenas a apresentação lírica da refeição “alfresco”, manjares finamente cozinhados e vinhos preciosos servidos em ambiente ao ar livre, com récitas ao final, modelo mais tarde abusado por ricos florentinos da Renascença, os escritos do Decamerão, de Boccaccio (1313-1375), já teriam entrado para a história dos mais elegantes desejos. Seus relatos vitalistas, sensuais e alegres são, entretanto, clássicos da literatura de todos os tempos – os primeiros registros realistas a traduzir os momentos de passagem da Idade Média para o Renascimento. É dentro da pungente narrativa sobre os flagelos da Peste Negra, da Igreja e da moral, que Boccaccio encontrou espaço para retratar a autoindulgência de enfrentá-los à mesa, de preferência em espaços idílicos, fora das cidades – procura da sobrevivência que punha em jogo tanto excessos como asceticismos. O Decamerão é, dizem os estudiosos, uma das melhores fontes sobre os hábitos alimentares dos italianos no século XIV, incluídos aí algumas referências aos vinhos. Na lista de Boccaccio, são identificados os da região de Monferrato (no Piemonte), um vinho grego que era produzido no sul da Itália, e um outro descrito com precisão: o Vernaccia de Corniglia. Corniglia é uma das Cinque Terre da pesqueira costa da Ligúria. Uma das vezes em que Boccaccio cita o Vernaccia é na segunda novella do décimo dia de aventuras de seus jovens personagens (sete moças e três rapazes) nos arredores de Florença, fugindo do cenário da peste. Na novella contada por Pânfilo, o abade de Cluny aparece curado de uma insuportável dor de estômago graças a duas torradas e um grande copo do vinho branco Vernaccia de Corniglia, receita simples e tradicional do malfeitor Ghino di Tacco. O bandido tinha feito do prelado refém quando a sua comitiva dirigia-se aos banhos de Siena. Depois da cura, Cluny ganhou a liberdade e Tacco, seus bens e a promessa de perdão papal. O vinho Vernaccia não é feito mais em Corniglia. Hoje a Vernaccia é a uva cultivada em San Gimignano, na vizinha Toscana, que vem produzindo vinhos de qualidade. Isso graças à dedicação principalmente das famílias Falchini, Montenidoli e Panizzi. Os viticultores dessa região ainda demonstram orgulho por ela ter sido a primeira a ganhar a chancela DOC, em 1966, e de ter um dos poucos brancos da Itália com a consagração do DOCG, anotou o crítico Nicolas Belfrage. Os Falchini tem o seu varietal 100% Vernaccia di San Gimignano Vigna a Solatio, mas já elaboram vinhos mais complexos com a mesma Vernaccia, adicionando Chardonnay, "contra a monotonia". Os Montenidoli produzem, sem medo dos blends que garantem mais estrutura aos vinhos, Il Templare Toscana IGT: 70% Vernaccia, 20% Trebbiano e 10% Malvasia Bianca. Já os tintos de San Gimignano são tema para outra história. Diário do Comércio de 23/11/2012